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Opinião de Henrique Raposo
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​NEM ATEU, NEM FARISEU

Um cristão não pode dizer “sou contra homossexuais”

21 jul, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


Por muito que custe ao Dr. Gentil Martins e a tantos outros, os homossexuais são amados por Deus.

As palavras de Gentil Martins têm sido analisadas pelo ângulo da medicina e da ciência. Preocupo-me mais com o ângulo do cristão. Gentil Martins falou como médico mas sobretudo como cristão. E o que me interessa naquela entrevista não é a ideia da homossexualidade enquanto “anomalia”. Como bem recordou um jornalista desta casa, Filipe d’Avillez, a declaração realmente grave de Gentil Martins é outra: “sou completamente contra homossexuais”.

Um cristão pode e deve ter dúvidas sobre a natureza da homossexualidade. Um cristão pode questionar o consenso científico sobre o tema – todos as teorias científicas são apenas isso, teorias que podem e devem ser questionadas; um consenso científico de uma dada época não é o fim da história.

Um cristão pode e deve lutar contra a crescente ditadura do politicamente correcto fracturante, que é intolerante e que, acima de tudo, parece sempre disponível para humilhar a religião, o cristianismo, a igreja. Basta recordar o imbecil cartaz do BE do ano passado. Dizem-me que os homossexuais ou os autoproclamados donos da homossexualidade estão indignados com Gentil Martins. Percebo a indignação. Mas então porque é estes homossexuais não dizem nada quando ouvem dizer – todos os dias – que a fé cristã é uma anomalia, um distúrbio de mentes infantis, um abuso infantil que os pais lançam sobre os filhos, uma crença primitiva?

Um cristão, contudo, não pode confundir o combate ao politicamente correcto com o regresso à ignorância e ao ódio do passado. Combater o politicamente correcto não pode significar voltar a dizer barbaridades sobre negros, mulheres ou gays, como se a luta contra esta intolerância intelectual da pós-modernidade fosse, na verdade, uma máquina do tempo destinada a teletransportar a sociedade para um passado pré-moderno. Gentil Martins tem o direito de não concordar com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tem o direito de pensar que a adopção de crianças por gays é um erro, tem até o direito de não aceitar o actual consenso psiquiátrico sobre a homossexualidade, mas, como cristão, não tem o direito de pensar ou dizer que “é contra homossexuais”. Não consigo pensar em nada mais anti-cristão do que ser contra um grupo de pessoas.

No máximo, um cristão pode dizer que é contra a prática sexual homossexual. Não pode é nunca dizer que é “contra homossexuais”. Mesmo que a homossexualidade fosse uma “anomalia” inaceitável, o dever do cristão seria sempre o de amar e perdoar essa “anomalia”. Já ouviram falar em perdão e misericórdia?

Indiquem-me, por favor, uma passagem do Novo Testamento em que o Senhor indique que odiar sodomitas é um dever cristão. Não encontram, pois não? Indiquem-me por favor uma passagem em que o Senhor indique que a criação de barreiras entre grupos de seres humanos é um dever cristão. Não encontram, pois não? No máximo, encontram a ideia de que o casamento é entre um homem e uma mulher. Nunca encontrarão nada sobre a exclusão de homossexuais e de prostitutas. Sim, no Levítico e no Deuteronómio, diz-se que é preciso punir prostitutas e sodomitas. Mas convém recordar que Jesus Cristo está depois do Antigo Testamento e que, na sua passagem pela terra, deu sempre lugar de destaque às prostitutas, sobretudo a Maria Madalena. E, já agora, não será Mateus 19:12 uma aceitação da naturalidade da homossexualidade? “Alguns eunucos são assim porque nasceram assim”.

O ódio é o caminho mais fácil, porque cria uma retaguarda de segurança, o “nosso campo” contra o “campo dos outros”. E tem sido triste verificar que muitos cristãos estão a procurar cada vez mais esse refúgio no ódio, na barricada, na guerra cultural contra tudo o que é remotamente gay. É um erro táctico e, acima de tudo, uma violação da moral cristã.

