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Reportagem

O debate ouvido no rádio a pilhas do pastor Celestino

17 set, 2015 - 20:13 • Maria João Cunha , Ricardo Fortunato

No Portugal profundo, escutamos o debate no rádio a pilhas de um pastor. O que ouvem estes eleitores? Como lhes chega a mensagem política? Em Paredes da Beira, concelho de São João da Pesqueira, Celestino sintoniza a Renascença e analisa para a reportagem da própria rádio a qualidade do discurso de Passos e Costa. O retrato de um país que se sente esquecido.
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O debate ouvido no rádio a pilhas do pastor Celestino

Celestino conduz veloz o rebanho por um caminho de cabras, cravado de urzes e penedos. Conhece-o bem. Percorre-o com destreza. Até o podia fazer de olhos fechados, sem tropeçar.

Lá em baixo, junto ao pomar onde vai deixar as cabras a pastar, a mulher Elvira já o espera – foi de tractor. Celestino leva o rádio na mão para ouvirem juntos o debate.

Não o fariam não fosse a nossa reportagem. Estariam “no soito”, que o tempo não abunda e há sementeiras para fazer, uma corte para ajeitar e muito serviço ainda para despachar.

São os dois sozinhos para tudo. Para os terrenos de cultivo, para o milho, o centeio, para o pomar e as oliveiras, os castanheiros, as vinhas, a horta, o feijão, as batatas, os perus e as galinhas. Vida de campo, dura, que nunca lhes permitiu gozar um dia de férias, uma folga ou um fim-de-semana. Nunca. Pelo menos desde que casaram, assegura Elvira.

As costas não a deixam caminhar bem, avança com dificuldades. Ajeitam uma pedra para sentar (coisa que até não costumam fazer), sintonizam o rádio (emprestado, porque “os dos chineses avariam uns atrás dos outros” e lá em casa até há um, mas é grande demais) e compenetram-se na tarefa para os longos minutos que se vão seguir. Ouvir e comentar um debate, lá em Lisboa, do Costa e do Passos. Haja quem os queira ouvir.

Gentilmente concedem-nos: compreendem a importância de falar e serem ouvidos.

O debate arranca e o relato do jornalista arranca também um sorriso em Celestino. A magia da rádio põe ali, no meio do campo, a sala inteira do Museu da Electricidade, em Lisboa, onde o líder da coligação que governa e o líder da oposição se defrontam.

Celestino faz parte desse momento. E rapidamente mostra para que lado pende. “’Tás a falar bem! ‘Tá-lhe a chegar. Chega-lhe aí ao gajo!”, atira divertido quando o primeiro-ministro começa a desenvolver uma primeira ideia.

À medida que os temas são lançados, Celestino e Elvira vão comentando. “Isto dos refugiados é o catano”, reage o homem, com ar preocupado. Percebe que aquela gente “está a passar mal”, mas tem medo.

A chuva começa a cair e obriga-os a refugiar-se na "corte", uma casa de pedra meio-desfeita meio por fazer, ao lado do pomar onde as cabras se ocupam a trincar o que lhes dá o chão. Elvira arruma algumas silvas que estão para ali a desfear o espaço. Voltamos a sentar e o “silêncio” da emissão pousa também por debaixo do tecto de ripas de madeira assentadas a espaços – fosse a chuva mais grossa e ninguém lhe escaparia.

“Se não fosse a troika estávamos na pendura. O homem tinha que se desenrascar. Mas nós é que temos de pagar tudo...” O discurso de Celestino oscila na ténue esquizofrenia de quem tem um partido (“de pequenino”, conta-nos depois), é indefectível, mas sentiu na pele os efeitos nefastos da sua governação. Elvira equilibra: não vota por causa de uma má experiência com um voto do marido que gerou “inimizades” na freguesia, mas percebe que os socialistas “estão a ganhar” terreno. “O pessoal está muito contra o Passos, eu acho que vai haver muita gente a virar para os socialistas”, diz.

Mas não haja dúvidas. Estamos no distrito de Viseu, eterno “Cavaquistão” e em Paredes da Beira, concelho de São João da Pesqueira, coração do Alto Douro Vinhateiro, PSD e CDS têm historicamente a dianteira – e as preferências da larga maioria.

