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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Tentar perceber

Apoiar os sacrificados do progresso

15 jul, 2017 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O Estado será cada vez mais chamado a intervir para apoiar os prejudicados pelos avanços tecnológicos.

A revolução industrial criou, a prazo, muitíssimo mais empregos, e melhor pagos, do que aqueles que as máquinas eliminaram (o que, por vezes, levou os operários a destruir essas máquinas – teares, por exemplo). E agora, irá acontecer algo parecido com as novas tecnologias? Essa possibilidade inquieta muita gente.

No início da revolução industrial saíram dos campos britânicos, que começaram a ser vedados, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças que foram trabalhar para as fábricas nas cidades, em condições de enorme exploração. Nasceu, então, a chamada “questão social”.

O progresso tecnológico tem custos. Demorou demasiado tempo a atenuar as terríveis condições de trabalho – e de não trabalho, por causa da doença e do desemprego – no primeiro século da revolução industrial. No fundo, só com a progressiva generalização do sufrágio universal, já no século XX, foram criadas condições mais humanas para os proletários. Estes passaram a constituir a maioria dos eleitores, o que levou os políticos a dar-lhes alguma atenção. Assim nasceu o Estado social.

Os robots contra as pessoas?

Agora, os avanços na automação, na inteligência artificial, nos robots, na informática e na internet levantam receios de que sejam destruídos muitos empregos. A indústria transformadora, por exemplo, dá emprego a cada vez menos trabalhadores, substituídos por robots e outras máquinas. E a automação ameaça hoje mais a classe média do que o operariado fabril, que já é relativamente reduzido.

Aliás, um dos êxitos do capitalismo industrial, que predominou até cerca de 1970 no mundo desenvolvido, foi ter transferido boa parte dos proletários para a classe média. Mas a ascensão económica e social dos trabalhadores, que foi espectacular, parece ter estagnado nas últimas décadas. O desemprego continua em níveis elevados em muitos países e os salários sobem pouco ou nada – contrastando com a rápida melhoria de rendimentos de algumas minorias.

Os optimistas garantem que os avanços tecnológicos actuais irão criar novos empregos, tal como aconteceu – a prazo - com a revolução industrial. Oxalá, mas não é certo. E, sobretudo, ninguém sabe concretamente que empregos serão esses, qual a respectiva remuneração, etc. É provável que seja na área dos serviços que surjam novas oportunidades de trabalho, mas há serviços como fazer limpezas de casas e escritórios - e serviços informáticos altamente sofisticados.

Mais, não menos, Estado social

Não vale a pena tentar adivinhar as profissões que se extinguirão, como o aparecimento do automóvel tirou o trabalho a cocheiros e a ferradores de cavalos. Uma coisa é certa: se não queremos uma nova “questão social”, que assombrou o século XIX e boa parte do séc. XX, o Estado terá que intervir mais na economia e na sociedade para “amparar” a transição. Isto, numa altura em que o envelhecimento das populações coloca crescentes dificuldades financeiras ao Estado social, onde ele existe.

Será preciso o Estado subsidiar pessoas que ficam sem trabalho, melhorando o subsídio de desemprego – e até, porventura, apoiando financeiramente trabalhadores com emprego, mas mal pagos. Já há vinte anos o economista americano Edmund Phelps, prémio Nobel da economia em 2006, propôs subsidiar salários baixos (Rewarding Work, 1997). Mas não teve sucesso.

Por outro lado, a digitalização da actividade económica tende a aumentar a precaridade do trabalho, uma vez que muitas tarefas podem ser concretizadas a qualquer hora e em qualquer local. É conveniente para algumas pessoas, mas arriscado para muitas outras. O enquadramento legal do emprego tem de ser alterado para evitar a “precarização informática”.

O Estado também terá que gastar mais na educação e na formação, incluindo de adultos que ficam sem emprego na meia-idade e não estão preparados para lidar, por exemplo, com computadores. Mas haverá dinheiro para isso?

