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Opinião de Henrique Raposo
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​NEM ATEU, NEM FARISEU

E se a barriga de aluguer for um útero artificial?

28 jul, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


Paradoxalmente, o útero artificial vem mostrar que os críticos do aborto sempre tiveram razão. O problema é que abre uma nova caixa de Pandora.

Não, não é um delírio à Frank Herbert ou à Philip Dick. O útero artificial deixou a estratosfera da ficção científica e aterrou na realidade. Uma gestação mecanizada e sem a necessidade do corpo da mulher já não é uma impossibilidade. Já estão a ser feitas experiências com bezerros criados em úteros artificiais que se assemelham às máquinas que suportam as pessoas em coma: bombas mecânicas, tubos e seringas bombeiam ar e injectam os nutrientes que permitem o crescimento do feto.

Mas a pergunta fundamental não está no campo da possibilidade, está no campo da legitimidade. A questão “é possível criar um ser humano num útero artificial?” é insignificante ao pé do dilema “é legítimo criar um ser humano num útero artificial?”. A ciência não se legitima a si própria.

Se servir para salvar ou proteger de forma mais tranquila a vida dos chamados bebés prematuros, esta máquina pode ser uma dádiva, um avanço notável da medicina. Contudo, se for usada como barriga de aluguer dos caprichos dos Ronaldos e das Kardashians, esta máquina pode ser uma porta para um inferno pós-humano onde o ser humano passa a ser uma mercadoria como outra qualquer.

Neste cenário, o útero artificial deixa de ser medicina e passa a ser distopia, deixa de ser um instrumento que auxilia uma vida já criada (o bebé prematuro) e passa a ser um portal para a criação de seres humanos ex nihilo. Ou seja, estamos à beira de um pesadelo ético (o negócio das barrigas de aluguer torna-se ainda mais fácil porque a “mãe” passa a ser uma relíquia), de um pesadelo político (um útero mecânico é o sonho molhado dos nazis) e de um pesadelo criminal - se o comércio de seres humanos e de órgãos já é uma realidade, como será no dia em que as máfias poderão simplesmente criar seres humanos para vender ou para servirem de estufas de órgãos humanos para colher e vender?

Sem grande alarme colectivo, estamos a caminhar para uma sociedade em que o ser humano pode ser comercializado ao abrigo das leis do mercado. O que não deixa de ser curioso: a resistência ao comércio de bens inertes (vulgo “capitalismo”) coabita lado a lado com a indiferença perante o comércio de seres humanos. Mas, já que invoco o conceito de “ser humano”, convém prosseguir com uma pergunta: será que um bebé criado ex nihilo numa máquina ainda pode ser considerado um “ser humano”? Uma pessoa que entra neste mundo através de uma máquina e não através de outro ser humano ainda pode ser considerado “ser humano”?

Até Jesus precisou de Maria para entrar neste mundo. O Salvador não apareceu do nada num portal de metal à ficção científica; Ele precisou de Maria, portal humano. Julgo que até os não crentes percebem este ponto de forma intuitiva. E também não é preciso acreditar no conceito cristão de “alma” para perceber que nós não somos apenas matéria, não somos compostos apenas de carne e fluidos. Durante a vida intra-uterina, a nossa personalidade começa a ser formada através da interacção com a nossa mãe. No vácuo da máquina, que tipo personalidade pode ser desenvolvida?

Este debate devia estar a ser feito, mas o tema tem sido desprezado. Porquê? A meu ver, a razão para o silêncio é a seguinte: o útero artificial desarruma os termos actuais do debate do aborto. Os defensores da “IVG” tentam tudo para desumanizar o nascituro, tentam reduzir ou menosprezar a vida intra-uterina, para assim retirar a carga odiosa do acto. Ora, o útero artificial vem mostrar é que “aquilo” não é um “mero amontoado de células”. Moral da história? Paradoxalmente, o útero artificial vem mostrar que os críticos do aborto sempre tiveram razão. O problema é que abre uma nova caixa de Pandora.

PS: Esta crónica vai de férias para o norte. Volta em Setembro.

