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Uma aldeia não tem o IC29 e a VCI a passar por cima das cabeças. Uma aldeia não fica a poucos quilómetros de um gigantesco centro comercial e de um gigantesco estádio. Numa aldeia não moram quase 33 mil pessoas. Campanhã está condenada a ser um “sub-Porto”?

Por Pedro Rios e Marília Freitas

Falcão não pára de se mexer perante a presença de estranhos. Preso por um cordel, move-se numa área curta, à frente de um velho portão em madeira vermelha. Atrás do portão, há mato selvagem, de onde, de vez em quando, saem ratos, cobras e outros bichos. À frente, há uma casa sem gente, feita em ruínas, engolida pelo silvado, e uma com gente – um jovem casal, ela de 25 anos, ele de 26.

Não dá a cara, nem o nome (chamemos-lhe Maria). Mas mostra onde vive há dois anos: num beco próximo da Rua de Azevedo, na freguesia de Campanhã, no Porto oriental, onde se avistam gatos vadios.

Paga 190 euros por mês. “Para o estado da casa”, o valor é alto, diz. Mas foi o tecto que encontrou “de vago” em Campanhã, onde vive há dez anos e onde quer ficar.

A casa de Maria tem dois quartos, mas o do filho, que frequenta a escola do Lagarteiro, ali perto, não tem luz eléctrica. A cozinha é exígua e estava junta à casa de banho, ainda mais pequena – agora, há um pedaço de cimento a separá-las. De Inverno, a água acumula-se à entrada da habitação. Não há saneamento básico – não são caso único nesta freguesia, a mais pobre do Porto.

“Para fazer umas obras mais ou menos é preciso ter dinheiro. E neste momento não há”, conta Maria, desempregada. O marido não trabalha – tem duas pernas amputadas abaixo do joelho. Vivem do Rendimento Social de Inserção.

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Maria gosta da calma de Campanhã. Parece uma aldeia? “Não é bem uma aldeia. Uma aldeia é mais pacata. Mas sim, é calmo. Aqui nesta zona não tenho nada: não tenho pão, supermercado, nada”.

Uma aldeia não tem o IC19 a passar por cima das cabeças. Outro gigante de betão, a VCI, que circunda o Porto, também anda por perto. Uma aldeia não fica a poucos quilómetros de um gigantesco centro comercial e de um gigantesco estádio. Numa aldeia não moram quase 33 mil pessoas (no Porto, só as freguesias de Paranhos e Ramalde têm mais).

“Uns para os outros”

Na Rua do Alto da Bela, Vitorino Ferreira encontrou uma forma de passar a velhice. A esposa convida-nos a entrar para ver as suas criações: esculturas que são engenhos mecânicos, peças com conchas, cacos, relógios de automóvel, moedas e que giram e se iluminam quando ligadas à electricidade. “Na freguesia, nunca ligaram aos artistas”, queixa-se Vitorino.

Idorindo Ribeiro aguarda a chegada da reformada da esposa

“A minha mulher anda atrás de mim, pensa que ando com outras mulheres, mas não ando. É convívio, ali num cafezito. Joga-se uma ‘suequinha’…”, conta Idorindo Ribeiro, 69 anos, que encontramos numa ponte que atravessa o poluído e mal cheiroso Rio Tinto.

As “suequinhas” são uma das especialidades dos clientes do Grupo Desportivo e Recreativo Os Zangados de Campanhã. Fica na Rua do Alto da Bela. É uma artéria estreita por onde quase não passam carros. Aqui ainda há fiado, ainda se cedem “duas ou três cervejas para levar para casa”.

“Temos que ser uns para os outros”, diz Jorge Alves, desempregado de 42 anos, que mora na rua e ocupa parte do tempo a tomar conta do espaço d’Os Zangados.

Em 2014, o grupo celebra 80 anos, mas esta “colectividade de rua”, que ostenta vários troféus, está hoje reduzida a um café. “Já tivemos futebol de salão, havia damas, cartas… A juventude começa a fugir daqui porque não tem nada.”

Maria Arantes e Patrícia à porta de casa

O pai de Maria Arantes já presidiu aos Zangados, em tempos em que o IVA não entrava nas dores de cabeça de uma colectividade. Maria, 58 anos, vive ali ao lado, com a filha, Patrícia, e o marido.

A casa está numa espécie de ilha, que Patrícia, 25 anos, define como um “bairrinho”. Lá não falta nada. “Não trocava para ir para outro sítio”, diz Maria, com 166 euros de reforma.

Jorge Alves também “não trocava”, mas não se conforma. Muitas casas da rua não têm saneamento. “Aqui na cidade! Não estamos numa aldeia.”

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Esqueletos

Patrícia também gosta da freguesia onde vive desde os 14 anos. Mas não a conhecia totalmente até participar nos inquéritos para os Censos de 2011. Esse trabalho levou-a a zonas de Campanhã onde há “pessoas que nem casa de banho” têm. Viu coisas que não esquece: “Faziam num balde e mandavam para o quintal, tomavam banho numa bacia.”

Há ruas sem iluminação pública. Há poucos cafés, mercearias, serviços. Fábricas abandonadas, como a da Tripa, a Companhia Portuguesa de Cobre, e outros esqueletos urbanos.

O que defendem os candidatos à Câmara do Porto para Campanhã?