Tem de haver, o que significa impostos mais altos para os ricos e para o capital, além de uma mais eficiente gestão das finanças públicas. Ora isto é o contrário (impostos mais baixos para os ricos) do que vemos na presente economia americana. Talvez só uma grave crise económica e social nos EUA mude essa perversa política fiscal. É que a insatisfação das classes médias cresce a olhos vistos: trata-se de uma bomba relógio.

Daí a eleição de Trump, graças aos que ficaram para trás. Mas ele irá desiludir muitos dos seus apoiantes, uma vez que as suas medidas que se desenham no horizonte são frontalmente favoráveis a quem já é rico, como Trump e a maioria dos seus colaboradores.

Ou seja, politicamente não vai ser fácil apoiar os sacrificados pelo progresso tecnológico. Mas será necessário. Assim os governos estejam conscientes de que poderão ter pela frente uma enorme contestação, porventura violenta.

Comentários
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  • Albertina Sarmento
    17 jul, 2017 Anadia 00:36
    Ó sr. cabral, já há uns tempos não passava a ler os seus escritos. Por um mero acaso venho hoje e fico surpresa com o seu desalinhamento alinhado!!! Então agora "passou-se" para as esquerdas? Este discurso não condiz consigo homem, você veja lá se precisa de um psiquiatra! Não está a submeter-se a um pagamento de favores, com certeza!!! :)
  • Fernando Saraiva
    16 jul, 2017 Porto 22:44
    Acho que podem-se colocar duas questões (e também respondendo ao comentári do Sr. João Almeida): Não precisamos de pessoas com empregos, mas precisamos de máquinas para produzir? Não temos máquinas que façam dinheiro, mas precisamos de pessoas com empregos para nos comprar as mercadorias? Vejamos que antes, por exemplo para uma pedreira, seriam necessários vários trabalhadores para fazer o trabalho, esforço recorrendo a ferramentas básicas sem garantir se o ordenado que se ganhava compensava o esforço tido. Hoje uma máquina escavadora faz o trabalho e ganhou-se em qualidade no trabalho (menos esforço). E para quem compra pode ficar mais barato porque há mão de obra no produto final e aí até se pode dizer "na poupança há lucro" (já que mão de obra tem grande fatia na despesa das empresas - por via também das exigencias de ordenados minimos e ordenados medios para manter pessoal e o nivel de comodidade das pessoas). Também convém comparar os salários e ainda o nivel de comodidade geral das pessoas que a introdução das máquinas compensou por essa redução de empregos. Acho que realmente são temas que necessitam de debate profundo.
  • nin
    16 jul, 2017 Evora 22:00
    É por isso que a gestão ruinosa do Estado é um crime. O Estado português não tem agido em contra-ciclo, no tempo das vacas gordas foi a vaca que mais engordou, e não tem o direito de exigir mais impostos. Eles foram, e são, mal usados.
  • Paulo
    16 jul, 2017 Olhão 17:44
    " As pessoas só mudam quando estampam a cara contra uma parede." Lido algures.
  • Joao Almeida
    16 jul, 2017 Ceira 14:17
    (Continuação); Os numeros estão aí, avassaladores :produtividade aumentou de 28 milhões de dólares por trabalhador em 1947 para 231 milhões em 2010, ao passo que os trabalhadores por meio de produção se reduziram de 75 em 1947 para 6 em 2010.Será que as corporações de IA, vão ter o bom-senso de criar o tal salário garantido? Será que a dispotia irá promover novas formas de totalitarismo e poder centralizado nas empresas/corporações , que criam as IA?!Uma coisa é certa, o trabalho com produção em massa, de milhares de trabalhadores, em cadeia/linha, da grande industria Fordista, criticada por C.Chaplin em 1936, no seu Tempos Modernos, não mais voltará! Será que devemos começar a preocuparmo-nos com novas formas críticas, ou aceitar a IA, como um progresso positivo?! Sei que também há preocupações éticas, na voz do filosofo Nick Bostrom, que acha que esta procura desenfreada de inteligência artificial, é uma “ameaça á sobrevivência da espécie humana”! Elon Musk, o dono da Tesla Motors, PayPal, Spacex, e projectos como