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Opinião de Graça Franco
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Opinião

​​O sucesso de Centeno no Eurogrupo será o nosso. Acreditem

04 dez, 2017 • Graça Franco • Opinião de Graça Franco


Para Portugal é bom que ele tenha sido eleito para presidente do Eurogrupo? Sim, é. É mesmo muito bom.
Mário Centeno. Um português num órgão "poderosíssimo"
Mário Centeno. Um português num órgão "poderosíssimo"

Não interessa se internamente nos identificamos ou não com a governação de Centeno. Para Portugal é bom que ele tenha sido eleito para presidente do Eurogrupo? Sim, é. É mesmo muito bom. Não interessa o que cada um pense melhor ou pior do feitio ou até do carácter do nosso actual ministro das Finanças ou do seu sorriso inesgotável e vagamente irritante. Foi ele e não Portugal que conseguiu ser eleito. Mérito seu. Ficamos pelo menos a dever-lhe isso. Muito mais do que na dívida ou no défice. Naquele grupo informal onde sempre mandaram, mesmo por interposta pessoa, os alemães, poderá um português fazer a diferença? Pode. Assim lhe corra bem. Rezemos para que corra. A partir daqui o seu sucesso será o nosso. Acreditem.

Primeiro o mérito. O seu a seu dono. Porque ganhou Centeno aos seus colegas? Antes do mais porque melhor do que nenhum dos outros partilhava o economês do clube restrito dos “harvardianos”. Vir de Harvard é ainda hoje sinónimo de uma competência técnica acima de qualquer suspeita. Ser académico, com trabalho de investigação publicado e ideias próprias, mesmo mais ou menos liberais, mostra que não se ficou pela escola e pôs na prática o capital de ciência e influência característico da escola. Ter passado por um banco central dá-lhe a aura de independência necessária e a fluência no inglês (que o seu concorrente eslovaco não exibia com o mesmo à vontade) é só a cereja em cima do bolo. Tudo isto é Centeno antes de ser ministro das Finanças.

Depois sim, também há pequenas características que jogaram a favor: o homem certo à hora certa pode inesperadamente ganhar o lugar certo. Foi o que aconteceu com Barroso, embora ele tenha desiludido. Vamos então às circunstâncias favoráveis:

1 – Desta vez, convinha que fosse socialista porque o PPE (ou seja, a direita civilizada europeia) domina praticamente todos os lugares de destaque na liderança europeia (Comissão, Parlamento e Conselho Europeu). Centeno era um ministro socialista e garantiu ser mesmo o candidato Socialista da Europa (ultrapassando o seu colega eslovaco). Aqui talvez possa ter beneficiado de um empurrãozinho de Costa (o negociador) e isso ajudou.

2 – Vir de um país pequeno convinha, porque alemães, franceses, e espanhóis não são dados a consensos nem facilmente surgem como neutrais face aos restantes, além de terem muitos interesses divergentes. Nos grandes só o italiano poderia ser uma hipótese, mas o senhor Padoan fala a mesma língua que o presidente do BCE (Draghi) e de Tajani (novo presidente do Parlamento Europeu) e, embora tenha partido em primeiro lugar, ficariam italianos a mais. Nem se candidatou.

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Presidente Centeno em inglês: "Estou com grandes expectativas em relação a Janeiro de 2018"
Presidente Centeno em inglês: "Estou com grandes expectativas em relação a Janeiro de 2018"

3 – Restavam a senhora letã (com a fama de ser campeã xadrezista e beneficiar do sistema de “quotas informais” para a juventude, nos seus 35 anos, e para as mulheres). Não chegou. Saiu da corrida logo à primeira volta de votações, talvez por ser demasiado “Verde” e ter pouco em comum com as grandes famílias europeias; por outro lado, o seu país é demasiado “recente”. O Luxemburgo é um país pequeno e central, mas também aí já havia Juncker e há demasiado tempo. Mais: ser liberal também não dava grande cartão de visita ao luxemburguês Pierre Gramegna. O grupo liberal está em ascensão na Europa e muito sub-representado em sede de poder e talvez por isso Gramegna ficou e lutou bem até ao fim, mas acabou vencido.