  • Luis Filipe Menezes
  • Manuel Pizarro
  • Rui Moreira
  • Pedro Carvalho
  • Nuno Cardoso
  • Costa Pereira

Para Jorge Ricardo Pinto, autor de "O Porto Oriental no Final do Século XIX" (2007), mais do que qualquer mega-estrutura, o próximo presidente da Câmara do Porto deve “olhar para Campanhã com a mesma atenção que olha para outras freguesias”. A política deve fornecer, “no mínimo, as condições básicas”, da luz nas ruas ao saneamento, diz o especialista em geografia urbana.

No século XIX, Campanha era “ultraperiférica”. No século XXI, “há áreas”, como Pêgo Negro e Azevedo, que “continuam a ser ultraperiféricas”. “O cenário é quase uma aldeia e, no entanto, é Porto.”

Razões? O “íman” do mar (Campanhã é a freguesia do Porto que está mais longe do Atlântico), a falta de investimento das autarquias, o “processo de desindustrialização” que afectou uma zona que beneficia de uma estação ferroviária por onde se escoavam produtos.

Habituado ao abandono, Alfredo Pinheiro, 63 anos, goza a reforma na calma quase rural de Campanhã. Vive perto de um lavadouro desactivado.

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Diz que a freguesia já teve outros tempos. Mas, apesar dos problemas, apesar do consumo e tráfico de droga, “aqui respira-se”. No terreno da habitação, há uma presa de água límpida (muito mais límpida do que a do vizinho Rio Tinto) e uma eira desactivada, vestígio de um tempo em que a agricultura ocupava boa parte dos moradores de Campanhã.

“A minha distracção, durante o dia, é levantar-me de manhã e levá-la [à esposa] ao trabalho. Venho [para casa] e vou até ao café jogar cartas”, conta Alfredo.

Uma freguesia de bairros

Nesta freguesia, concentra-se uma parte importante dos bairros sociais da cidade. Quase 30% dos fogos de habitação social do município estavam fixados em Campanhã (números de 2006, citados pelo Diagnóstico Social do Porto).

A situação é reconhecida pela Câmara do Porto. “Preocupante é o ciclo vicioso que muitas vezes se instala nestas áreas que poderemos designar de privação múltipla. Aqueles que começam a usufruir de melhores rendimentos saem e apenas permanecem (ou chegam de outras áreas) os segmentos da população de mais débeis recursos”, refere o relatório sobre as condições sócio-demográficas e equipamentos da zona, produzido no âmbito do Plano de Pormenor do Parque Oriental.

“Neste caso a tendência resultante é a da própria área passar a gerar a exclusão social oferecendo serviços educativos e sociais pouco diversificados e sem qualidade, poucos e maus empregos e, em situações limite, estigmatizando mesmo os seus residentes”, acrescenta o texto.

O bairro do Cerco é um dos muitos aglomerados de habitação social na freguesia

Sérgio Ferreira, 61 anos, vive num desses bairros, o agrupamento habitacional do Falcão – um bairro com vista para outro, o do Cerco. Vive lá há 12 anos. O bairro, relativamente novo, tem várias paredes grafitadas. “Os serviços camarários nada fazem”, queixa-se. À noite, “ninguém consegue aguentar” o cheiro da vizinha ETAR.

Quando entra nas notícias, o bairro do Cerco vem, quase sempre, associado a exclusão social, crime e droga. Este Verão, dez famílias retiradas das suas casas no bairro do Nicolau, nas Fontainhas, no Porto, por falta de condições de segurança, queixaram-se do destino que lhes deram: o bairro do Cerco.

A concentração de bairros sociais, onde moram muitas pessoas sem sentimento de pertença, cria situações de “guetização”, diz Jorge Ricardo Pinto.

O Porto e o sub-Porto

Foi no Cerco que o filho de Fernanda Cardoso, 53 anos, empregada na escola primária do Falcão, estudou. “Hoje é engenheiro informático”, diz, com orgulho.

Fernanda Cardoso tem orgulho nas figuras públicas que estudaram em Campanhã

Fernanda admite que a freguesia perdeu vida, mesmo que, diz, a Câmara do Porto tenha apostado na requalificação dos bairros. “Tínhamos mais peixarias, farmácia, retrosarias, casas de tecido. Num bocadinho de 900 metros não faltava rigorosamente nada. Hoje em dia, a maior parte [destes negócios] encontra-se fechada.” Faltam também autocarros.

"Campanhã é uma freguesia enfiada numa grande cidade, numa bonita cidade, mas que não passa de um lugar em que ninguém desenvolve. É algo que está votado ao abandono. Toda a gente promete e ninguém cumpre. É uma espécie de aldeia”, afirma Sérgio Ferreira.

Uma aldeia ou um “sub-Porto”, diz Jorge Ricardo Pinto, uma “cidade mais esquecida”. No fundo, “as traseiras da própria cidade”.

Sérgio Ferreira diz o mesmo: há duas cidades. “Rui Rio manteve o Porto rico e o Porto pobre. Da Ponte D. Luís [para a zona oriental] é uma parte da cidade que não existe, onde ninguém quer investir – e a câmara muito menos”, lamenta. “Por aqui não passam os senhores capitalistas desta cidade. [Para eles] Campanhã deve ser uma coisa que existe no terceiro mundo e não aqui.”

Renascença © 2013

Reportagem: Pedro Rios e Marília Freitas
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