Gostava de relembrar que os homossexuais não são todos iguais – não se confunda o mediatismo do “activista LGBT” com a complexidade dos homossexuais, muitos deles cristãos. Gostava ainda de relembrar que a sexualidade não é a única identidade de uma pessoa.

Para terminar, gostava de relembrar que o homossexual é uma pessoa criada por Deus, sagrada como todas as outras. Por muito que isso custe ao Dr. Gentil Martins e a tantos outros, os homossexuais são amados por Deus. Sei qual é - nesta fase - a contra-argumentação de muitos cristãos: mas, ó Henrique, “eles” (os do politicamente correcto fracturante) são intolerantes, não nos respeitam, etc. A minha resposta é muito simples: “eles” têm algumas décadas de vida, nós temos quase 4.000 anos de Revelação. Quando “eles” desaparecerem na roda da história, à semelhança de outras tribos ideológicas dos últimos 4.000 anos, nós continuaremos por cá. Tenham um pouco mais de mais confiança, encaixem o desdém, sigam em frente. “Dar a outra face” não é uma metáfora, é uma ordem.

Comentários
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  • Maria Castro
    26 set, 2017 Lisboa 11:54
    É certo que não é aceitável um cristão ser "contra os homossexuais", mas também não é próprio de um cristão o moralismo exacerbado que este artigo denuncia. Li a entrevista que o Expresso fez ao Dr. Gentil Martins, e ainda algumas notícias inflamadas sobre as suas declarações polémicas, e em lado nenhum, a não ser aqui, veriquei que GM tivesse querido dizer, com todas as letras, que é contra os homossexuais. Do mesmo modo, e ao contrário do que alega Henrique Raposo, não conheço cristãos que nutram ódios contra determinados grupos de pessoas. Só esse tipo de atitude é suficiente para deixarem de ser cristãos, i.e. um novo Cristo, por muito que aleguem ser. A somar a isso, deixa-me escandalizada a aplicação do versículo do Evangelho de São Mateus para justificar a naturalidade da homossexualidade, quando praticamente todo o parágrafo que o suporta fala da castidade no sacerdócio. Por favor, se é Cristão, não use o Evangelho para sustentar tamanha heresia. “Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido”, pede NS de Fátima aos Pastorinhos.
  • Antonio Gomes
    29 jul, 2017 Portugal 22:54
    Se, «no máximo, um cristão» for «contra a prática sexual homossexual; e não poder «nunca dizer que é “contra homossexuais”», não é uma incongruência? Ser contra a prática sexual homossexual, deverá, em princípio, ser a justificação de alguém ser contra homossexuais!.. Quase ninguém é contra a forma como os outros obtêm orgasmos – com o mesmo sexo, com sexo oposto, sozinho(a) ou em grupo – desde que os intervenientes o façam de livre e espontânea vontade; o problema dos homossexuais é virem a público assumir uma diferença, para depois exigirem direitos iguais – como por ex., a adopção. Ou são diferentes ou são iguais!.. Como podem querer ter direitos iguais se são diferentes?
  • Daniel Gomes
    27 jul, 2017 Lisboa 16:37
    O sr. Henrique percebe tanto da Bíblia como eu de agricultura. A Bíblia (velho e novo testamento) condena a prática (repito, prática) de homossexualismo. Vá ler 1 Timóteo 1:8-11 por exemplo (Novo Testamento). Ou, 1 Coríntios 6:9 (Novo Testamento, novamente). Simultaneamente, a Bíblia não promove a homofobia nem a discriminação de qualquer pessoa. Contudo, querer reescrever a Bíblia para apoiar a suas ideias, não só não faz sentido nenhum, como só descredibiliza tudo o resto que disse a seguir. Lá que a igreja católica, como habitual, vá mudando as regras para não perder fiéis (rever a história desde o concílio de niceia...etc).... percebo... agora dizer que foi a Bíblia... é muita imaginação! Depois partilhe com os leitores o texto onde diz que a Maria Madalena era prostituta.