a Hyperloop, investe milhões em IA, mas também parece ter sérias preocupações, com o futuro controlo dos robots IA, sobre o homem. Se o homem foi feito á imagem e semelhança de Deus, e não somos grande coisa, duvido no futuro o que serão estes robots IA, feitos á imagem e semelhança do homem!Quando os criadores, temem a sua própria criação, não sei o que pensar, fico céptico… se realmente estamos no caminho certo! Termino com Brecht:"Com o tempo vós podeis descobrir tudo o que há para descobrir e no entanto o vosso progresso afastar-vos-á cada vez mais da Humanidade. O abismo entre ela e vós pode tornar-se um dia, tal que ao vosso grito de alegria perante alguma nova conquista científica responderá um grito de horror universal."
  • Joao Almeida
    16 jul, 2017 Ceira 14:04
    Sr F.S.Cabral, fico surpreso, pela positiva, com esta sua opinião! Se não tivesse o seu cunho, até diria que era uma opinião de qualquer articulista de esquerda! Mas o momento em que vivemos, já não dá para continuar a discutir, direita e esquerda, pois ambas sem darem por isso se dissiparam em social-democracia! Que tb não serviu o interesse da maioria do cidadão, em qualquer parte deste globo. A culpa é do próprio cidadão que entrega o seu destino nas mãos dos politicos, tendo como as urnas de votos, a sua própria sepultura, sem depois ter uma intervenção cívica critica. “Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem.” B.Brecht Pois é a IA(Inteligência Artificial), invade as nossas vidas de forma rápida, e, a automação irá continuar a eliminar milhares de mão de obra mundial, e, a matar o próprio trabalho(se for para libertar/emancipar o homem do trabalho, será bem-vindo)! Mas vai criar implosão social... cada vez mais pessoas, vão deixar de ter rendimento disponivel, para comprar as mercadorias do sistema capitalista.Aqui está a grande contradição do sistema, e, possivelmente a sua morte! Muita produção, mais do que a necessária para os consumidores. A utopia do "progresso sem limites", afinal o falso "desenvolvimento", tem limites! A utopia, leva-nos a distopia, com inumeros problemas num futuro próximo.Aldous Huxley, já se tinha preocupado com o assunto, no longínquo ano de 1932,no livro Admirável Mundo Novo!
  • Mário Soares
    16 jul, 2017 São Paulo 13:07
    Tu é que és o maior troca tintas. Argumentos de instrução primária. Se não fosse a política do PPC a salvar o país do fosso em que o teu colega de partido o deixou, neste momento nem dinheiro para a bateria do Tm tinhas . . .
  • Justus
    15 jul, 2017 Espinho 22:47
    O PSD, o governo anterior e os seus apoiantes, como S. Cabral, face ao excelente desempenho económico e financeiro do actual governo e perdidas todas as suas bandeiras, não tiveram outro remédio que não fosse colarem-se aos êxitos de António Costa, reivindicando até a sua autoria. Não querem perder, ficar atrás de ninguém, tal qual os putos da escola. É ridículo, mas compreende-se, porque não têm alternativas. Agora, por esta é que não esperávamos. Ver S. Cabral alinhado com os partidos da extrema-esquerda, que ele tanto exorciza, não lembra ao Diabo. Ora vejam estas passagens do seu texto: " o Estado terá que intervir mais na economia e na sociedade"; o Estado também terá que gastar mais dinheiro na educação e na formação"; " tem que haver impostos mais altos para os ricos e para o capital"; " Mais, não menos, Estado social". Mas não é exactamente isto o que apregoam Jerónimo de Sousa e Catarina Martins? A que se deve esta conversão de S. Cabral aos princípios e ideologia da extrema-esquerda, repudiando o capitalismo que sempre defendeu com unhas e dentes? Não apoiou S. Cabral. o seu amigo P. Coelho quando este começou a desmantelar a economia, o Estado social e a educação pública? Ficamos mesmo muito perplexos e preocupados, quando as pessoas, por puro oportunismo ou por fraqueza já não conseguem defender os seus ideais, metem os pés pelas mãos e contradizem-se dia a dia. É deveras muito preocupante. Mas também é certo que dos troca tintas e fracos não reza a história.