Comentários
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  • Hipólito
    01 ago, 2017 Lisboa 14:39
    A ciência evoluirá para tornar cada vez menos penosa a vida .A igualdade será tb quando o útero for um acessório feminino dispensável.Mas o maior feito será qdo a longevidade chegar pelo menos aos 1000 anos e de um espermatozoide ou óvulo conseguirem em laborat´rio criar um órgão , ser humano ou outro qualquer.Aberrante,chocante, mas possível.
  • mara
    30 jul, 2017 Portugal 16:43
    Caro Dr. o vosso sábio artigo recordou-me um caso passado comigo numa aula de catequese, sempre que preparava as aulas procurava não falar de algum tema relacionado com as crianças...Numa das catequeses anteriores ao Natal cujo tema era a Pátria e a Família de Jesus, esqueci o caso dum miúdo não aceite pelo Pai. Primeira pergunta que fiz para desenvolver o tema foi: Todos os meninos têm pai e mãe? Resposta imediata do miúdo sempre o primeiro, e uma das maiores inteligências a quem dei catequese: O meu pai nunca quis saber de mim, nem a família dele, não os conheço, Jesus deu-me outro Pai o Manuel, catequista ele é tão bom amo-o muito, tive oportunidade do constatar, este miúdo cujo pai talvez tenha incitado a mãe a abortar, filho duma miúda que deve ter sofrido horrores...uma miúda que encontrou o Manuel a acarinhou, gostou do miúdo o tratou como seu, e o tem ajudado a ser um optimo rapaz, e quantos mais teriam vidas iguais ao longo dos séculos? Será que gerados por máquinas tem a mesma sensibilidade deste Querido Menino? Duvido! O Mundo está a autodestruir-se, há vários anos assisti a conferência em que um dos oradores disse: "Oxalá a máquina não avilte o Homem," esta frase foi dita por um Papa do inicio da industrialização, lamento não recordar qual, mas os anos passam e nem tudo retemos na memória.
  • Vera
    29 jul, 2017 Palmela 21:15
    Espero que durante as suas férias, traga temas sobre a Natureza, sobre gentes e a sua forma de vida, sobre a cor da vida: o pôr do sol sobre o mar, o azul do mar ou verde, conforme... há imensas coisas neste país à beira-mar plantado! para quê falar da eutanásia, no aborto, nas barrigas de aluguer, na homossexualidade; falemos em coisas mais naturais, como por exemplo: o zoo de Lisboa, a antiga feira Popular, a quinta do Zé da esquina, onde nascem tomates batatas, couves e frutos, a faina da pesca, ou se existe ou não, o Plutão? e se Galileu vivesse de novo!!! há tantos temas que nos falam daquilo que nos interessa e que tantos desconhecem... quem é que já viu os pescadores a puxar as redes? as pessoas vão à praia e depois vão a correr para casa, porque são horas de jantar! porque é que damos tanta importância às horas? temos que fazer tudo a horas? porque não vivemos com o tempo? há tempo para tudo! para comer, para dormir, para pensar, para descobrir, para aprender, para reparar naquilo que nunca reparamos, porque o relógio está sempre à frente dos nossos olhos! a nossa vida é controlada pelo relógio!!! A Net, é a única que nos leva longe! e até perdemos o enguiço do relógio... 'Boas Férias' Henrique Raposo! Aproveite e leve uma agenda para tomar nota de algo, que depois com tempo possa ser comentário, que não seja a eutanásia, as barrigas de aluguer, o aborto, a homossexualidade ... já não há paciência, que aguente, tantas voltas no carrossel do oito. Divirta-se...
  • Emanuel Teixeira
    28 jul, 2017 Sintra 22:34
    " Até Jesus precisou de Maria para entrar neste mundo. O Salvador não apareceu do nada num portal de metal à ficção científica; Ele precisou de Maria, portal humano. Julgo que até os não crentes percebem este ponto de forma intuitiva" ... A sério? Em pleno século XXI ainda há gente com esta distopia cognitiva, em que Jesus nasceu da virgem Maria! Discorrer sobre ciência e ética, misturando crendice e fé... que grande parto!
  • JL
    28 jul, 2017 Beja 15:36
    Concordamo absolutamente que o feto ou o bebé não devem ser desumanizados. Quanto ao aborto, não o defendemo - mas sim o direito da mulher decidir. Gostemos ou não, não apodemos obrigar, quando não quer
  • João Lopes
    28 jul, 2017 Viseu 11:09
    Artigo muito interessante de HR. É verdade: A ciência não se legitima a si própria... o ser humano não pode passar a ser uma mercadoria como outra qualquer.
  • Vado Ribas
    28 jul, 2017 Genève 09:13
    E claro, Ronaldo teria obrigatóriamente de vir à baila... O Senhor Jornalista sabe quantos casais recorrem diáriamente à barriga de aluguer ?... Com IVA ou sem IVA, é melhor dar vida que matar vida antes de nascer...