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“Bê-à-bá doméstico”. Uma ajuda à integração de imigrantes

17 jul, 2017 - 18:56 • Isabel Pacheco

Projecto do Centro Comunitário São Cirilo, no Porto, ligado aos jesuítas, dá formação especializada em serviço doméstico e também ensina português, as ferramentas base para um novo começo de vida.
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O “Bê-à-bá Doméstico” é um projecto que visa capacitar, social e profissionalmente, mulheres imigrantes na área do serviço doméstico. É-lhes dada formação técnica e também aprendem português, para facilitar a sua integração no mercado de trabalho. Funciona no Centro Comunitário São Cirilo, no Porto, ligado aos jesuítas e apoia quem se encontra em situação de exclusão ou fragilidade social temporária, ajudando à sua reintegração.

Mariama é uma das 13 formandas do “Bê-à-bá doméstico” que encontrámos no Centro durante o seu estágio, depois de três meses de aulas. “Vim fazer um curso de culinária, limpeza e passar a ferro. E também estudamos um bocadinho português”, diz-nos com satisfação. Tem 38 anos, um brilho no olhar, e conta já teve mais dificuldade em sorrir: “eu não ria, eu não sorria, até tinha medo de olhar para alguém. Agora libertei-me um pouco”. Esta mãe guineense está há 15 em Portugal, mas só agora parece ter reencontrado a esperança de uma vida mais fácil para si e para as suas duas filhas: “foi difícil, sobretudo, desde que tive bebés, mas agora já está tudo bem. Estou a estagiar aqui para ver se vou trabalhar”.

Na mesma turma encontrámos Taís Cardoso. A aluna de mestrado em Comunicação encontrou a sua oportunidade de estágio numa guest house do Porto. É lá que assume o papel de anfitriã na cidade que a acolheu. O que mais gosta é dar dicas aos turistas: “Creio que todos conhecem o Imperador D. Pedro. Eu sei que o coração dele está numa capela ali na Lapa, que de vez em quando abre ao público”, explica, orgulhosa dos seus conhecimentos sobre o nosso país. Quer trabalhar enquanto estuda em Portugal, mas já teve várias entrevistas de emprego falhadas e até “estranhas”. Recorda que numa delas o entrevistador repetiu em todos os momentos “você é brasileira". "Então, e tudo o que eu já fiz, não conta?”, questiona a jovem licenciada em comunicação social. “Entendo que algumas pessoas tenham medo que a entrada de estrangeiros tire empregos, mas, ao mesmo tempo, há vagas, no que os portugueses não gostam de fazer e que outras pessoas poderiam ocupar”.

A coordenadora do projecto “Bê-à-Bá doméstico” diz à Renascença que não encontrou resistência na hora de encontrar colocação para as alunas. ”Bem pelo contrário”, sublinha Concha Tello. “Independentemente de às vezes haver manifestações contrárias, no geral a sociedade portuguesa é muito solidária colocando as suas empresas ao serviço do projecto, em termos de estágio, e depois na possível colocação de trabalho”. Diz que teve “excepcional receptividade de alguns restaurantes muito conhecidos do Porto, para poder ter estágios, e uma aluna ficou mesmo num desses restaurantes”, e que esta foi a sua experiência: “colaboram sempre nesta perspectiva ‘o que é que nós podemos contribuir para ajudar?’”.

As parcerias já feitas permitem às formandas, depois de três meses de aulas, testarem os seus conhecimentos, que vão muito além do serviço doméstico. “É uma formação especializada nesta área, mas é mais alargada, porque também inclui módulos como língua portuguesa aplicada ao serviço doméstico”, explica a responsável pelo curso. “Tivemos duas formadas que não eram de países de língua portuguesa, uma do Gana e outra do Nepal, e para elas o módulo de português foi ainda mais importante”.

“Havia um módulo mais transversal, que era o módulo de recursos pessoais e sociais, e também receberam um pouco de formação sobre a cultura portuguesa”, explica Concha Tello, para quem uma das mais valias deste projecto é dar a estas mulheres ferramentas para trabalhar e alento para acreditarem numa nova vida: “percebemos que para algumas foi a alavancagem para outros vôos, a perspectiva de continuarem a sonhar, de repensarem o sentido de vida e até onde querem ir”.

O projecto “Bê-à-Bá Doméstico” foi distinguido, em 2016, com o prémio BPI Solidário. Arrancou em Março com as primeiras 13 alunas, e terminou em Junho. A partir de Outubro, e até Janeiro, irá formar mais 16 imigrantes. As candidaturas abrem em Setembro.


Esta reportagem foi transmitida no espaço das 12h15 em que, à 2ªas feitas, damos destaque aos temas sociais e relacionados com a vida da Igreja.


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