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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Distorções no mercado de trabalho

25 ago, 2017 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Cada vez mais temos uma economia de baixos salários.

A descida do desemprego para 8,8% da população activa em Portugal é, sem dúvida, uma evolução positiva. Convém, no entanto, reparar em algumas distorções no nosso mercado de trabalho.

Uma delas foi ontem destacada no diário “Negócios”: o salário líquido dos licenciados caiu, em média, 9% desde 2011. Em 2015 e 2016, e já no ano corrente, a queda parece ter estagnado no valor nominal, médio, de 1.223 euros mensais.

Esta desvalorização dos vencimentos dos licenciados ocorre numa altura em que se apela, e bem, a mais e melhor formação académica dos portugueses, como condição de progresso económico e social.

Como se explica? Não há, que eu conheça, um estudo sério sobre este fenómeno perverso de maior oferta de trabalhadores com ensino superior coincidir com menor procura. Mas podem avançar-se alguns palpites.

O Prof. João Cerejeira, da Universidade do Minho, escreve na revista “Cadernos de Economia”, ligada à Ordem dos Economistas, que aumentou o número de licenciados a ocuparem cargos antes ocupados por pessoas com o ensino secundário apenas (no turismo, na restauração, nos “call centers”, etc). E aponta que um dos factores deste desajustamento estará no que classifica de “sobre-educação”. Confesso que esta palavra me deixa perplexo.

Outras explicações referem que o Estado deixou de contratar licenciados para conter despesa pública – o que enfraquece dramaticamente as capacidades da Administração pública.

Uma outra hipótese é que a reforma chamada de Bolonha desvalorizou as licenciaturas em favor dos mestrados e doutoramentos, mas faltam aqui dados empíricos para formar uma opinião.

Parece é que muitos empresários e gestores não apreciam por aí além elevados graus académicos no pessoal que empregam. Por isso emigram jovens com mestrados e doutoramentos.

Outra distorção, em parte ligada ao desajustamento referido, está em que a qualidade do emprego recentemente criado é, em numerosos casos, muito baixa, como alertou Carvalho da Silva, antigo líder da CGTP. De facto, no segundo trimestre deste ano foram criados 102 mil novos empregos – mas quase metade (45 mil) aconteceram no sector “alojamento e restauração”, graças à expansão do turismo.

Estamos, assim, a agravar cada vez mais, e não a superar, a nossa economia de baixos salários, ao contrário do que o Governo prometia.

Comentários
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  • José Neto
    26 ago, 2017 Lisboa 20:07
    Sem entrar no fundo da questão, não esquecer que o processo de Bolonha desvalorizou a licenciatura. A licenciatura anterior corresponde ao atual mestrado
  • Luisa
    26 ago, 2017 Lx 09:33
    Oh Francisco, ia tão bem no seu texto, e teve que dar a já esperada tacada final...previsível vindo de si..."Estamos, assim, a agravar cada vez mais, e não a superar, a nossa economia de baixos salários, ao contrário do que o Governo prometia"...... Tudo o que diz antes é verdade....mas com este governo o desemprego diminuiu, apesar dos mais baixos salários.... e com o seu querido anterior governo, o desemprego aumentou drasticamente, vergonhosamente....sem alternativa de criação de qualquer emprego, apenas a ilusão dos cursos para desempregados, do IEFP, com vista a retirarem números ás estatísticas....uma pura ilusão....e os salários diminuíram na mesma, até para as pessoas que estavam no ativo, com acordos meio estranhos, quase sob mobbing.... isto porque o seu querido PPC, liderou um governo que retirou toda a força ao empregado passando-a para as entidades patronais, que, como sabe, enriqueceram....é só vermos os milhões de lucro que algumas empresas ganharam após as políticas de direita PSD/CDS.... Passa muito na televisão...não vê os noticiários?????
  • s o s
    25 ago, 2017 22:49
    se bem lembro, tera sido pelos reis, que num lugarzito do norte, mostrado pelas televisoes, Passos coelho, relativamente ao qual desejo o pior, dizia que nao havia propriamente criaçao de novo emprego. Todos os governos manipulam a coisa, e só as oposiçoes podem desmascarar, sendo que á oposiçao da area governamental nao lhe interessa muito esclarecer os portugueses do modus operandi do governo E só a Segurança social pode, a cada momento, radiografar a coisa, como seja detectar o falso emprego, e o emprego fomentado e pago pelo estado. Além, claro, das empresas que despediram para a seguir empregarem outros a metade do salario dos que estavam. Mas aqui a questao é outra : a desvalorizaçao dos licenciados. O que ninguem ainda vaticinou é se vao acabar os nao licenciados, e que lhes vai acontecer, ou se vai acabar a proteçao do salario, e vai baixar o salario dos nao licenciados, tipo um salario minimo menor de 2º categoria.
  • Justus
    25 ago, 2017 Espinho 18:26
    S. Cabral não tem vergonha nenhuma! No passado, apoiou Passos Coelho quando este proclamava que era melhor ter um emprego, mesmo que fosse com um baixo salário, do que não ter emprego nenhum. Lembra-se disto, S. Cabral? Claro que se lembra perfeitamente, porque esteve sempre ao lado destas políticas mentirosas e populistas. Agora, em vez de realçar o fato histórico da espantosa descida do desemprego, entretêm-se a divagar e a tentar encontrar algo que não esteja bem em termos de trabalho. Não é preciso ser muito esperto para se encontrar, em Portugal e em todo o mundo, deficiências no mundo laboral. Ma há gente que gosta de mostrar a sua esperteza. Só é pena que essa esperteza venha tão tarde!
  • JC
    25 ago, 2017 charneca da caparica 15:02
    Sr. FRANCISCO SARSFIELD CABRAL nunca é tarde para fazer um balanço do que foi a governação do anterior governo que o senhor tão empenhadamente apoiou, É verdade, este governo fez promessas, mas o anterior nem isso fez, limitou-se a maltratar e com um total desprezo pelos jovens mandou-os emigrar !!!!