Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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Opinião - José Luís Ramos Pinheiro

​Autárquicas. Algumas dúvidas e uma certeza

06 out, 2017 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


O PSD não está sozinho na lista dos derrotados. A derrota do PCP pode abanar também a própria geringonça?

Não é a primeira vez que as eleições autárquicas condicionam fortemente a política nacional.

Basta recordar que o engenheiro António Guterres, na altura primeiro-ministro, anunciou a sua demissão numa noite eleitoral autárquica em que os resultados não sorriram ao PS.

Agora coube a fava ao PSD e ao seu líder. Pedro Passos Coelho foi melhor primeiro-ministro do que líder da oposição. Enquanto chefe de Governo cometeu erros e não foram poucos. Mas teve a virtude essencial de cumprir um programa tão impopular, quanto crucial para se chegar ao momento em que estamos. O governo atual seria muito diferente se em vez de um país em recuperação, António Costa tivesse herdado um Estado à beira do abismo, como acontecia em 2011.

Em todo o caso, a saída de Pedro Passos Coelho da liderança do PSD lança, entre outras, uma dúvida importante: que PSD teremos a partir do próximo ano?

O PSD que aí vem procurará seduzir o PS para os encantos do bloco central, resgatando António Costa dos braços da geringonça? Ou desejará relançar, em qualquer modalidade a estudar, uma alternativa ao governo, mas com o CDS?

Na hora de escolher, os militantes do PSD hão-de ser confrontados com este dilema que mais cedo ou mais tarde se estenderá ao país.

Acontece que o PSD não está sozinho na lista dos derrotados. O PCP é outro dos grandes perdedores das autárquicas. E neste caso, a dúvida é saber em que medida esta derrota do PCP pode abanar também a própria geringonça?

De facto, a geringonça parece ter impulsionado eleitoralmente o PS, mas tudo indica que enfraqueceu o PCP. Nos últimos dois anos, o PCP amaciou as ruas e amaciou-se no parlamento. Foi amigo do governo. E a CGTP deu a mão: ameaçou mais do que fez.

Por isso, um dos dados – positivos - da atual solução governativa, é o governo não ter caído em desgraça na rua, por tudo e por quase nada.

Mas se o preço por estar com um pé no governo for entendido como demasiado alto, o PCP pode estar de volta à rua. Vai fazê-lo? E em que medida pode fazê-lo, sem que António Costa decida precipitar os calendários eleitorais?

Um PC duro no parlamento e agreste na rua poderia constituir o pretexto adequado para o governo concluir que não dispõe de condições para completar a legislatura.

Nesse contexto, a alteração dos calendários eleitorais imputada à radicalização do PC daria vantagem a António Costa: roubaria tempo para a afirmação do novo líder do PSD e reduziria espaço à consolidação da liderança de Assunção Cristas. Porque essa, entre tantas dúvidas, é uma das certezas que sai deste ato eleitoral: Assunção Cristas assumiu-se como líder, nas decisões que tomou e na campanha que dirigiu. Revelou-se e fez história com os resultados de Lisboa.

E se o PSD guinar à esquerda, Cristas e o CDS não deixarão de aproveitar.

Comentários
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  • Kati
    08 out, 2017 Lisboa 10:31
    O que conta são os votos globais a nível nacional dos partidos e os 500 000 a 1000 000 de votantes que se desloca dando maiorias relativas ou absolutas á dta ou á esquerda.Nestas eleiçoes estiveram envolvidos fatores locais,nacionais e até internacionais.Nao esquecer que 4 200 000 abstiveram-se e a soma destes com os votos em branco e nulos dá a regeiçao ou pelo menos indiferença perante ação partidária de 50% dos eleitores inscritos e nunca se sabe se vem a terreno votar se a situação se extremar.Nestas eleições perderam todos os partidos pois só votaram quase exclusivamente os clubistas.A opressão legislativa ideológica e falta de estrat´gia nao agressiva das maiorias levará mais tarde do que cedo á indignação e ação.
  • MASQUEGRACINHA
    07 out, 2017 TERRADOMEIO 19:22
    Pois é, o PSD ainda vai acabar a pedir boleia no táxi da Cristas... à pendura.Também gosto de ver o outrora tão orgulhoso PSD a socorrer-se do PCP para não ficar tão sozinho na derrota - quer dizer, agora que está de joelhos, a querer ir a meças com o baixinho... Enfim, coisa triste e falha de dignidade. Não sendo, nem nunca tendo sido, simpatizante comunista, sinto gratidão por quem fez manicura a frio e brincou aos ovos estrelados humanos, para podermos andar todos a dizer tolices sem sequer nos apercebermos das tolices que dizemos. E só posso sentir apreço por quem insiste num ideal de bem comum, dedicado aos que pouco ou nenhum bem têm. Não sou comunista porque não acredito o suficiente na humanidade para o ser, eis a razão - talvez a mesma do articulista, mas sem a mesma leveza de alma do articulista. E relembro (a mim e ao articulista, e aos que como ele pouco pensam e muito falam), as palavras do Papa Francisco, sobre os ideais comuns de comunismo e cristianismo. E mais: não é por a mensagem cristã, ao longo da história, ter sido adulterada, manipulada e usada para os piores fins, que em seu nome se tenham cometido crimes aberrantes, que o seu ideário está errado ou não acabará por impor a sua cristalina lógica. Ou talvez afinal não consiga... Entretanto, admiro quem porfia - e não admiro tanto quem só rebaixando os outros se consegue elevar.
  • MASQUEGRACINHA
    07 out, 2017 TERRADOMEIO 19:22
    Pois é, o PSD ainda vai acabar a pedir boleia no táxi da Cristas... à pendura.Também gosto de ver o outrora tão orgulhoso PSD a socorrer-se do PCP para não ficar tão sozinho na derrota - quer dizer, agora que está de joelhos, a querer ir a meças com o baixinho... Enfim, coisa triste e falha de dignidade. Não sendo, nem nunca tendo sido, simpatizante comunista, sinto gratidão por quem fez manicura a frio e brincou aos ovos estrelados humanos, para podermos andar todos a dizer tolices sem sequer nos apercebermos das tolices que dizemos. E só posso sentir apreço por quem insiste num ideal de bem comum, dedicado aos que pouco ou nenhum bem têm. Não sou comunista porque não acredito o suficiente na humanidade para o ser, eis a razão - talvez a mesma do articulista, mas sem a mesma leveza de alma do articulista. E relembro (a mim e ao articulista, e aos que como ele pouco pensam e muito falam), as palavras do Papa Francisco, sobre os ideais comuns de comunismo e cristianismo. E mais: não é por a mensagem cristã, ao longo da história, ter sido adulterada, manipulada e usada para os piores fins, que em seu nome se tenham cometido crimes aberrantes, que o seu ideário está errado ou não acabará por impor a sua cristalina lógica. Ou talvez afinal não consiga... Entretanto, admiro quem porfia - e não admiro tanto quem só rebaixando os outros se consegue elevar.