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Opinião de Luís Cabral
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​Venezuela

11 ago, 2017 • Opinião de Luís Cabral


As intenções de Chavez e de Maduro foram seguramente boas: ajudar os mais pobres. O problema é quando a racionalidade económica é substituída pela ideologia, a liderança política pelo populismo.

Há uma anedota antiga do ministro que visita uma zona rural. Um agricultor aproxima-se do governante e queixa-se do preço dos produtos agrícolas. "É a lei da oferta e da procura", diz o ministro. "Pois então veja lá se muda essa lei", responde o agricultor.

A Venezuela é diferente desta anedota por dois motivos. Primeiro, a ideia de "revogar" a lei da oferta e da procura não veio do agricultor mas sim do próprio governo. Segundo, não se trata de uma anedota mas sim da realidade nua a crua. Não tem muita piada.

As intenções de Chavez e de Maduro foram seguramente boas: ajudar os mais pobres. O problema é quando a racionalidade económica é substituída pela ideologia, a liderança política pelo populismo.

O único benefício que vejo na história da Venezuela é que fornece aos professores de economia uma série de exemplos do que não se deve fazer:

Lição número 1. Fixar um preço máximo é óptimo para os consumidores no curto prazo: quem é que não gosta de pagar menos do que o preço de mercado? O problema é que os incentivos para os produtores oferecerem o produto diminuem, se é que não desaparecem completamente. O resultado é um supermercado com preços baixos mas as prateleiras vazias.

Lição número 2. A gasolina é uma excepção, dirão: afinal, a Venezuela é um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Como tal, fixar um preço baixo para a gasolina não faz mal, poderíamos pensar.

No entanto, o resultado é criar um enorme incentivo para exportar gasolina para a Colômbia, onde o preço é mais próximo do preço de mercado. Resultado: o governo Venezuelano subsidia a gasolina que os colombianos consomem. Estes últimos agradecem, os venezuelanos não tanto.

Lição número 3. A redistribuição da riqueza através da expropriação "a granel", sem respeito pelos direitos de propriedade, tem um efeito material imediato positivo: o povo fica com maior riqueza.

O problema é que muitos dos detentores do capital físico, que em grande parte são também detentores de capital humano, preferem sair do país a ser tratados de forma tão abrupta. O resultado é que o país perde uma grande fracção da população educada.

Lição número 4. O que se diz sobre a expropriação dos ricos aplica-se também ao investimento estrangeiro. A nacionalização tem um efeito imediato positivo: maior riqueza para os nacionais. O problema é que depois os estrangeiros se recusam a investir, e inclusivamente a colaborar na gestão dos investimentos já existentes. A Venezuela importa gasolina porque não tem quem possa operar as refinarias.

Lição número 5. Não é só o capital humano que foge da Venezuela.

As pessoas tentam também transferir a sua riqueza para os Estados Unidos ou Espanha. Como tal, a procura de dólares é enorme. Para "abafar" esta procura, o governo estabelece controles de capital: apenas podem comprar dólares os que demonstrarem uma necessidade clara de importação ou de incorrer em despesas de viagem. Resultado: voos de Caracas para Nova Iorque com todos os bilhetes vendidos mas nenhum passageiro a bordo (durante algum tempo, comprar um bilhete era prova suficiente da necessidade de obter dólares para viajar).

A regulação dos mercados e a distribuição da riqueza são condições necessárias para a eficiência e para a equidade. Há muitas formas de o fazer, umas melhores do que outras. "Revogar" a lei da oferta e da procura é uma das mais certas receitas para o desastre.

Comentários
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  • João Lopes
    12 ago, 2017 Viseu 12:37
    Este artigo é escrito por um excelente economista. Tem ideias cheias de sabedoria, sensatez, simplicidade e agradável de ler!
  • Miguel Botelho
    11 ago, 2017 Lisboa 18:15
    Não quero entrar na demagogia e na ignorância das palavras do comentador Dalton Catunda Rocha, mas Nicolás Maduro não é nenhum Idi Amin ou Baby Doc, nem tem fortunas acumuladas no estrangeiro, como os americanos dizem existir. Creio que o problema é, sem dúvida, económico e tem a ver com as importações de petróleo da Venezuela para os Estados Unidos. O transporte de petróleo, desde a Venezuela, demora 4 a 5 dias. Enquanto do Médio Oriente, demora 40 a 45 dias. Existe o pacto de Punto Fijo, assinado em 1958 e que deixou uma oligarquia no poder que negociou os preços de petróleo com os EUA, sem que o povo beneficiasse com eles. Eu pergunto ao Luís Cabral se já ouviu falar nas missões de saúde, habitação e educação na Venezuela e se sabe qual o índice de analfabetismo deste país. Posto isto, sei que o autor do texto poderá continuar a criticar a postura do governo venezuelano. Outros criticam a qualidade das sanções impostas pelos EUA.
  • Dalton Catunda Rocha
    11 ago, 2017 Fortaleza - Ceará - Brasil 15:00
    Aos que ainda sejam, admiradores deste tiranete cabeça oca chamado Nicolás Maduro Moros e, estejam preocupados com a vida deste imbecil, eu aviso logo uma coisa. Que todo ditador que tenha fortunas roubadas no exterior, sempre foge, sem nada chamável de luta. Eu que nasci em 1970, já vi as quedas de podre de vários ditadores que, tinham fortunas roubadas e depositadas no exterior. E para lá fugiram, sem nada chamável de Luta. Vou citar os que eu me lembro, desde que estava no fim da minha infância: Idi Amin (Uganda - 1979), Xá do Irã(Irã -1979), Baby Doc (Haiti), Ferdinando Marcos (Filipinas), etc. Se Maduro vai morrer no exílio como Idi Amin, Xá do Irã e Baby Doc ou vai ser eliminado pela sua corrupção e roubalheira, após uma fuga fracassada como já o foram Nicolae Ceasescu (Romênia 1918 – 1989) e Muammar Gaddafi (Líbia 1942 – 2011), só o tempo dirá. Prefiro a segunda alternativa. Em resumo: Maduro cairá de podre. Questão de meses ou semanas.