Há jogos onde se vê disto: um futebolista vê o vermelho e sai a dançar do relvado. E depois há mais: o povo que está nas bancadas levanta-se e celebra o jogador que baila após a expulsão.
É mesmo real e foi assim no Dragão, que vibrou quando Fernando, médio brasileiro do FC Porto, saiu do relvado a pular felicidade depois de ter visto o segundo amarelo - afinal, havia um título para exaltar. O futebol tem destas coisas e é também cruel, porque alguém tinha de sofrer perante um enredo destes.
Calhou ao Sporting tropeçar no desgosto. Os leões foram valentes e olharam o FC Porto de frente enquanto estiveram em igualdade numérica. Os jogadores liderados por Sá Pinto pegaram no cognome do treinador, a quem chamam "coração de leão", e levaram para o relvado a bravura do apelido. Até ao minuto 67, que ditou a expulsão de Onyewu após falta sobre Hulk, o conjunto de Alvalade equilibrou o clássico e já tinha enviado a bola aos ferros: Polga viu como o poste direito da baliza de Helton é ladrão de golos bonitos.
Perante o vermelho a Onyewu, Sá Pinto retira Matías de campo e manda entrar André Martins. O FC Porto já tinha esgotado as substituições, com as entradas de Janko, Defour e Danilo, mas quem tem Hulk pode mexer e remexer, porque o brasileiro é que desequilibra de verdade.
A estrela portista já tinha provocado a expulsão de Onyewu e quis ir mais além: ao minuto 80, entra furioso pelo lado esquerdo do ataque azul e branco e oferece a Janko o primeiro golo da partida. O austríaco preferiu proporcionar a Patrício uma bela defesa, mas havia James: a bola sobrou para o colombiano, que acabou por ser derrubado por Polga dentro da área. Resultado: penálti para o FC Porto, vermelho para o central dos leões e o Sporting fica com nove.
Polga tinha sido imenso até então e quis o destino do jogo que James surgisse ali perspicaz, a provocar uma expulsão que injustiçou um dos homens que mais coração de leão teve - ele mesmo, Polga. Havia assim uma grande penalidade para marcar: Hulk pegou na bola e instantes depois estava a despir a camisola para festejar o golo. O Dragão, que recebia o primeiro jogo após a conquista do campeonato, começava a fazer barulho a sério.
Com nove em campo, e já depois de ter perdido Izmailov e João Pereira no aquecimento, o Sporting percebeu que isto era argumento de tragédia. A equipa foi brava enquanto houve 11, mas já não havia como fintar o desfecho. O Braga estava a ganhar ao Beira-Mar por 1-0 e o sonho da Champions sumia-se.
O FC Porto começou a coleccionar oportunidades perigosas e Janko mostrou que tem de fazer terapia de golo. Cruzou-se com Patrício dentro da área, sem ninguém por perto, e protagonizou um lance que pode ir para os livros que descrevem o que um ponta-de-lança não deve fazer.
Hulk não deve ter apreciado o gesto do austríaco, porque lançou-se numa corrida impetuosa aos 89 minutos, deixou todos para trás, sentou Patrício e ofereceu a bola à baliza sem gente. O estádio celebrou o 2-0 e o coração do leão quebrou em definitivo.