Volta e meia, Celestino tem de se atirar às cabras, que lhe escapam para sítios proibidos. Atira-lhes o cajado, atiça-lhes os cães para que cumpram a sua função de pastores. Mas volta sempre ao debate. A que se vai sobrepondo, aqui e ali, com interjeições quase irreproduzíveis e instruções tácticas aos bichos. “Vai lá, Estrela, vai lá! Deixa! ‘Bota’ abaixo. Vai lá, Farrusco! Deixa, Estrela. Anda cá. Muito linda...”

O sol reaparece no céu de Paredes da Beira e voltamos ao pomar onde a pintura sonora tem badalos de cabras e ovelhas e as frequências de um rádio a pilhas.

O tema da emigração entra no debate. E é quanto basta para Celestino puxar a brasa à sua sardinha. “Se dessem trabalho aos jovens na agricultura, eles não tinham de se por daqui para fora. Haviam de nos ajudar mais. O subsídio para o pastoreio não chega e cada vez nos tiram mais no IRS.”

“A coisa está mal”

Recebem 5 mil euros de subsídio anual. Por mês, é menos do que um salário mínimo para os dois, que têm de investir na produção – no rebanho e nas culturas. “Só em vacinas para as cabras foram 400 euros de uma vez”, conta Celestino. “E tantas vezes temos de deitar coisas fora. Muita coisa se estraga: couve, grelo, batata...” A ideia de Elvira é complementada pelo marido: “E Portugal a comprar coisas lá fora”.

Uma clara assunção de que “a coisa está mal”. No ano passado começaram a ter de pagar IRS porque subiram de escalão. “No que eles podem, cortam logo”, concordam.

“E todos prometem, mas ninguém faz nada”, acrescenta Elvira, que ainda há pouco ficou sem a baixa, embora continue incapacitada para o trabalho duro do campo. “Outros, com boa saúde, recebem tudo da Segurança Social”, desabafam. E contam que têm de ir às consultas à Régua ou a Vila Real. Uma deslocação para um hospital no Porto, por exemplo, implica a dispensa de 70 euros para os bombeiros, a quem têm de pagar a deslocação.

Elvira aconchega o musgo da pedra com a ponta do guarda-chuva durante todo o debate. As ovelhas beliscam as maçãs no chão do pomar. “Promessas há muitas. Mas haviam de vir era aqui às aldeias, pelo menos durante a campanha. Em quatro anos não passa por aqui nenhum primeiro-ministro”. É a interioridade de que Celestino fala que muito o chateia.

E este é o debate de Elvira e Celestino. “Já tenho 62 anos, senão punha tudo no prego”, diz o homem. Ela tem 59 – “até que cheguem os 66... Já viu?” A idade da reforma é mesmo o que mais os preocupa - “se lá chegarmos” – embora percebam que nenhum daqueles dois candidatos propõe a sua revisão para os 60, ou mesmo 55 anos, como gostariam.

Os cães (Blake, Estrela, Bolinhas, Farrusco, Ruca e Lassie), um de cada nação, descansam na calma do momento em que a rádio se faz ecoar no vale. Sempre que os candidatos discutem os tempos do debate, Celestino ri-se. Mas, ao cabo de mais de uma hora e meia, finda a paciência (e a piada, praticamente). “Acabai!”, pede o homem sem perder a compostura.

No final, deixamos a análise dos comentadores de Lisboa para as calendas e fazemos ouvir a voz de Celestino e Elvira. Estiveram os dois bem, “cada um a puxar a brasa à sua sardinha”. Mas, para Celestino, Passos Coelho ganhou.

