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Opinião de José Miguel Sardica
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Com quantos nomes se (des)faz um regime?

15 nov, 2017 • Opinião de José Miguel Sardica


Portugal é facilmente tomável de assalto por um indivíduo ou por uma rede dotados de manhas políticas, dinheiro, muita ambição e combatividade.

Todos os regimes têm os seus escândalos e há escândalos que muito contribuem para erodir regimes: foi assim em 1910, em 1926 e em 1974. A monarquia de D. Carlos e de D. Manuel II sofreu por causa das revelações acerca dos adiantamentos à Casa Real e das fraudes no Crédito Predial.

Entre muitas outras rixas na oligarquia, a I República suicidou-se com o escândalo Alves dos Reis. Já o Estado Novo teve o famoso «Ballet Rose». Do poder político à banca, passando pelos nomes dos ricos e poderosos que pastorearam os portugueses, a cúpula foi pródiga em exibições de corrupção material e moral. O país foi sempre pequeno e curto, no triplo sentido político, económico e sociológico de que toda a gente que é gente se conhece e que com meia dúzia de nomes bem situados uma qualquer clique oligárquica tomava conta do Estado e dos portugueses: eram os rotativos na Monarquia, os maiorais do Partido Democrático na República e as grandes famílias abrigadas por Salazar no Estado Novo; chegada a Democracia, velhos apelidos e novos arrivistas blindaram o condomínio estatal, de que quase tudo depende. E desde a Monarquia ao século XXI, sempre esta elite endogâmica se (auto)reproduziu, defendida pelos seus caciques e influentes, pelos seus facilitadores e “opinion makers”, pelos seus rufias e “maleiros”, a saldo e a soldo.

Com uma sociedade destituída de poderes intermédios, pouco habituada à participação cívica, subserviente por atavismo e muito dependente do emprego, da pensão ou do subsídio do Estado, Portugal é facilmente tomável de assalto por um indivíduo ou por uma rede dotados de manhas políticas, dinheiro, muita ambição e combatividade. Não são, portanto, precisos muitos para fazerem um qualquer regime (que lhes sirva, claro); e quando o castelo de cartas começa a desmoronar-se, são também esses poucos que caem lá do Olimpo, arrastando tudo à sua frente e colocando em causa a própria sustentabilidade da situação em que medraram.

Poderá a famosa Operação Marquês, pela acusação já deduzida e pelo julgamento que ocupará a agenda mediática no futuro, vir a ser um dos coveiros da democracia em que vivemos? Pode, se o seu “romance policial” de quatro mil páginas se revelar verdadeiro, e sobretudo porque será de crer que a coisa não ficará circunscrita aos 19 nomes e 9 empresas arrolados na acusação. José Sócrates, a figura mais sonante, é um caso único de ambição, narcisismo e mitomania; arrisco dizer que não é possível ele ser inocente, embora não saibamos até onde vai o crime dele, nesta teia de política, dinheiro e pouca ética que puxou os cordelinhos e arruinou Portugal ao longo de anos. Os que fizeram o lado sombrio da democracia e que a desfazem a cada crime que se provar, não estiveram, no entanto, tão sozinhos como agora parece. Muita gente assobia para o ar: mas quantos mais sabiam, ou desconfiavam, ou obedeceram, ou lucraram? Quantos serão, no total, os CDT’s (“culpados disto tudo”), neste caso, como noutros, com protagonistas das mais diversas cores políticas?

Ao mesmo tempo que arruínam o país, estas teias de corrupção e escândalo deviam pô-lo a perguntar-se como é possível o Estado e as instituições serem tomados de assalto por gente deste calibre, e o que se deve fazer para que a seleção, o escrutínio e a exigência sejam maiores. São interrogações retóricas. Na verdade, uns quantos nomes (des)fazem o regime; mas também o desfazem os muitos que já não querem saber, que já se renderam ao abstencionismo ou que, pior ainda, continuam a aplaudir o “animal feroz” ou não escrupulizam “oeirizar” Portugal, elegendo com entusiasmo corruptos comprovados para desempenharem cargos políticos de responsabilidade.

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  • Augusto Saraiva
    16 nov, 2017 Maia 18:01
    Realmente o português é difícil! Sobretudo para quem não sabe ou não quer saber para que servem as aspas ou os parêntesis... Será assim tão difícil entender que «Oeirizar» provém de Oeiras?!...
  • João Miguel
    16 nov, 2017 Lisboa 08:28
    «Oeirizar»... é uma expressão nova. Também veio com o curso de doutoramento de José Sardica?
  • Ângela Veloso
    15 nov, 2017 Lisboa 22:15
    Tal como o comentador Alexandre, espero que o meu texto não seja censurado. Dito isto, gostaria de saber o que significa «oeirizar», dado que é um verbo novo da nossa gramática. Como é possível, Sr. José Miguel Sardica, chegar a este ponto? Decaiu a língua portuguesa ou o Sr. José Miguel Sardica?
  • Alexandre
    15 nov, 2017 Lisboa 19:03
    Novamente, peço ao Sr. Miguel Sardica para não censurar o meu comentário e aviso que a censura faz parte de um passado que queremos todos esquecer. Bem por causa dessa mesma censura, um regime como o salazarista perdeu a sua credibilidade. Sobre o seu artigo, porque razão evita escrever sobre o governo de Passos Coelho e somente aborda a Operação Marquês? Porque continua a censurar os comentários que vão contra si?
  • Rui Guedes Lopes
    15 nov, 2017 Lumiar 14:50
    Poderá a famosa Operação Marquês, pela acusação já deduzida e pelo julgamento que ocupará a agenda mediática no futuro, vir a ser um dos coveiros da democracia em que vivemos?". Boa questão, pernitente, dr. José Miguel Sardica. O emsmo se coloca perante o caso dos mails do Benfica. Sugiro uma abordagem sua, nesta coluna, ao tema. Gosto muito de o ler quinzenalmente. Parabéns.
  • Francisco Almeida
    15 nov, 2017 Marinhais 14:40
    Nos "Ballet Rose" tratava-se de rapariguinhas de 15-16 anos "alugadas" pelas próprias famílias, em alguns casos pelas próprias mães. No "Casa Pia" tratava-se de rapazinhos de 10-12 anos "alugados" por funcionários do Estado que os tutelava. Por aqui (também) se pode avaliar a diferença entre os dois regimes.
  • Domingos Simões
    15 nov, 2017 Caldas da Rainha 14:06
    Agradeço a José Miguel Sardica, do fundo do meu coração, o brilhante relatório de uma eventual "radiografia" de sucessivos "regimes" em Portugal. A noção civica dos portugueses é o que é. Só a partir da escola poderá ser enriquecida. O "regime" que agora está a (des)fazer-se está demente, já em grau irrecuperável.