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Opinião de João Ferreira do Amaral
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Alemanha e França os donos da Europa?

07 jul, 2017 • Opinião de João Ferreira do Amaral


A estranheza começa logo por Kohl ter sido proclamado "cidadão honorário da Europa". O que é que isso significa? A Europa não concede cidadanias. Um cidadão da União Europeia é alguém que adquire essa qualidade meramente pelo facto de ser cidadão de um estado-membro.

Há poucos dias, realizou-se no Parlamento Europeu uma cerimónia inédita que constituiu ao mesmo tempo um espectáculo indigno.

Tratou-se de uma homenagem fúnebre a Helmut Kohl, que foi pretexto para grandiosos testemunhos de europeísmo por parte de alguns líderes europeus.

A estranheza começa logo por Kohl ter sido proclamado "cidadão honorário da Europa". O que é que isso significa? A Europa não concede cidadanias. Um cidadão da União Europeia é alguém que adquire essa qualidade meramente pelo facto de ser cidadão de um estado-membro. Ao que sei, Kohl era cidadão alemão e portanto era cidadão da União Europeia. Então ao que vem esta propaganda barata de fazer crer que a Europa é um estado que concede cidadanias?

Mas não foi este facto (que aliás não é inédito), por absurdo que seja, que causou a indignidade do espectáculo. A questão foi outra.

É que toda a cerimónia foi pura propaganda em prol da liderança alemã da Europa. Querer fazer-nos crer que Kohl foi o grande campeão de uma Alemanha europeia é um embuste dos mais indignos que se podem fazer em face de um caixão que continha os restos mortais de alguém devia merecer maior respeito.

Kohl foi o grande obreiro inicial da Europa alemã e conseguiu ter sucesso enquanto foi chanceler. O seu grande objectivo - a hegemonia alemã por meios pacíficos - é agora prosseguido, com base no que Kohl obteve, por Angela Merkel que não tem rebuço em endeusar Kohl para seu próprio interesse enquanto rosto actual dessa mesma hegemonia.

Tem um parceiro ideal - Macron, que, com total subserviência, abrirá todas as portas que Merkel necessite. Por isso mesmo, como prémio, foi-lhe dada a possibilidade de ser o outro chefe de governo a falar para além da chanceler. Como se Alemanha e França fossem os donos da Europa.

A ilusão pode-lhes sair muito cara.