Comentários
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  • jose santos
    21 set, 2015 j.martins.ferreira@sapo.pt 08:14
    Como se vê o Homem que até dis ser de esquerda, vive num condominio fechado, com segurança, e outras merdomias. Lembro do ministro dos negocios estrangeiros grego que també, é da extrema esquerda, mas vive numa manção de luxo virada para o mediterranio. Aplica-se a máxima, olha para o que eu digo mas não para o que eu faço
  • mikas
    21 set, 2015 aqui 06:59
    já não tenho muita paxorra para ver e ouvir mais do mesmo, mas hoje num canal noticiário valeu a pena. A jornalista pergunta a uma criança, talvez de 3 aninhos, ao colo da mãe: -Já podes votar ? - sim - e em quem vais votar ? - na minha mamãzinha :)
  • Ao Pastor
    19 set, 2015 Lis 14:34
    Perante o que expressou que subscrevo e confirmo, não há nenhum pastor que nos acuda...Dizem que a democracia está madura, mas o que continua maduro e podre é o caciquismo que leva gerações a desaparecer. Mas anda por aí muita hipocrisia de patrioteiros que se alimentam dele, prejudicando o país.
  • Mário Jorge ferreira
    18 set, 2015 Lisboa 17:48
    Do ponto de vista jornalístico, muito bem concebido e conseguido. Parabéns pelo vosso trabalho. Tudo isto resulta não só da ignorância de grande parte do povo português, como também dos designados "opinion makers" que invadem a nossa privacidade através dos mídia (principalmente a televisão) e condicionam a mentalidade deste povo. Exemplo claro disso, é o caso que designo por "Correio da Manha" (não confundir com manhã), o qual, não me parece que seja por mero acaso, ser o tal "jornal" mais lido em portugal. Mais uma vez, muitos parabéns.
  • Pastor
    18 set, 2015 Fojo da Serra 14:11
    Alguns pastores que eu conheço (são cada vez menos) votam todos no PPD, não por convicção, mas porque o patrão é rico e o partido dele é esse. Na minha aldeia (algures no interior longinquo detrás do sol posto) 90% dos votantes também votam no PPD (a culpa é do padre que faz politica na igreja durante as missas de domingo). No sec XXI isto ainda é assim! Quem nos acode?
  • Júlio BRanco
    18 set, 2015 Buraca 13:25
    Infelizmente, a população do campo não são bem esclarecidos e se o seu presidente da junta é de determinado eles são influenciados por essa pessoa, porque mais ninguém lá aparece para os esclarecer. Além do mais estes pobres pastores, não só nesta aldeias, também m muitas outras sofrem com a crise, e não entendem que não é necessário roubaram nas reformas e nos salários para sairmos da crise, pois há muito onde os governos podem ir buscar dinheiro, e não sempre aos mesmos, fazem-nos por ser mais fácil e terem também "faca e o queijo na mão", mas esta população não entende, optam a darem o voto pelo retrato fisiológico da pessoa e não pelo que eles fazem, ou seja a roubarem a quem mais precisam. É destas pessoas que os maus governantes precisam e não lhes convém esclarece-los. É o Portugal que temos e esta reportam assim o demonstra. Júlio Branco
  • Joana Campos
    18 set, 2015 Porto 12:44
    ele vota PSD porque sim, por hábito mas na peça bem fala de como o irs piorou para ele, queixa-se da emigração forçada... vota por hábito. Um retrato bem ùtil para quem o quiser perceber..
  • Marco
    18 set, 2015 Viseu 11:00
    É lastimável que a RR, uma empresa da Igreja Católica, assuma uma posição a favor da coligação psd/cds. Deturpa o valor e o sentido do universalismo sem mesmo respeitar outras opiniões de Católicos que não votam nesse governo; e não votam nesse governo por respeitar os valores cristãos pois têm consciência do mal que está a ser feito ao País, em concreto às famílias. Ao mesmo tempo esse veículo "católico" de comunicação, não terá lido, e se leu não valorizou, a carta do nosso Cardeal Patriarca, quando pede para termos a coragem de avaliar os programas eleitorais à luz dos valores do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. O Sr. Celestino, como tantos outros, é também vítima desse jornalismo atrasado e a mando do "caciquismo", que não quer pessoas esclarecidas e protagonistas da sociedade onde vivemos. Quanta falta nos faz um jornalismo isento. Cumprimentos e parabéns a todos quantos não se deixam enganar por essa gente sem escrúpulo.
  • LMP
    18 set, 2015 09:09
    Também sou de uma terra assim. Tirou, se tirou, a 4ª. classe mais tarde e não o chamaram para o seminário. Será que sabe ler? Na minha aldeia a escola abriu pouco antes de eu atingir a idade de a frequentar. Vá lá que tem um rádio. Eu não tinha. A professora para além de ensinar mal, pois era muita gente para uma só, na igreja só aprendíamos a catequese. A catequese agora é outra. Por estas terras não desapareceu o caciquismo.
  • Paulo
    18 set, 2015 vfxira 09:03
    Boa publicidade não há dúvida,e quanto a imparcialidade?não ouviram mais ninguém?Não ouviram que este país está na miséria?que os filhos têm de emigrar,que há tantas familias que até a casa lhe hipotecaram,que muitas crianças só têm uma refeição por dia e é dada na escola........Mas o psd e o cds agora são o salvador desta republica das banannas,não +e que o ps seja melhor!............