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Opinião de Cristina Sá Carvalho
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​O custo e o valor

18 jul, 2017 • Opinião de Cristina Sá Carvalho


E quando uma parte emocionada do país andava a calcular o presumível custo dos gémeos de CR7, o SIRESP voltou a falhar e aconteceu o furto em Tancos.

Os incêndios, o SIRESP (que continua sem funcionar), a ajuda financeira que teima em não chegar às vítimas e mais o explosivo retorno da intriga bélica são tudo motivos para nos mantermos ocupados. Mas é à modorra estival que recorro, como justificação, para só agora me despedir de algumas das grandes figuras públicas que, recentemente, nos deixaram: Helmut Kohl, cuja última palavra pública foi proferida em favor da unidade da Europa, e Simone Weil, uma senhora distinta e corajosa, igualmente defensora da solução «mais Europa» para os problemas de inclusão e assimetria que, de outro modo, não vão nunca abandonar-nos.

Quando a China e a India se mobilizam para a liderança global e os americanos cultos dão por garantida a perda de influência dos Estados Unidos, é impossível não pensar no legado dos políticos que promoveram a paz, o desenvolvimento e a União durante a segunda metade do século XX europeu. Podemos discordar de algumas das suas políticas, certamente não eram santos, mas eram corajosos, tinham criatividade, energia e capacidade de diálogo para além das sondagens e dos modelos financeiros e, sobretudo, amavam a liberdade de um modo como talvez só possa amar quem viveu sob os efeitos dramáticos e desumanos do totalitarismo. Em tempos de retorno do extremismo bacoco e descerebrado foi bom ver como os cidadãos europeus sabem despedir-se com dignidade e gratidão. E ainda, sobre a morte e a apressada cremação do Nobel da Paz Liu Xiaobo, uma voz de decência e coragem moral que se calou circunscrito a uma atmosfera de desrespeito institucional que nem para os inimigos deveria estar reservado.

E quando uma parte emocionada do país andava a calcular o presumível custo dos gémeos de CR7, uma parada de 200.000 euros supostamente empregue na produção dos pequenos – certamente com óvulos e incubadora das melhores proveniências – ao tempo em que o fisco espanhol vem dar o ar da sua graça, a UNICEF publicou há semanas um novo relatório, “Construir o Futuro: As crianças e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável nos países ricos”. Por alguma razão linguística que não estou apta a analisar, as “crianças” não mereceram a letra maiúscula do “futuro” ou dos ODS, nem a atenção mediática dos eventos galácticos que refiro neste parágrafo.

Já se sabe que o futuro fica muito longe, principalmente agora que já não pertence nem a Deus nem à indústria petrolífera, e as crianças são sempre coisas pequenas e incómodas, instrumentalizáveis e desinteressantes, facilmente negligenciadas no essencial, mesmo, ou sobretudo, quando custam uma pequena fortuna mas que é apenas parte do preço do Bugatti Veron do putativo progenitor.

Seja como for, o relatório merece uma leitura atenta e começa por destacar a maior conquista da nossa democracia, a qualidade da saúde das crianças portuguesas, resultado de um esforço de intervenção preventiva, de longo prazo e de educação das populações, três atitudes mentais que raramente se concertam entre nós. Portugal também aparece muito bem classificado quanto ao reduzido consumo de álcool por crianças e pela descida da taxa de gravidez adolescente, e os jovens portugueses são dos melhor informados sobre as questões de natureza ambiental, o que é muito animador se pensarmos que, provavelmente, recusariam votar num Donald Trump.

Sublinho ainda alguns indicadores mostrados no estudo que, na última década, têm sido consistentemente discutidos pelos profissionais da saúde mental e da educação, incluindo os professores, que têm “a mão na massa”, sem que isso tenha propiciado qualquer discussão política séria, prolongada e consistente. Trata-se, por uma lado, da questão da pobreza, da fome e da desigualdade social que, quando sofridas durante a infância são muito incapacitantes, pois afetam prolongadamente a saúde, o desenvolvimento psicológico, o sucesso escolar e as oportunidades de mobilidade social. Não raramente estão associadas a outros fatores de risco, como a monoparentalidade, o desemprego dos pais, a precaridade da habitação, o consumo de drogas, a doença crónica e um longo etc, porque uma desgraça nunca vem só. E se, por um lado, a taxa de suicídio na adolescência é, felizmente, baixa (contrastando amplamente com o paraíso escolar preferido pela OCDE), e o diagnóstico de perturbação mental na infância é bastante residual, a taxa de bullying é muito elevada e a de violência sexual só comparativamente se pode considerar reduzida.

Deveríamos assumir um acordo interpartidário no sentido de percebermos com exactidão aquilo que ainda nos protege, como a persistência da família alargada e da chamada família tradicional, ou a capacidade individual que os professores mantêm de criar na escola um abrigo contra o mal ou a qualidade formativa dos profissionais de saúde. São tudo valores relevantes, instrumentos de sucesso, escolar e social, que estamos, continuamente, a dinamitar. Para isso, já nos chega a vergonha de Tancos.

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  • Tantagentea"ajudar"!
    18 jul, 2017 Covilhã 14:47
    E que tal a senhora, para ultrapassar essa modorra estival, tirar o rabinho da cadeira e vir a Pedrógão? Poupar-se-ia e pouparia muita gente às asneiras que escreveu por falta de conhecimento, ou de coragem e estaleca para saír da confortável modorra.