“Vai ser bom, mas muito difícil”. Três ideias a reter para quem quer adotar

09 ago, 2018 - 13:00 • Marta Grosso

São “pais do coração”, porque os filhos não nasceram de dentro deles. A “gravidez” costuma demorar mais do que nove meses e a espera é dura. Ana Kotowicz viveu tudo isso e decidiu ajudar quem quer fazer o mesmo. “Adotar em Portugal” é “um guia para futuros pais”.
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A decisão de adotar uma criança segue-se, na maioria dos casos, a um diagnóstico de infertilidade. Nesse momento começa um caminho cheio de altos e baixos, que deverá culminar no encontro com o filho desejado.

Ana Kotowicz passou por todo o processo. Hoje mãe de duas filhas, diz que há três ideias fundamentais a saber antes de avançar para a “parentalidade do coração”.

1. Não existe o direito a adotar. Existe o direito de a criança ter uma família

“É mesmo muito importante os candidatos terem [isto] em mente”, afirma à Renascença a autora de “Adotar em Portugal – um guia para futuros pais” (ed. Livros Horizonte).

“Quando as pessoas percebem isto, percebem que todo o sistema e todo o processo está feito a pensar na criança e não em quem está à espera de ter um filho”. Deste modo, garante, “os tempos de espera” tornam-se menos dolorosos.

No entender, de Ana Kotowicz, “às vezes, baralham-se as perspetivas”.

2. Antes de adotar, o luto

A maior parte dos casais que partem para a adoção, fazem-no depois de um processo de infertilidade. É “o que nos dizem os técnicos da Santa Casa da Misericórdia ou da Segurança Social”, conta a autora, que entra nesta estatística.

“O que é que acontece? Temos um diagnóstico de infertilidade e automaticamente procuramos na adoção a criança que não conseguimos gerar dentro de nós”. Mas há que “perceber que ter um filho pela via da adoção ou pela via biológica não é a mesma coisa”, alerta.

“São desafios diferentes, são circunstâncias diferentes e acho que tudo vai ser mais fácil se conseguirmos, primeiro, encerrar esse capítulo da nossa vida para podermos abraçar o seguinte”, aconselha.

3. O passado faz parte do presente

“É muito importante os candidatos terem a noção de que o seu futuro filho tem um passado do qual eles não fazem parte e que esse passado tem que ser respeitado e não pode ser esquecido”, sublinha Ana Kotowicz.

Se há uns anos, a adoção era algo feito quase às escondidas e muitos dos que eram adotados só o descobriam muito mais tarde, hoje pretende-se que as crianças saibam “desde o primeiro momento que foram adotadas” e que o passado delas seja respeitado na nova família.

É “uma coisa que aprendemos desde o início, logo na sessão A – que é a primeira formação que temos de fazer para ser candidatos” a pais, conta a jornalista.

“Elas tiveram uma família biológica e foram afastadas dessa família por 'n' motivos. Nós não devemos, enquanto pais, tentar passar uma esponja pelo que ficou para trás. Acho que devemos respeitar as coisas, que devemos responder a todas as perguntas que nos fazem – com limites, claro, tendo em conta a idade da criança, o que ela está preparada para perceber e sem diabolizar o que está para trás”, afirma ainda.

“Acima de tudo, respeitar aquilo que faz parte da identidade dela e que faz a criança ser quem é”, resume.

“Reis procuram príncipes”

Como se diz a uma criança de um ou dois anos que é adotada? Ana Kotowicz começou a trabalhar nisso logo no início, depois daquela sessão A.

“O ideal é que, em algum dia, ela diga que sempre soube. E o ‘sempre soube’ é em pequenos passos”, diz. Mas como? Através de histórias, por exemplo. Como não encontrou nada no mercado, Ana acabou por escrever a dela.

“Nós candidatámo-nos para crianças até aos seis anos e como não fazia a mínima com que idade iriam chegar, comecei a escrever uma história que depois acabou transformada em livro e foi mesmo publicado”, conta.

A história chama-se "Reis procuram príncipes" e é a de Ana e do marido “na procura de ter um filho e o nosso processo de adoção”. Foi escrita durante o processo, “enquanto esperávamos”.

Mas há outras brincadeiras. “Podemos estar a brincar com animais e haver o leão e a leoa que adotaram o bebé girafa. Coisas deste género, que podem ir servindo para introduzir a ideia de que aqueles pais estão a proteger um bebé que não nasceu de dentro deles”, exemplifica.

O livro está cheio de histórias pessoais – seja da autora seja de pessoas com quem Ana Kotowicz falou e que passaram pelo mesmo. Sabendo que não há duas histórias ou processos iguais, a autora lançou este “guia para futuros pais” com o principal objetivo de “ajudar as pessoas que estão no processo ou a pensar abrir um processo”.

Quis que os candidatos a “pais do coração” vissem “um bocadinho o que é este mundo e irem para ele sem uma série de ideias feitas, de tabus e de mitos que existem à volta da adoção”, diz à Renascença.

Adotar não é fácil

“Quem disser que constituir uma família pela via da adoção é fácil e tranquilo, esqueça. Não é verdade. Adotar não é fácil. Em momento nenhum”, garante Ana Kotowicz.

Em resumo, estas são as principais etapas do processo.

