Corre o minuto 76 e o Gil Vicente está bravo. Jorge Jesus olha para o banco e chama Javi García – o espanhol era homem para travar a audácia gilista. E depois fez-se futebol: o Gil chega ao 1-1, Javi senta-se e é Saviola que entra – um minuto depois, o pequeno avançado argentino faz o golo da vitória do Benfica.
O Gil Vicente quebrou, mas não se entregou. A equipa liderada por Paulo Alves agarrou na alma que a trouxe até à final e fez o que pôde - dignificou o jogo e dignificou-se a si própria. Ainda assim, o Gil nunca mais conseguiu ser verdadeiramente perigoso após o golo de Saviola, mesmo quando Hugo Vieira ainda entrou pela área encarnada em duas jogadas que acabaram nas mãos de Eduardo.
O Benfica não foi brilhante, mas venceu bem. Teve as melhores oportunidades antes e depois de fazer o 1-0 e tem um artista de cabelo vistoso e de futebol pomposo que faz toda a diferença. Witsel, que foi eleito o melhor o campo, não marcou, mas também não precisa: o belga tens uns pezinhos subtis que tornam o jogo melhor sempre que tem de decidir. E está aí a diferença: o Gil teve alma, o Benfica soltou fogachos de talento.
Sujar a farda
Paulo Alves optou por deixar Zé Luís no banco e o Gil surgiu com um bloco recuado mais reforçado. O Benfica aceitou a bola que os gilistas preferiram entregar, mas sentiu dificuldades em furar a organização da equipa de Barcelos.
Após um início de jogo apático no relvado e animado nas bancadas, é com uma subida de Maxi que a partida anima. O uruguaio combinou com Nélson Oliveira à entrada da área e surgiu diante de Adriano, que fez bem a mancha. A jogada acabou em canto e havia finalmente futebol para celebrar.
Pouco depois, os gilistas protestaram os foras-de-jogo tirados a Hugo Vieira, primeiro, e a Caiçara, mais tarde. As imagens televisivas sublinham as dúvidas, mas o Gil não se quis agarrar a incertezas: aos 16 minutos, César Peixoto recorreu ao pé esquerdo e atirou para assustar. A bola rasou o poste esquerdo da baliza de Eduardo e os gilistas enchiam o peito.
Só que há vezes em que se deve sujar a farda. O cronómetro anda pela meia hora de jogo e o Benfica está com dificuldades em desmontar o bloco dos gilistas. Bruno César entra pela esquerda e em vez de fazer jus ao apelido – chamam-lhe “chuta chuta” –, opta por mostrar que há ali matéria altruísta. Pega na bola – nunca com as mãos, mas parece, tamanha é a precisão – e centra o esférico para Rodrigo. O avançado do Benfica – que é brasileiro, mas também espanhol – não tem tempo para pedir autorização ao técnico de equipamentos e suja os calções num deslize pelo relvado rumo ao golo.
Voar e cair
Apesar de estar a ganhar, Jesus mexeu na equipa ao intervalo. Nélson Oliveira deu lugar a Gaitán e o Benfica continuou por cima. Aos 52 minutos, Maxi fez um centro-remate que saiu junto ao poste esquerdo da baliza de Adriano e, pouco depois, o guarda-redes gilista aplicou-se para travar nova investida de Rodrigo.
Paulo Alves não estava a gostar e abriu o coração. Pegou em Zé Luís e tirou Luís Manuel e depois lançou Guilherme para o lugar de Luís Carlos. Resultado: o Gil ficou atrevido e Hugo Vieira tinha finalmente companhia para provocar a defesa encarnada.
Aos 77 minutos, e numa fase em que Javi García já estava pronto para entrar, Guilherme passou facilmente por Capdevila e só Jardel é que travou o jogador dos gilistas. Seguiu-se canto, a defesa do Benfica corta e a bola regressa a Guilherme, que estava com pés magnéticos. Segue-se centro para a área e, assim de repente, Zé Luís está a voar e faz o empate à meia-volta.
Depois do voo, a queda. Saviola entra para o lugar de Rodrigo, dá uma corrida até à área adversária e, em segundos, está a atirar a bola para a baliza de Adriano, na recarga a remate de Witsel. O guarda-redes do Gil, que também é homem para sujar os calções, ainda evitou o golo à primeira. Mas era o minuto de Saviola.
FINAL DA TAÇA DA LIGA
BENFICA 2-1 GIL VICENTE
Estádio: Cidade de Coimbra
Árbitro: Jorge Sousa (Associação de Futebol do Porto)
BENFICA: Eduardo; Maxi Pereira, Garay, Jardel, Capdevila; Matic, Witsel, Aimar (Cardozo, aos 62'), Bruno César; Rodrigo (Saviola aos 81'), Nélson Oliveira (Gaitán aos 46')
GIL VICENTE: Adriano; Rodrigo Galo, Cláudio, Halisson, Júnior Caiçara; Luís Manuel (Zé Luís, aos 55'), André Cunha; Richard (João Vilela, aos 76'), César Peixoto, Luís Carlos (Guilherme, aos 67'); Hugo Vieira
GOLOS: Rodrigo (30') e Saviola (83') para o Benfica; Zé Luís (79') para o Gil Vicente