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Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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Uma moção necessária

25 out, 2017 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


Face ao descalabro governativo na questão dos incêndios seria bizarro que a oposição não exprimisse no Parlamento uma clara censura ao Governo.

Só uma concepção relativista da política pode pôr em causa a legitimidade da moção de censura ao Governo, apresentada pelo CDS.

O que se passou em Portugal com os incêndios seria grave em qualquer contexto político ou governativo. É grave sendo António Costa primeiro-ministro e grave seria se fosse Passos Coelho a chefiar o governo.

A apreciação da gravidade dos factos não deve variar em função de amizades políticas ou cumplicidades ideológicas. À direita e à esquerda.

O que hoje é grave não pode ser desagravado amanhã, ao sabor das conveniências das maiorias de ocasião.

Esta visão relativista da política, em que os interesses embaciam a verdade, acaba por afastar muito boa gente da vida política.

E quando estão em causa vidas humanas, a distorção é especialmente chocante. A destruição do património é trágica e os prejuízos económicos avultados. São urgentes as ajudas e todo o tipo de apoio à reconstrução. Mas as vidas destruídas, essas ninguém as restitui.

Acontece que o Governo, depois dos incêndios de Junho, geriu a situação com a mesma insensibilidade política que adoptou imediatamente a seguir aos fogos de Outubro.

Só o Presidente da República conseguiu incutir no Governo a noção de urgência e gravidade que até então parecia faltar. E demorou quatro meses a consegui-lo. Há um António Costa antes de Marcelo falar ao país e outro António Costa, depois do discurso presidencial.

Face ao descalabro governativo na questão dos incêndios seria bizarro que a oposição não exprimisse no Parlamento uma clara censura ao Governo.

Não estou a ver António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins a apoiarem no Parlamento a condução política de um governo PSD/CDS que tivesse gerido o problema dos incêndios com a leveza do actual executivo. É um exercício especulativo pensar no que teriam dito e feito PS, PCP e Bloco de Esquerda, mas não custa acreditar que assistiríamos a protestos bem mais expressivos, se a maioria parlamentar exibisse outra cor política.

Fez bem o CDS em exprimir no Parlamento a censura política ao Governo, cuja conduta errónea neste caso concreto não recolhe apoio de ninguém.

De resto, a líder do CDS teve o mérito de avançar com a moção de censura, antes de o Presidente falar. Ao contrário de António Costa, não foi o Presidente que a fez mover-se.

Comentários
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  • MASQUEGRACINHA
    25 out, 2017 TERRADOMEIO 21:53
    Na devida altura, o povo julgará se a líder do CDS deu um passo longo, tão longo que até conseguiu deixar para trás o seu próprio (e institucional!) papel em todo este triste assunto; ou se teve o passo mais comprido do que a perna, e prosseguirá claudicante até apanhar o próximo táxi. Entretanto, as "esquerdas unidas", como ela tão felizmente define, vão somando e seguindo - a bem do país, convenhamos. A líder do CDS ainda é uma aprendiza na nobre arte politico-circense do Sempre-em-Pé, mas já vai fazendo umas coisas - teve um bom mestre. Mas ao Costa ninguém o bate: nem todos temos capacidade para achar que o sapo, embora azedo, é uma excelente fonte de proteínas... que enfortalece. É uma questão de feitio. O Marcelo, o querido Marcelo, encontrou a oportunidade de ficar na História, como o principal fautor de um Portugal Territorialmente Ordenado, quase como um Marquês de Pombal moderno... mas muito mais querido. Ora, como se costuma dizer, mais vale burro que nos leve, que cavalo que nos derrube. E o querido Marcelo, montado nas "esquerdas unidas", tem bem mais certezas de cumprir o seu individual destino (a bem da nação), do que a arriscar no nobre corcel da família, de coice certo... Desde que as coisas funcionem, o que interessa são os fins (o bem da nação), que justificam tudo. As verdadeiras esquerdas, lá vão patrioticamente alombando com o primo rico e mais o Marquês. Só temos que estar agradecidos por também suportarem a nossa evidente ingratidão - a bem do país.
  • Hugo V. Lima
    25 out, 2017 Braga 16:17
    E foi isso que foi feito? Porque se esperou 4 meses após Pedrogão? Porque o PSD somente agora não tem direção . Dizer que esta moção é justa é branquear a manobra vampiresca de Cristas.