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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Tentar perceber

Reformar o capitalismo

12 ago, 2017 • Francisco Sarsfield Cabral • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Não há um sistema socialista que funcione e não seja liberticida. Mas tal não é motivo para que não se procurem alternativas ao capitalismo.

Desde a revolução soviética, faz agora há cem anos, até à queda do muro de Berlim, e consequente colapso do comunismo, em 1989, uma boa parte dos adversários do capitalismo podia apontar uma alternativa que, aparentemente, funcionava: o chamado “socialismo real”, soviético. Mas essa alternativa acabou, evidenciando que não só limitava gravemente as liberdades cívicas e políticas como era economicamente pouco eficaz, quando confrontada com as economias capitalistas.

Muitos adeptos da economia de mercado se entusiasmaram com a vitória do capitalismo, falando mesmo no “fim da história”. Tal euforia teve resultados perversos, pois contribuiu para um capitalismo irresponsável, mais selvagem, menos regulado, com menor consciência social (a qual fora, em parte, estimulada pelo receio do comunismo), desvalorizando a política face à economia. Basta lembrar a vergonhosa falência da Enron no início do século (arrastando consigo a empresa de contabilidade Arthur Andersen), a multiplicação de jogadas criminosas em Wall Street e a grande recessão provocada pela irresponsabilidade na concessão de crédito à habitação evidenciada pela crise hipotecária (subprime) a partir de 2007.

Doutrina social da Igreja

Entre os triunfalistas da vitória do capitalismo não se contava uma pessoa que havia contribuído como poucos para o ruir do comunismo: o Papa S. João Paulo II. Este Papa logo avisou que o fim do comunismo soviético não significava que tínhamos chegado ao paraíso. Havia muita coisa a corrigir nas economias de mercado.

Depois, Bento XVI veio pedir uma nova economia na encíclica Caritas in Veritate, apelando a “uma nova e profunda reflexão sobre o sentido da economia e dos seus fins”, bem como a “uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento” (nº. 32). A lógica do mercado não pode resolver todos os problemas sociais (n.º 36). Segundo a encíclica, a economia precisa, também, da “lógica do dom sem contrapartidas” (n.º 37).

Bento XVI colocou reservas à desregulamentação do trabalho, à mobilidade laboral, aos cortes nas despesas sociais e à limitação das liberdades sindicais (n.º 25), reclamando trabalho “decente” e explicitando o que se deve entender por isso (n.º 63).

Naquela encíclica Bento XVI sublinhou que “a sociedade cada vez mais globalizada não nos faz irmãos” (n.º 19). Condenou a globalização selvagem, mas não uma globalização na solidariedade. E como vários dos seus antecessores, insistiu na necessidade de um poder político mundial para enquadrar a globalização.

Na Mensagem para o dia Mundial da Paz de 1999 escrevera S. João Paulo II: “A corrida vertiginosa para a globalização dos sistemas económicos e financeiros torna patente a urgência de estabelecer quem deve garantir o bem comum global e os direitos económicos e sociais. É que o livre mercado, por si só, não consegue fazê-lo, uma vez que existem numerosas carências humanas que não têm acesso ao mercado”.

E na encíclica Centesimus Annus, que em 1991 celebrou o centenário da primeira encíclica social, a Rerum Novarum de Leão XIII, dizia o Papa S. João Paulo II: “Hoje está-se a verificar a denominada ‘mundialização da economia’, fenómeno este que não deve ser desprezado, porque pode criar ocasiões extraordinárias de maior bem-estar. Mas é sentida uma necessidade cada vez maior de que a esta crescente internacionalização da economia correspondam válidos organismos internacionais de controlo e orientação que encaminhem a economia para o bem comum, já que nenhum Estado por si só, ainda que fosse o mais poderoso da terra, seria capaz de o fazer” (n.º 58).

O Papa Francisco, que falou de “uma economia que mata”, vai na linha dos seus antecessores e da Doutrina Social da Igreja, tantas vezes ignorada pelos católicos. Naturalmente que várias afirmações de Francisco não agradam aos católicos que se rendem ao “deus mercado” – acontece sobretudo nos EUA. Também Jesus Cristo desagradou aos poderosos do seu tempo.