  • Fernando
    27 jul, 2017 Lisboa 16:30
    É preciso recordar que o elemento revolucionário do Cristianismo é que nos considera TODOS FILHOS DE DEUS, o que há dois mil anos atrás era contra os poderes instituídos porque para Roma ou para Atenas (para falar apenas nos melhores casos) o conceito de cidadania estava restrito a alguns e "os outros" - estrangeiros, mulheres, ... - eram secundarizados ou mesmo escravizados. Recordando o que dizia o saudoso teólogo padre Carreira das Neves, Jesus nunca esteve dentro dos poderes instituídos, pelo contrário dava-se com os desfavorecidos e marginalizados pela sociedade do seu tempo. E o rito supremo do Cristianismo é de inclusão: quando voltou dos mortos Jesus reuniu-se com os amigos partilhando pão e vinho - uma bucha e uma pinga como diria o homem da rua - dizendo "fazei isto em memória de mim"
  • Idalina Lopes
    25 jul, 2017 Amadora 21:30
    O sr Henrique Cardoso quis deitar areia para cima dos olhos dos leitores: pois ao contrário do que apregoa neste seu texto aqui exposto, o Dr. Gentil Martins NÃO DISSE SER CONTRA HOMOSSEXUAIS, DISSE SER CONTRA O COMPORTAMENTO: HÁ UMA ENORME DIFERENÇA! Isto é mau jornalismo! O Sr. Henrique Cardoso quis ser mais um a tentar LAVAR O CÉREBRO DOS CRISTÃOS, para aceitarem as filosofias distorcidas dos PSs, BEs, PCPs, e companhia. Aqui temos assim, um bom exemplo de FAKE NEWS.
  • Duarte
    23 jul, 2017 Lisboa 11:36
    Bom dia, Desculpe, mas tenho de comentar o facto de ter insinuado que Jesus veio aceitar a homosexualidade, porque isso é completamente incorreto, existem passagens onde Jesus condena todo e qualquer outra forma de relacionamento sexual entre duas pessoas, a menos que seja entre um homem e uma mulher casada! E além disso, há muitos pecados gravíssimos que Jesus nunca se referiu concretamente, talvez porque seria algo tão obvio na época que não seria necessário que se insistisse no assunto, mas hoje com um afatamento cada vez mais acentuado de Deus da sociedade, o mal está cada vez mais a tornar-se "bem" aos olhos de muitos, tal como por exemplo uma vida tem perdido o valor que tinha, e o mesmo tem acontecido que a banalização da homosexualidade. Obrigado, e por favor não volte a insinuar algo sobre Jesus.
  • Eu Je Moi Me
    22 jul, 2017 Lisboa 11:32
    Acho que o autor deve repensar o texto. Não sou a favor dos homossexuais e muito menos do homossexualismo. Quanto muito, desde que não me incomodem , não me hostilizem e me provoquem, façam o que lhes der na telha. Quero que estejam bem longe de mim. Não andem a fazer o que fazem às crianças nas escolas. A chamada reeducação forçada, como nos campos de concentração da sibéria. Agora até já estão a criar Leis do discurso de ódio. Eu sou contra os homossexuais que militam no LGBT. Aliás, os LGBT não querem, nem permitem que um homossexual peça ajuda a um medico, psicólogo ou psiquiatra e perseguem quem os tente ajudar. Todo o ser humano é amado por Deus ! Foi isso que aprendi e pratico, Independentemente do credo, cor ou sexo. É claro, que se me respeitarem, também serão respeitados. Não aceito ser desrespeitado pelos LGBT. Eu gosto de ser respeitado, acho que tenho esse direito.
  • Vera
    22 jul, 2017 Palmela 11:32
