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Opinião de Luís António Santos
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O que queremos fazer com "a melhor profissão do mundo"?

02 nov, 2017 • Opinião de Luís António Santos


Os jornalistas (e não apenas os portugueses) são cada vez mais funcionários (no pior sentido da palavra) e cada vez menos profissionais independentes (no melhor sentido da expressão).

O Sindicato dos Jornalistas portugueses acabou de organizar um referendo sobre uma alteração ao Código Deontológico da profissão. Foi o primeiro referendo online realizado no país. Votaram, online e presencialmente, ao longo de três dias, 347 pessoas, de entre um universo de 5.746.

Se lermos o que está para lá das benignas frases de circunstância sobre o sucesso da original iniciativa, percebemos que há um dado a cuja crueza é difícil escapar: a taxa de adesão foi de 6 por cento. Este numero esmagador reflete, com enorme clareza, o estado debilitado de uma profissão que atravessou os últimos 30 anos entalada entre as pressões de fontes cada vez mais organizadas e eficientes e as sequências de ‘reestruturações’ nas empresas.

Os jornalistas (e não apenas os portugueses) são cada vez mais funcionários (no pior sentido da palavra) e cada vez menos profissionais independentes (no melhor sentido da expressão). É, por isso, mais fácil vê-los envolvidos na defesa da empresa que lhes garante o salário do que na eventual defesa de causas comuns. São, nesse aspeto, mais iguais a tantos outros cidadãos, mas são, em virtude disso, menos capazes de contributos relevantes para a vida dos demais.

Que autonomia pode um(a) jornalista jovem ter se lhe pedem que faça um número crescente de trabalhos diferentes, que os formate quase só em função do apelo que possam vir a ter online e que nisto se empenhe durante sempre mais do que 8 horas diárias a troco de um salário que mal lhe garante a sobrevivência? Que tipo de pessoas pode ser atraída para uma atividade que se aproxima cada vez mais de modelos de produção automatizados e em que qualquer juízo crítico é tendencialmente entendido como um ‘desperdício de tempo’? São perguntas viciadas porque insinuam as respostas, bem sei, mas este é o estado real de uma profissão que constitucionalmente consagrámos como vital para a saúde do regime democrático.

E – um pouco à imagem do que acontece com a reflexão em curso sobre os incêndios – também aqui não haverá apenas um grupo isolado de responsáveis nem uma solução milagrosa que tudo repare. Há responsabilidades repartidas entre um poder político que se alheou por completo de uma regulação independente e promotora de pluralidade e dignidade no sector, empresas privadas geridas de forma ineficaz, um enquadramento de formação (sim, as universidades) pouco apoiado pela tutela e sem meios para auxiliar a promoção de modelos de produção alternativos e, finalmente, uma sociedade (sim, nós todos) que vive alheada de uma participação cidadã ativa e exigente, preferindo uma postura em que momentos exuberantes de indignação inconsequente são seguidos de longos períodos de ‘ombro-encolhidismo’.

Deixámos que se tornasse feia (muito feia, às vezes) a profissão à qual Garcia Marquez chamou em tempos a ‘mais bela do mundo’. Mas a realidade – usando ainda Garcia Marquez – é hoje tanto ou mais ‘descarnada’ do que no passado e talvez nos faça mesmo muita falta um grupo de gente com competências específicas, com métodos de trabalho transparentes e com a independência necessária para, honestamente, a ‘digerir e humanizar’. Em nosso nome e para nós. Vamos ter que decidir depressa.

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