O site da Renascença usa cookies. Ao prosseguir, concorda com o seu uso. Leia mais aqui.
Opinião de José Miguel Sardica
A+ / A-

A “tolerância” intolerante

26 jul, 2017 • Opinião de José Miguel Sardica


Numa democracia adulta e num debate político civilizado, não haveria lugar para Ventura. Mas como as democracias se estão a abastardar, os "Venturas" proliferam e o maior deles até já chegou à Casa Branca.

No Expresso do passado Sábado, Daniel Oliveira defendeu que o "politicamente correto" não significa outra coisa senão "mínimos de civilidade no debate político". Estava a referir-se ao caso André Ventura e à forma como, segundo ele, o candidato do PSD à Câmara de Loures entrou na "alarvidade", ao proferir declarações "racistas" contra os ciganos, promovendo um "discurso de ódio". Aceitemos, por ora, o argumento e a adjetivação de Daniel Oliveira. Não conheço André Ventura pessoalmente, nem o conhecia sequer, até, por zapping televisivo, o ter visto perorar, duas ou três vezes, na CMTV, em debates sobre crime ou justiça, ou num programa de comentário futebolístico que descobri chamar-se «Pé em Riste» (o título diz tudo sobre o tom da coisa!). Provando como o sensacionalismo televisivo promove famas imerecidas, não é errado considerar que o estilo político-mediático de André Ventura faz dele o candidato CMTV. A sua imagem é facilmente atacável, porque nela abundam o histrionismo, o populismo e a falta de tato. Numa democracia adulta e num debate político civilizado, não haveria lugar para Ventura. Mas como as democracias se estão a abastardar, os "Venturas" proliferam e o maior deles até já chegou à Casa Branca. Daniel Oliveira tem, pois, alguma razão. Mas não a tem toda.

Esqueçamos o estilo Ventura. O que foi que ele realmente disse, não pela forma, mas na substância? Que os discursos politicamente corretos de multiculturalismo estão a falhar e que há, em Portugal, comunidades etnicamente excludentes ou de imigração não integrada onde proliferam problemas vários, de resistência ao Estado de direito (versão legal-ocidental), de "parasitismo" ou de violência. André Ventura objetivou na comunidade cigana; eu escrevo em termos gerais. Acaso isto é mentira? Sim, também há brancos de classe média delinquentes, e devemos falar deles. Mas não podemos falar dos outros? Denegrir Ventura como um pária quase fascista resolve os problemas que se acumulam nas franjas das grandes cidades, e não só? Não me parece.

A questão do politicamente correto é muito mais vasta do que o sobressalto produzido pelas infelizes declarações de um candidato acidental, ou pelas não menos infelizes declarações de um prestigiadíssimo médico (Gentil Martins, ao referir-se à homossexualidade como uma "anomalia"). A questão é que os polícias dos bons costumes são os mais intolerantes defensores de uma, uma só – a sua – "tolerância". No mundo do politicamente correto, que é, não haja dúvidas, um mundo de pensamento único, de militância furiosa e de radical distinção entre bons e maus, não há lugar para o que as modas progressistas desconsideram (em nome de quem e com que legitimidade?), como conservador, nacionalista, ocidental, heterossexual, patriarcal, etc. Ao exagero de linguagem de André Ventura ou de Gentil Martins (e note-se que só para este efeito os coloco lado a lado...), responde-se com o zelo pidesco da criminalização da opinião alheia; a diferença torna-se, em algumas mentes, um verdadeiro delito de opinião. E aqui pergunta-se: não deve a tolerância aceitar que haja quem não considere que a etnia cigana (ou outras) cumpre as leis, ou que ache e diga que a homossexualidade é uma opção errada? Eu não confundo Daniel Oliveira com, por exemplo, Isabel Moreira, do PS, ou com qualquer um dos zelotas do BE. Mas tenho para mim que a intolerância do politicamente correto está, também ela, abaixo dos mínimos de civilidade de que todos deveríamos cuidar se queremos continuar a viver numa verdadeira democracia. Além de que, como é sabido, é a intolerância de uns que gera, em círculo vicioso, a intolerância dos outros...

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • MASQUEGRACINHA
    26 jul, 2017 TERRADOMEIO 17:06
    É um facto inegável que os discursos politicamente corretos multiculturalistas estão a falhar - em Portugal como em todo o lado. Mas gostaria de lembrar ao Sr. Sardica que a consciência social, tal como a individual, tem quase sempre que escolher entre o menor de dois pecados; e que todas as diferenças têm que caber numa única forma de valores éticos e legais pré-definidos. Há que escolher, portanto, entre dois pecados: aquilo a que chama "estilo Ventura", e que acha até que se pode "esquecer" (para quê? para melhor "tolerar" o conteúdo?); e aquilo a que chama o "zelo pidesco" e "zelota" do politicamente correcto, tornado "intolerante" (em relação a quê? aos conteúdos de "estilo Ventura"?) E o Sr. Sardica, fora os estilos e os exageros, qual dos conteúdos lhe parece mais apropriado para ditar os valores e as leis que a todos nos devem enformar e governar? Em nome de quem, pergunta o Sr. Sardica. Em nome das gajas espancadas pelos donos, dos bastardos institucionalizados, dos bichas internados, dos pretos e dos ciganos com tratamento preferencial nas esquadras - e por aí fora, é resposta suficientemente simples e politicamente correta? Pergunto eu: qual destas intolerâncias escolheria Cristo? A que peca por obstinada ignorância, estupidez, cupidez e maldade, ou a que peca por excesso, quase cegueira, na sua humanidade? Conclui muito bem o texto, mas convém não esquecer que foi dos provados horrores da intolerância "estilo Ventura" que nasceu a intolerância "estilo zelota"...
  • Emanuel Teixeira
    26 jul, 2017 Sintra 10:35
    O seu texto faz todo o sentido... publicado no site em que está: Renascença! Falar de tolerância, ou da falta dela, sob o manto da Igreja Católica é mesmo paradoxal.
  • António
    26 jul, 2017 Vila Nova de Gaia 10:27
    Em defesa do Drº António Gentil Martins, chamo a atenção do Drº José Miguel Sardica, para as opiniões "Anomalia civilizacional" do Profº João César das Neves no DN de 22-07-2017 e "Gentil Martins, Ronaldo e o PREC" de José Mário Martins no JN de 24-07-2017. Para tal, bastar fazer um copy/past, respectivamente dos seguintes links: - http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/joao-cesar-das-neves/interior/anomalia-civilizacional-8655501.html - http://www.jn.pt/opiniao/convidados/interior/gentil-martins-ronaldo-e-o-prec-8658081.html Então verá que se esqueceu, infeliz e lamentavelmente, de algo importante que não um pormenor, mas um porMAIOR, que faz toda a diferença. Uma diferença que merece, como cristão que é e coerente que deve ser, o "mea-culpa" da humildade cristã.