    Então vamos analisar a situação, mas por partes: 1ª) quando nascemos somos todos iguaizinhos, só nos distinguimos pelo sexo! 2ª) depois ensinam-nos a andar e a falar e vestem-nos, cor de rosa, azul, ou cor do burro quando foge! 3ª) se o pai é alcoólico, o filho aprende a ser alcoólico como o pai! se a mãe for prostituta, a filha aprende a ser prostituta como a mãe! 4ª) se os filhos/filhas, se revoltarem e seguirem caminhos diferentes dos pais/mães, esses encontram pelo caminho por onde pisam, amigos cor de burro quando foge! é aí que começa o desequilíbrio mental de cada um: roubas, matas, ou vives de meiguices com quem não deves? porque tens medo da vida! porque este mundo é desequilibrado e já nasceste virado para o desequilíbrio, porque não te ensinaram como deve de ser, a estar virado para a normalidade! 5ª) estás perdido na vida, drogas-te, viras lixo e morres! 6ª) procuras um psicólogo, tratas-te trabalhas e segues em frente, sem que te apontem o dedo,com DIGNIDADE!!! Jesus atravessou o deserto,andou por lá 40 dias,para conseguir meditar! pediu a Deus que Lhe afastasse os demónios(males que existiam,em certa gente),Ele queria ser o filho de Deus de que todos falavam! Ele era o filho de Deus de que todos falavam! e não sabia como se livrar dos males que o perseguiam! fugido no deserto, Deus falou-Lhe e Ele caminhou para Jerusalém para se entregar!foi torturado e pregado na cruz! Filho de Maria e de José,carpinteiro de profissão,podia seguir na vida sem pensar nos outros.
  • Antonio Costa
    22 jul, 2017 Porto 10:53
    Ficou por perguntar ao professor que pensa das minissaias ele teria respondido, pela liberdade da sua pessoa, a sua opinião, para si e o que achava de uma suposta filha usar minissaia, as considerações socias por esse ato, etc, até pensei que fosse pior a forma de como a comunicação respondesse a esta opinião e porem o professor a agitar uma bandeira, na realidade concluo que tratando-se de um filho(a) seu (o que não quero para mim não quero para os outros) não encarava com bons olhos sem deixar de salientar que o continuaria a amar como até ai e ponto final, estarem a ocupar tempo precioso na cabeça do professor com mexericos é um erro. Deus está em todos e ninguém se pode assenhorar das suas palavras Ele é tolerância e contra todas as formas de castigo antes de tudo. Na minha opinião o professor diz uma coisa e faz outra, não se tratando de um dos seus desafios pessoais respondeu de forma leviana a uma questão à qual não aprofundou, os católicos só podem ver nessa afirmação isso mesmo.
  • Eurico
    22 jul, 2017 Sines 09:15
    Texto bem redigido. Mas gostaria de deixar apenas dois comentários. Primeiro em nenhuma parte do Novo Testamento está escrito que Maria Madalena era prostituta. Segundo os eunucos de que Jesus fala são aqueles que prescindem de casar de ter relações sexuais por amor do Reino dos Céus. Isso é bem claro no Novo Testamento. Antes de se escrever sobre a sagrada escritura deve-se ter o cuidado de interpretar livremente a escritura de forma a adequar-se à opinião que queremos vender. Deve ser a escritura a falar-nos ao coração e não nos a retrovertermos a escritura. De qualquer modo está certíssimo! O Cristão tem de amar a todos! Até pedir pelo bem dos inimigos! Condena-se o mal, o errar o alvo e nunca as pessoas sejam elas homossexuais ou não. E claramente a homossexualidade no Cristianismo é errar o alvo. Mas a pessoa continua a ser sempre amada por Deus. Porque os heterossexuais também peçam, erram o alvo. Nisso estão todos em pé de igualdade. Cordiais cumprimentos!