4 – Por último, Centeno vinha de um país com passado de bom aluno, insiste-se. Mas a Itália alguma vez cumpriu alguma coisa? E Padoan não era de início o grande candidato e não fora estar num país com as eleições à porta e o risco de ser demitido a curto prazo? Pelo menos foi essa a verdade assumida para a precoce desistência. Pois é.

5 – Depois, de tudo o mais, facilitou também que, embora vindo de um país “geringoncista”, Centeno pudesse dizer aos seus pares, tratando-os como tal e não olhando debaixo para cima que sim. Conseguia cumprir a palavra dada de forma até muito mais clara, discreta e eficaz do que o seu chefe de Governo. Fez aprovar dois orçamentos, não fazer rectificativos, descer brutalmente o défice e substituir a dívida, ainda que sem a conseguir descer senão minimalmente neste ano. Além disso, conseguiu sair do procedimento de défices excessivos e fazer subir o “rating” de uma das grandes empresas de avaliação, retirando-nos do lixo. Tudo isto com criação de emprego e ligeira retoma.

Não o fez seguindo a receita do seu antipático antecessor, também socialista, mas holandês obcecado com a “culpa” típica da herança da cultura protestante que identifica os países do Sul como preguiçosos esbanjadores. Esse presidente de má memória para Portugal tinha o “poder” de fazer o agendamento dos temas a tratar e é esse poder que passa agora para as mãos de Centeno.

O que poderemos ganhar? Isso mesmo. O poder de ser um português (desses que sabe que a região demarcada do Douro não fica em Espanha e o queijo da Serra também não…) a priorizar agora a agenda dos 19 e os temas que estes debaterão reunião a reunião. Imaginam a diferença que isso pode fazer por exemplo na questão da sempre minimizada questão da reestruturação da divida europeia. Reparem que não se trata da nossa. A de todos. Igualmente impagável, igualmente insustentável, igualmente perigosa.

Saiba e possa Centeno colocá-la sobre a mesa (com ou sem mutualização da dívida, alterando ou não alguns indicadores cujo cálculo não significa quase nada e criando outros que possam refletir melhor o impacto social da consolidação orçamental) e já Portugal teria uma margem incrivelmente maior para cumprir tudo. Para ser ainda melhor aluno. Para nos poupar a uma austeridade dispensável e que todos gostaríamos de poder virar a página.

Mas internamente conseguirá ele dar conta do recado? Marcelo Rebelo de Sousa não acha e chegou a dizer mesmo que esperava que tal hipótese não se viesse a colocar, mas porque não? Mourinho Félix que tantos já viram como ministro “informal”, porque não conseguirá? Se for preciso nomeie-se novo secretário de estado.

E a geringonça como irá reagir agora? Mal, mas fingindo não ver o que virá aí. Engolindo não um pequeno sapo, mas um gigantesco elefante, embora como sempre, sem o ver ao centro da sala. Passos ainda anda por aí e, portanto, o fantasma do regresso da direita ao poder continuará o cimento que prende os três partidos da “coligação informal” ao poder.

E no meio de tudo isto algo pode correr mal? Pode. Mas não esqueçamos que, ao mesmo tempo que se anunciada a vitória de Centeno, se lembrava que Portugal continua entre os muitos países com elevado grau de “incumprimento orçamental”. Pois, as coisas estão conjunturalmente melhores, mas não estão bem. Já. Agora, mesmo antes da presidência do Eurogrupo.

Comentários
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  • JP
    05 dez, 2017 Olhão 07:39
    Mas que graça tem a pseudo jornalista Graça. Eu sigo as suas narrativas televisivas e verbais e fico espantado com esta sua narrativa. Será que a sra está a candidatar-se para um lugar de assessoria no gabinete do Centeno? Pois é quando chega a estas alturas os candidatos com curriculum perfilam-se nos corredores do poder aonde por exemplo o grande catroga é mestre na arte.
  • Filipe
    04 dez, 2017 Lisboa 22:32
    Em vez do cinismo, seria bom que Graça Franco adoptasse outro estilo para criticar o ministro e o governo que este fez parte. Todos já percebemos como Graça Franco tem saudades da «Caranguejola» de Paulo Portas e Pedro Passos Coelho.
  • lv
    04 dez, 2017 lx 21:26
    Não tenho dúvidas nenhumas que a menina Graça, não achou graça nenhuma!