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Simplesmente Eusébio

05 jan, 2014 • Ana Rodrigues e Carlos Calaveiras

Morreu Eusébio da Silva Ferreira. Atleta à escala global, foi campeão europeu pelo Benfica, fez história com a camisola da selecção e marcou uma época dentro e fora dos relvados. É um dos melhores futebolistas de sempre.
Simplesmente Eusébio
Simplesmente Eusébio
Eusébio, nome maior do desporto português, morreu na madrugada deste domingo, em Lisboa, vítima de insuficiência cardíaca. Faria 72 anos ainda este mês. Atleta à escala global, foi campeão europeu pelo Benfica, fez história com a camisola da selecção e marcou uma época dentro e fora dos relvados. É considerado um dos melhores futebolistas de sempre.
Eusébio, nome maior do desporto português, morreu na madrugada deste domingo, em Lisboa, vítima de insuficiência cardíaca. Faria 72 anos ainda este mês. O funeral está marcado para as 17h00 desta segunda-feira, no cemitério do Lumiar.

Eusébio da Silva Ferreira - simplesmente Eusébio - nasceu em Moçambique a 25 de Janeiro de 1942. Jogou pelo Benfica 15 dos seus 22 anos como jogador de futebol e foi o melhor marcador de sempre dos encarnados, com 638 golos em 614 jogos oficiais. Ganhou 11 campeonatos nacionais e cinco Taças de Portugal, sempre de águia ao peito, e levantou uma Taça dos Campeões Europeus depois de um inesquecível 5-3 diante do Real Madrid - foi em 1961/62, numa final em que marcou dois golos.

Desde muito cedo deu nas vistas, primeiro no futebol de rua e depois no Sporting de Lourenço Marques, já depois de não ter passado nos testes para o Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica. Os muitos golos apontados em terras moçambicanas despertaram o interesse no Pantera Negra, alcunha que lhe foi atribuída pelo jornalista inglês Desmond Hackett, em alusão ao seu estilo felino a jogar. 

Aos 17 anos, Eusébio chegou a Lisboa, a 15 de Dezembro de 1960, envolvido numa polémica entre os grandes da capital - Sporting e Benfica entraram na corrida pelo jovem prodígio. Os leões entenderam-se com o Sporting de Lourenço Marques, sua filial. Já os encarnados chegaram a acordo com a mãe do jogador e pagaram 250 contos. Para garantir que não havia "interferências", os dirigentes do Benfica trouxeram Eusébio para Lisboa de avião - e não de barco, como estava "previsto" - sob nome falso (Ruth) e "esconderam-no" no Algarve.
 
Eusébio estreou-se no Estádio da Luz em Maio de 1961, num jogo amigável contra o Atlético - marcou três dos quatro golos encarnados. Apesar de jovem e de chegar a uma equipa campeã, a marca de Eusébio foi marcante logo desde o início.
 
O futebol é um desporto colectivo, mas o peso de Eusébio é enorme e ajudou a acicatar a rivalidade entre Benfica e Sporting. À chegada do jovem prodígio, os dois clubes tinham o mesmo número de campeonatos conquistados. À saída do jogador, o clube da Luz ganhou vantagem sobre o rival de Alvalade - foram 11 campeonatos em 15 possíveis.

Um futebolista global 
A fama internacional chegou em 1962, na final da Taça dos Campeões Europeus, a segunda do Benfica e a primeira de Eusébio. Nesse jogo, contra o histórico Real Madrid, onde estavam os maiores jogadores da altura, incluindo Alfredo Di Stefano, Eusébio marcou dois golos e fez uma exibição de luxo que espantou o mundo do futebol.
 
O Pantera Negra agitou Portugal em pleno Estado Novo. Com as conquistas do Benfica naquela época, o regime de Salazar aproveitou a onda e tentou "nacionalizar" os feitos do clube. O próprio Eusébio contou, certa vez, que foi Salazar que impediu a sua transferência para o estrangeiro, nomeadamente para a Juventus, em 1962/63.
 
A estreia na Selecção Nacional foi a 8 de Outubro de 1961, mas a glória aconteceu em 1966, durante o Campeonato do Mundo em Inglaterra. Na memória de todos os portugueses está a campanha dos Magriços. Foi a primeira equipa das quinas a chegar a umas meias-finais e Eusébio teve uma participação decisiva com nove golos apontados na fase final, tornando-se o melhor marcador da prova. Todos os jogos em 1966 foram inolvidáveis, mas a exibição contra a Coreia do Norte destaca-se acima de todas: Portugal esteve a perder 3-0 com a selecção asiática nos quartos-de-final do Mundial, mas virou o jogo com cinco golos de rajada, quatro dos quais assinados por Eusébio.
 
Antes disso, Portugal defrontou o todo poderoso Brasil. Frente a frente, dois colossos do futebol mundial: Eusébio e Pelé. O jovem português levou a melhor. O rei brasileiro estava lesionado e foi eliminado pelos Magriços. 

Depois, foi a vez de Portugal sofrer, com uma imagem que correu mundo: nas meias-finais, a selecção nacional foi derrotada pela Inglaterra e, no final da partida, a Pantera Negra chorou compulsivamente, tal como o país, depois de tão histórica campanha. 

No total, Eusébio jogou 64 vezes com a camisola da selecção. A última internacionalização ocorreu a 19 de Outubro de 1973. Ao nível de clubes, e depois de sair do Benfica, Eusébio ainda jogou no Beira-Mar e passou pelos Estados Unidos, onde estavam outras vedetas do futebol mundial. Uns anos depois, voltou ao Benfica, onde foi embaixador do clube, missão que partilhava também na selecção nacional.
 
Ao longo da carreira, o Pantera Negra marcou 733 golos em 745 jogos oficiais. Era veloz, potente, atlético e possuía um pé direito ímpar que fez dele goleador e especialista em livres. Foi primeiro jogador português a ganhar a Bola de Ouro, em 1965, que premiou então o melhor jogador a actuar na Europa. Três anos depois, conquistou a Bota de Ouro, que distingue o melhor marcador na Europa, feito que repetiu em 1973. Entre os maus momentos, destaque para as sete operações aos joelhos, seis ao direito e um ao esquerdo.
 
Nos últimos anos de vida, o Pantera Negra registou complicações de saúde. O caso mais grave sucedeu a 24 de Junho de 2012, quando sofreu um AVC na Polónia durante um jogo da selecção portuguesa no Europeu. 


[artigo actualizado às 17h01]