Opinião de Graça Franco
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O jornal de Belmiro nunca poderá deixar de ser "o meu"

29 nov, 2017 • Opinião de Graça Franco


"Portugal perde um dos seus melhores e a comunicação social o seu melhor 'patrão'", escreve a directora de Informação da Renascença, que esteve na fundação do "Público".

Sem deixar de ser uma figura polémica, foi sobretudo um visionário. Empreendedor. Soube arriscar e apostar em negócios (como a distribuição, a comunicação social ou as telecomunicações) e construir um império em que teve o mérito de saber entrar e sair a tempo. Assegurou a sucessão, do grupo sem sobressaltos. Onde Paulo Azevedo teve de a “ganhar” a outro quadro da Sonae que até muito tarde parecia ser “ainda melhor”.

Teve o sonho de se transformar num grande empresário da comunicação social (com a criação de um grande grupo multimédia de que faria parte o projecto “Público”/Rádio Nova e a TVI), mas nesta área perdeu a corrida. Acabou a “enterrar milhões”, como dizia, no seu jornal de referência de que visivelmente se orgulhava embora o apresentasse como uma “peninha no chapéu”.

Com a sua morte, Portugal perde um dos seus melhores e a comunicação social o seu melhor “patrão”.

Aprendi com Belmiro de Azevedo algumas máximas que guardo na minha vida, uma das quais a de que trabalhando muito, e o melhor possível, nenhum trabalhador é verdadeiramente bom se não descansar o suficiente e esgotar os seus interesses no trabalho. Ou, pior anda, se se limitar a fazer “carreira” por mais brilhante que esta pareça ser. Ele, aliás, parecia odiar o “carreirismo” tanto quanto a “incompetência” ou a falta de “brio profissional”. Era uma espécie de caça-talentos a que impunha a formação contínua, a polivalência, estimulando e respeitando o desafio; não temia o risco e prezava sobremaneira a independência e a frontalidade.

Dava constantemente pequenas lições de vida. Agradeço-lhe sobretudo esta: pode-se ser patrão de um grande jornal e deixar que um simples jornalista opine livremente contra a bondade dos seus interesses sem se lembrar sequer que o está a fazer (foi o que fiz enquanto se jogava o caso da primeira “OPA Sonae sobre o BPA”). Era então Cavaco Silva primeiro-ministro e Eduardo Catroga ministro das Finanças. O “Público” chegou a ser visto por muita gente na Sonae como desfavorável à OPA.

Para Belmiro, o “homem da cultura Sonae” (e eu fui uma mulher Sonae durante praticamente duas décadas), era sobretudo íntegro, impoluto, na relação com os fornecedores, colegas ou clientes, o que tem “mundo” e sede de conhecer “mais mundo” sem nunca deixar de se interessar por ele, e sobretudo o que não esgota os seus interesses no “trabalho”. Para Belmiro, a cultura Sonae implica parar para descansar, saber divertir-se e por isso nunca se levar demasiado a sério.

Testemunhei a sua “fúria” quando, de visita ao “Público”, encontrou vazia a sala reservada ao desporto. Os jornalistas não tinham tempo para a utilizar, mas ele achava que isso não podia acontecer, como achava que não devia abdicar da família, dos amigos, da arte, da cultura. O que vive as virtudes humanas e as pratica em todas as dimensões movendo-se por uma consciência livre que não se curva face a nenhum poder nem teme assumir o risco até de errar (desde que esteja disposto a aprender com o erro!). Talvez por isso apreciasse tanto entre os seus trabalhadores os que mais cultivavam a liberdade a criatividade, e até uma certa rebeldia.

Deixava os quadros partir para aceitar novos desafios e percebia que o risco que assumiam podia ser enriquecedor. Deixei o jornal para ir fundar a TVI e dois anos depois regressei ao meu posto de trabalho. Sem remoques. A última vez que o entrevistei, já na Renascença, nos estúdios do Porto, brincou com a possibilidade de um novo regresso à base.

Devo-lhe ter feito parte do grupo de privilegiados que fundaram o “Público”. Sob a direcção genial do Vicente Jorge Silva, do Jorge Wemans, do Nuno Pacheco ou do Zé Manel Fernandes. Desse pequeno grupo que, enquanto o jornal ainda não estava nas bancas, produzia diariamente “números zero” a que a concorrência chamava maldosamente “O Boneco”. Boneco que só saiu do forno quando estava pronto a impor-se pela maturidade da diferença como o grande jornal de referência. Tínhamos por essa altura os melhores meios, os melhores salários e as melhores condições de trabalho de todo o panorama nacional.

Depois da minha vinda para a Renascença, foram muitos os anos de trabalho em parceria com o meu ex-jornal (com O Diga Lá Excelência, em parceria com a RTP2 – onde era director o Jorge Wemans e o “Público” dirigido pelo José Manuel Fernandes).

No âmbito da parceria Renascença-Público em vigor, materializada no programa Hora da Verdade, o meu nome sairá mais uma vez na edição desta quinta-feira nas páginas do “Público”. O jornal de Belmiro que nunca poderá deixar de ser “o meu”. Talvez por isso ainda sinta que morreu aquele patrão que não gostava de “muito gasto para pouco mando”. E com que esmerado respeito, frontalidade e coragem aquele homem sabia, mandar.

Comentários
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  • lv
    02 dez, 2017 lx 19:40
    Uma boa herança para a Graça franca. Bom proveito!
  • Alexandre
    01 dez, 2017 Lisboa 09:46
    Pobre Graça Franco. Era a única colunista de serviço na Renascença para escrever umas linhas em memória ao grande patrão do norte.
  • MASQUEGRACINHA
    30 nov, 2017 TERRADOMEIO 16:37
    Pois, andavam todos às voltinhas, circundando esse Sol que se pôs... circulando de uns sóis para outros, e blá-blá-blá, tudo uma grande família alargada aí pelos media. Já sabíamos, mas é sempre reconfortante confirmar.
  • Pedro Silva
    29 nov, 2017 Lisboa 22:22
    Ó subserviência, a quanto obrigas.
  • Tiago
    29 nov, 2017 Odivelas 22:03
    O que dirá o Cardeal Patriarca dessa sua frase, D. Graça. Belmiro, o melhor patrão da com. social?