Inventar alternativas

A Doutrina Social da Igreja não rejeita a economia de mercado, mas coloca-lhe limites. Ao longo do séc. XX foi possível tomar algumas medidas no sentido de humanizar o capitalismo, de que é exemplo o chamado modelo social europeu. Mas no séc. XXI as condições para esse reformismo tornaram-se menos favoráveis. A economia cresce menos, a população envelhece (o que coloca restrições financeiras aos apoios sociais), as desigualdades entre os muito ricos e os outros acentuam-se, etc.

Será, então de desistir do humanismo reformista em economias capitalistas? Julgo que não, até porque hoje não existe qualquer economia colectivizada que funcione com um mínimo de eficácia e em clima de liberdade. A China não tem liberdade política e o seu sistema económico é um capitalismo de Estado. Já não existem “socialismos reais” como alternativas ao capitalismo, apenas ditaduras mais ou menos grotescas.

Nada disto obsta a que não só se tente reformar o capitalismo, não obstante as dificuldades, como a de idealizar sistemas alternativos que funcionem e não sejam liberticidas. Mas é possível que a saída não esteja em descobrir um novo grande sistema económico e social (como foi o comunismo), mas na acumulação de pequenos passos no sentido de uma economia social – como o micro crédito, o comércio justo, a banca ética, etc. – onde o lucro seja uma condição de sobrevivência mas não a finalidade última da empresa.

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Comentários
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  • João Lopes
    19 ago, 2017 Viseu 11:12
    Concordo com FSC: « reformar o capitalismo…idealizar sistemas alternativos que funcionem e não sejam liberticidas…acumulação de pequenos passos no sentido de uma economia social – como o micro crédi-to, o comércio justo, a banca ética, etc. – onde o lucro seja uma condição de sobrevivência mas não a finalidade última da empresa.
  • carriço
    18 ago, 2017 lisbao 08:36
    A europa vai ser engolida pela sua cegueira irracionalista na gestão do seu espaço e inversao valores
  • ALETO
    13 ago, 2017 Lisboa 19:25
    Foi a Renascença ou Sarsfield Cabral que escolheu o retrato de Charlie Chaplin em «Os Tempos Modernos». Na verdade, este foi uma má escolha, porque Charlie Chaplin nada tem a ver com Sarsfield Cabral e a sua mentalidade conservadora e de direita retrógrada. Talvez fosse melhor procurar outra fotografia e não tentar confundir os leitores, porque Charlie Chaplin (um homem que ainda faz rir) nada tem a ver com Sarsfield Cabral (um homem triste).
  • António Costa
    12 ago, 2017 Porto 23:50
    (Jesus demarcou-se destes assuntos domésticos). Vamos olhar de forma diferente, de baixo para cima, que espera o homem da sociedade justa senão os ideais do 25 de abril, que espera o homem de Deus senão estar junto dos seus num planeta tão bonito como este, que espera o homem de si mesmo senão poder dominar os sonhos, em qual destas visões simplistas, do papel do homem no mundo, se subentende que não possa ser alcançada por questões de regimes humanos. O regime em si não faz que seja bom ou mau, existem regimes que dão absoluta liberdade ao homem mas punem severamente quem os pretende modificar politicamente, que diferença me faz quem é o detentor do poder se for justo como Salomão, julgar o regime Chinês por ser comunista ou vangloriar os países europeus pela sua dita democracia é uma visão muito pequenina do papel da nossa existência.
  • Marco Visan
    12 ago, 2017 Lisboa 20:16
    Continuamos com as mesmas teses. Será que a Renascença continuará a apostar em Sarsfield Cabral para dar a imagem de uma imprensa moderna e liberal ou continuará a servir-se deste para fazer promoção de ideias caducas e conservadoras?
  • tomás aquilino
    12 ago, 2017 horta 13:48
    A social-democracia nórdica é liberticida? Basta de preconceitos básicos contra o socialismo, ok?