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Comentários
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  • Carlos
    08 jul, 2017 Lisboa 06:26
    A nossa economia é fraquinha, sempre foi, e disso a Alemanha não tem culpa. Na Bélgica, no Luxemburgo, na Irlanda o salário minimo é superior a mil euros e não foi a Alemanha que impediu a riqueza desses pequenos paises mais pequenos do que nós. A Holanda, do tamanho do Alentejo é a quinta maior economia europeia e um dos dez países mais competitivos do mundo. O salário mínimo é de 1501,80 euros.
  • José Ferreira
    07 jul, 2017 portugal 22:10
    Eu pensava que a melhor caricatura que já tinha visto era a de um monhé sentado num portugal a afundar-se enquanto tocava pifaro e uma cobra com óculos côr de rosa, que tinham escrito made in costa, a sair dum cesto e a tirar selfies...mas não...o funeral de kohl é sem duvida melhor, o que foi interrompido em 1945 e depois retomado pela merkle é sem duvida melhor, não tenham medo que o macron não vai ajuda-la, ela tinha de ter pelo menos mais 10 anos para ele estar interessado.
  • Justus
    07 jul, 2017 Espinho 21:35
    Ferreira do Amaral vê aquilo que a maioria das "cabeças pensantes" não vêm. A Alemanha há muito que engendrou a sua estratégia de domínio da Europa. No passado foram as guerras. Agora sabe que isso não leva a nada e alicerça a sua hegemonia através do poderio económico. Nada se faz na Europa sem o dinheiro da Alemanha. Que o digam Passos Coelho e Vitor Gaspar, gratos e subservientes. A França, como diz Ferreira do Amaral, estará sempre bem, desde que a deixem pôr em bicos de pés.
  • Lusitano
    07 jul, 2017 Lisboa 20:47
    É verdade mas a culpa não é deles. A culpa é dos Estados que venderam a sua alma, a sua soberania, a segurança dos seus cidadãos e que, de estados soberanos passaram a meros pedintes, de joelhos, e numa atitude totalmente passiva, como se ameaçados tivessem sido, perante os " comandantes" da Europa, a quem ninguém elegeu, mas que se assenhoraram da mesma, que querem ditar as suas leis, criando nela divisões, e obrigando, sim, obrigando alguns países, nomeadamente todo o sul da Europa a vergar-se perante a sua vontade, caprichos e interesses, lidando com eles como se povos atrasados mentais fossem, ainda por cima governados por traidores e corruptos ( o que é a mais completa verdade), tentando convencer esses povos, de uma maneira quase subliminar de que o futuro deles só pode ser um, aquele que eles entendem. Só não se percebe, ou pelo menos difícil é de aceitar, que esses povos não se ergam, não tenham noção da sua importância e valor, não derrubem os seus governantes traidores e não mandem esta "Europa" dar uma volta. Perderam quase completamente a noção independência, de soberania, de moeda própria, de dignidade e de valor como povo. Aceitam depender dos outros como algo inevitável, aceitam a cobardia como uma virtude apatia como boa vontade, perda de soberania como progresso. Como puderam chegar a este ponto? Como podem aceitar as mentiras que lhes impingem? Já nem dignos sabem ser. É impossível esta Europa durar muito. Ergam-se antes de perderam a noção de quem são!
  • couto machado
    07 jul, 2017 porto 19:48
    Análise muito lúcida. Parabéns Doutor João Ferreira do Amaral....
  • MASQUEGRACINHA
    07 jul, 2017 TERRADOMEIO 18:05
    Muito bem visto. Realmente, um alemão "cidadão honorário" da Europa... dessa nem os Aliados se lembraram quando tentaram quebrar a Alemanha. Seria simplesmente estúpido, se não fosse (mais) um sinal da estratégia evidente que está a ser seguida pela Alemanha, no sentido da tal hegemonia pacífica - mais do mesmo, por outros meios, que só a hegemonia, o uber alles, realmente interessa. A aranha refaz sempre a sua teia, e vai dizendo "Entre! Entre!" à mosca, entre cerimónias preparatórias e poses de mater familiae, severa-mas-justa. E a mosca lá vai entrando. A França come os seus restos, mas são restos de mesa farta... Pena é que não se lembrem dessa do "cidadão honorário" europeu para ir distribuindo refugiados, em vez de subcontratarem a Turquia (a Turquia!) para depósito, ou pagarem para não ver a situação da Grécia e da Itália. Com a Alemanha a avançar desta maneira já descarada, ainda viveremos para assistir a coisas muito tristes - que os aparentes absurdos de hoje são sempre, amanhã, coisas tristes.
  • Rui Gonçalves
    07 jul, 2017 Braga 15:17
    Totalmente de acordo. Mais uma prova, de que esta Europa, não tem líderes à altura.Isto está bom é para os tolos!O pior é se sobra para nós!
  • P/joão silva
    07 jul, 2017 do r-q-t-parta 13:27
    "talvez possamos aumentar os salários sem limites como quer a CGTP, mas depois é preciso encontrar quem os pague." Este comentário é completamente ridículo. Não é a cgtp que quer o aumento dos salários, são os trabalhadores que já estão fartos de terem os salários congelados e de viverem na precariedade e com falta de dignidade, com os salários dos piores da europa. Tu deves ser um patrãozeco de mda que anda sempre a ver a culpa nos sindicatos, mas são os trabalhadores que se sentem e se queixem, sentem na pele o que é viver com esta moeda de mda e com esta miséria de salários. Muito tem sido desviado com as parcerias público privadas, pelos bancos e corruptos, mas ainda há bestas como tu que ainda vêm o mal de todos os males para quem deveria ter um aumento no salário de miséria que recebe. Vai-te catar noj--to! Os patrões fazem o que querem porque também têm a mamo do governo, até ainda recebem subsídios para empregar pessoas, por mim quem recorre a salários precários e a contratados deveria era de fechar as portas e ir trabalhar por conta de outrem nas mesmas condições. Agora se calhar terias outra forma de falar
  • João Silva
    07 jul, 2017 lx 08:01
    Estranho era Portugal ou a Grécia serem os donos da Europa. Estando, como estamos, dependentes do BCE para pagarmos as nossas contas é dificil perceber em que áreas podemos ser soberanos. Livres dos malditos constrangimentos europeus talvez possamos aumentar os salários sem limites como quer a CGTP, mas depois é preciso encontrar quem os pague.