  • Decisão

“Temos de tomar a decisão, temos de fazer o luto da infertilidade; temos de conseguir estar de acordo [entre o casal] – não pode um querer muito e o outro não querer nada; não pode um querer uma criança até 10 anos e o outro só querer um bebé. É preciso um trabalho do casal para estar de acordo em tudo e mais alguma coisa”.

  • Avaliação

“É um momento dispositivo, uma espécie de terapia de casais. Eu lembro-me de nos dizerem na formação que muitos casais não conseguem passar daquela fase, porque não estão prontos para aquilo; não estão prontos para dizer tudo e mais alguma coisa sobre si à frente do outro”.

  • Espera

“Passando tudo isto, há o momento da espera. É terrível. Terrível, porque não sabemos quando vai acontecer, porque tudo o que mais queremos é ter um filho nos braços e pode demorar seis meses ou seis anos – e em seis anos muitas coisas mudam na nossa vida”.

  • Somos pais

“Tornamo-nos pais de uma criança que é uma estranha. E a criança, de repente, tem dois adultos à sua frente que lhe são estranhos. É preciso criar vínculos, é preciso criar laços, é preciso dar espaço para o amor nascer dentro da família. E isso não é nada, nada, nada, nada fácil. É muito complicado”.

  • Somos família. O embate

“Estamos ali num drama que é: o que nós mais queremos é que a criança olhe para nós e nos ame, que nos veja como seu pai e sua mãe. Ao mesmo tempo, temos que estar a educá-la, temos que estar a impor uma série de regras e estamos a pensar 'oh, meu Deus, mas se eu disser isto, será que ela vai continuar a gostar de mim?'. Não podemos fraquejar e é muito difícil”.

“Estamos muitas vezes com crianças de 3, 8, 9 anos, que viveram até ali uma vida completamente diferente e de repente caem numa casa com adultos com quem não têm relação nenhuma e que lhes estão a dizer que têm de fazer as coisas assim ou assado e eles, naturalmente, porque são crianças, vão testar todas as regras até ao limite. Porque é isso que as crianças fazem e é esse o papel delas: testar os pais e perceberem até podem ir até onde não podem ir.

E se isto acontece com filhos biológicos, mais ainda acontece com filhos pela via da adoção. Eles chegam a casa e querem saber até onde podem ir e vão testar tudo, tudo, tudo. Esse período é muito difícil e é preciso uma força muito grande para resistir a este embate inicial”.

Esta fase passa e, de repente, “tudo acalmou, acabaram os testes e entrámos numa espécie de velocidade cruzeiro. As birras não acabaram, obviamente, porque não há crianças que não façam birras, mas deixaram de fazer 10 antes do pequeno-almoço”, avança Ana Kotowicz.

O que podia ser melhor?

Apesar de já terem sido dados “passos importantes”, a autora de “Adotar em Portugal” considera que há aspetos na lei que ainda têm de ser adequados à realidade, nomeadamente no que diz respeito à licença de maternidade.

Começa logo na fase de integração da criança. “É um momento em que os pais se deslocam à instituição onde a criança está e depois, durante uma semana ou 15 dias, todos os dias vão estar com ela. Portanto, a criança ainda não está em casa e somos nós que temos de nos deslocar para estar com ela. Só ao fim desse período de integração é que a criança vai para casa”.

O que é que acontece? Esse tempo não está previsto “em lado nenhum da lei – ou seja, não estamos ainda sequer em licença de maternidade”, o que significa que não há “como justificar uma ausência de 15 dias no trabalho”.

“Isto põe os candidatos a adotantes nas mãos dos seus patrões, que podem ser mais ou menos compreensivos. Nós nunca sabemos quando vamos receber o telefonema, portanto, podemos ter férias disponíveis ou não. E mesmo as férias é preciso que a entidade patronal diga ‘sim senhor, pode ir de férias’; não posso, de hoje para amanhã, dizer agora vou-me embora porque preciso de gozar estes dias”, explica a jornalista.

Seria, pois, importante que “a licença de maternidade começasse no momento da integração e não no momento em que a criança sai da instituição”.

Se pensarmos na adoção internacional, a situação torna-se ainda mais complicada, pois os pais têm de se deslocar ao país de origem da criança muitas vezes.

Além disso, era importante que ambos os pais pudessem ter acesso à licença de maternidade nos primeiros dias. De acordo com a lei atual, apenas a mãe pode fazê-lo.

Apesar de haver uma iniciativa parlamentar – “salvo erro, do Bloco de Esquerda” – para alterar este ponto da legislação, até agora nada foi feito, pelo que o pai não tem o direito de gozar a licença parental inicial, que contempla 10 dias úteis (5 dias seguidos logo após o nascimento e 5 dias seguidos ou interpolados, nos 30 dias seguintes ao nascimento).

Ora, “numa adoção – se calhar ainda mais importante do que quando é nascimento – é fundamental que estejam os dois em casa com a criança a trabalhar na vinculação, a criar laços afetivos na família”, sublinha Ana Kotowicz.
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  • Teresa Pereira
    10 ago, 2018 Rio Maior 01:23
    Parabéns, um excelente artigo de muita ajuda a quem adota. Ainda existe um longo caminho a percorrer, principalmente no apoio posterior e acompanhamento aos novos pais e às crianças.
  • 09 ago, 2018 15:07
    A d.rosa palma que baixe a bolinha! Porque as camaras e as juntas de freguesia sao quem tem responsabilidade maior "devido a proximidade !