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Opinião de Luís António Santos
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​Entregues aos ventos da sorte, sem Estado à vista...

16 out, 2017 • Opinião de Luís António Santos


O Portugal dos Uber X, dos Airbnb, das Web Summits e das Madonnas em estádio gigantes de futebol não é o mesmo que enfrenta incêndios tenebrosos sem apoio e sem informação.

O terror do passado domingo foi vivido por muitos portugueses em isolamento quase absoluto, numa crua lembrança de que, em países de gestão centralizada e centralizadora, mesmo no seio da União Europeia, a Idade Média não parece tão distante assim.

Na terceira maior cidade do país, Braga, um incêndio sem paralelo nas últimas décadas, evoluiu à frente dos olhos de todos os residentes sem que isso tivesse qualquer reflexo significativo na produção dos média nacionais e também locais.

Os primeiros, limitadíssimos por uma existência no limiar do possível, tinham noticiários generalistas, com dados globais da terrível situação no país e com menções breves a cada uma das localidades atingidas; os segundos, em situação ainda pior, ausentaram-se quase por completo (a primeira página de um dos jornais diários da cidade é, desse ponto de vista, absolutamente exemplar – reflete uma realidade alternativa, sem qualquer menção ao assunto).

Os cidadãos não tiveram – em Braga e em muitas outras localidades – nenhum mecanismo integrado de produção de informação relevante para as populações e não tiveram – em Braga e em muitas outras localidades – acesso a canais de informação fiável e oportuna sobre o que estava a passar-se no seu entorno.

Em resumo, um cidadão da terceira maior cidade do país – repito! – conseguia apenas recolher informação solta sobre o que estava a acontecer à frente dos seus olhos através de métodos medievais (com tecnologias do presente, claro): o testemunho partilhado em redes de amigos e conhecidos e o comentário acrescentando detalhes.

O exemplo de Braga é, claro está, apenas um. E nem sequer é o mais significativo nem mais grave. Mas, sendo a terceira cidade do país, mostra-nos com enorme clareza como aquilo a que chamamos “o Estado” é uma edificação muito frágil, assente em complexos dispositivos legais, mas com muito pouca complementaridade concreta, no terreno.

O país viveu um domingo entregue à sua sorte, conduzindo em estradas rodeadas de fogo sem saber se seria seguro avançar ou não, defendendo propriedade privada sem qualquer auxílio, organizando-se para apoiar o esforço extraordinário de bombeiros voluntários sem capacidade para lidar com tão grande catástrofe.

Tudo indica – sobretudo depois do relatório sobre a tragédia de Pedrogão – que a forma como o Estado organizou, equipou, preparou e gere os serviços de proteção civil é desadequada. Tudo indica que o desinvestimento do Estado, ao longo de décadas, por falha ou omissão, na dinamização do chamado jornalismo de proximidade (sobretudo, permitindo a completa subversão da ideia de ‘rádio local’) interfere de forma determinante com a segurança das populações em situações extremas e, por arrastamento, com o desígnio de coesão nacional.

O Portugal dos Uber X, dos Airbnb, das Web Summits e das Madonnas em estádio gigantes de futebol não é o mesmo que enfrenta incêndios tenebrosos sem apoio e sem informação. O primeiro maltrata e desrespeita, há séculos, o segundo. Chegámos agora a um ponto em que terá terminado a paciência para ouvir mais discursos sobre a imponderabilidade da natureza, terminou o tempo para continuar a permitir que a Proteção Civil continue a ser território sereno para o serviço de clientelas e interesses e está na hora de se exigir a promoção de uma rede sustentável de órgãos de comunicação locais e regionais (que passa pela urgente revisão da Lei da Rádio).

Invertendo a direccionalidade daqueles despachos que costumam irradiar do Terreiro do Paço para o resto do território, este é o momento para, do lado de cá, se dizer, em tom firme: “faça-se”.

Comentários
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  • MAMM
    17 out, 2017 Lisboa 21:37
    O que me assusta e mesmo a palavra Estado. Este deveria ser o que todos, agora com os incêndios, reclamam, mas não foi. E não foi porque quando se investe, reclama-se que deveria ser ali e não aqui. E não foi porque a democracia, como sem ela, se faz o mesmo, quem pode gama. E por último o Estado actual e representado pela geringonça, mas poderia ser por outro qualquer arranjo político partidário, o resultado seria igual, com a diferença de que os que se defendem agora estariam a fazer as mesmas críticas se não fossem governo e vice versa. E por isso que estou assustado com o Estado por causa do resultado, que não teria mudado nem alterado se das eleições tivesse saído outro resultado.
  • jotamais
    17 out, 2017 Cascais 18:19
    Custa a aceitar mas é verdade: "O POVO TEM O GOVERNO QUE MERECE"
  • João
    17 out, 2017 Leiria 15:55
    Caro Luís, como ressalta à evidência por quem presenciou de bem perto estes últimos incêndios, como eu, era humanamente impossivel combater fogos cuja origem pode até estar relacionada com as temperaturas do furacão Ophelia. Em resultado dessa evidência, considero que perante a adversidade natural, muito bem andaram as entidades responsáveis.Sabe, é que foram mais de 500 (quinhentas) ignições num só dia!! Eu vi o fogo a fugir ao sabor de um vento quente descontrolado. E o Senhor? E outros que tanto escrevem? Viram, sentiram, cheiraram? Acho que em Lisboa não.
  • Costa
    17 out, 2017 Faro 12:55
    Eu, que tenho apoiado este Governo, acho que o Presidente da República deveria demiti-lo e promulgar novas eleições. Seria uma pena mas assim não se pode continuar, o que foi consumido nos incêndios, vidas e bens, derruba qualquer orçamento de estado.
  • andré correia
    17 out, 2017 alcáçovas 12:30
    O Estado alimenta-se a si próprio, cresce, cria meandros e buracos para todos os fins que, sobretudo, favorecem o próprio ESTADO. O Estado vai absorvendo poderes, decisões e torna-se cada vez mais poderoso, grande e pesado. Um Estado cada vez mais complexo e afastado das realidades. Torna-se num "monstro" autofágico.