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Opinião de Henrique Raposo
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​NEM ATEU, NEM FARISEU

Porque é que Deus permite este mal?

30 jun, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


Se Ele travasse a tragédia natural, suspenderia o movimento natural do mundo, suspenderia as leis da física, da química, da matemática – leis que dão o movimento e a própria vida ao mundo.

Pensar Pedrógão implica passar pelo terramoto. Aliás, pensar qualquer catástrofe implica passar por 1755. É que o terramoto de Lisboa também foi um terramoto no pensamento europeu.

A fractura na geografia e na população de Lisboa provocou uma fissura revolucionária na filosofia, sobretudo na questão do mal. Depois de 1755, Deus deixou de contar para a explicação do mal provocado por fenómenos naturais. Sim, Deus fez as leis físicas que tutelam o espaço e o tempo, mas Deus não quer um terramoto ou um incêndio a matar pessoas; Deus não moraliza a natureza; as catástrofes naturais não são castigos de Deus, e também não são divertimentos macabros de Lúcifer.

Este mal natural é amoral, não tem agência, não nasce de uma intenção, simplesmente acontece. É assim diferente do mal moral, que nasce de uma vontade humana consciente – um tufão que mata mil é amoral, um assassino que mata um é imoral. É por isso que nós conseguimos fazer uma distinção entre um massacre levado a cabo por homens armados e uma tragédia provocada pela natureza. Os franceses massacraram a população de Beja e Évora nas invasões, foi um acto humano, consciente, imoral, há um culpado. Meio século antes das invasões, o terramoto e o tsunami de Lisboa mataram milhares num acto natural e amoral.

Mas, mesmo com esta explicação, nós podemos reagir ao desespero com a pergunta inevitável: onde estás tu, Deus? Porque é que permites este mal? A resposta está num filósofo parodiado por Voltaire em “Cândido”, um dos livros pós-1755. Como recordou Leszek Kolakowski, a cultura ocidental, dominada pelo materialismo e ateísmo, passou a olhar para Leibniz através da caricatura de Voltaire (Pangloss), o que é desonesto. Ao contrário do que Voltaire dá a entender, Leibniz não é um optimista inconsciente. Mais: Leibniz não era um mero místico – o que não é um pormenor.

Muitos místicos e pensadores ditos cristãos acreditavam (e ainda acreditam) que Deus está sempre a actuar no espaço e no tempo, como se a natureza e o cosmos fossem eternos pátios onde Deus está sempre a brincar aos legos, tirando e pondo peças a cada momento. Confunde-se “omnipotência” com “capricho”. Não, Deus não pode alterar o passado, nem muda o cosmos a cada momento, porque isso significaria que o momento da Criação não tinha sido perfeito. Deus criou as leis do espaço e do tempo no momento perfeito da Criação; desde esse momento fundador em que foram accionadas pelo Criador, estas leis têm mantido o espaço e o tempo em movimento e dentro de um padrão de repetição e previsibilidade - o eterno retorno. É este padrão cíclico que permite à ciência descobrir parcelas dessas leis. Não há acaso, não há aleatório no mundo natural.

Ora, Deus não pode suspender essas leis só porque num dado momento elas podem provocar incêndios, terramotos, tufões – até porque esses acontecimentos sísmicos fazem parte da equação da natureza. Esse “mal natural” só é visto como “mal” porque nós habitamos espaços onde essas regularidades naturais acabam por rebentar. Basta pensar nas palavras que usamos. Se um vulcão expelir lava e matar gente com aquele mar vermelho, dizemos que é uma “catástrofe” e questionamos Deus. Se um vulcão expelir lava numa ilha desabita, dizemos que é um “espectáculo da natureza” e glorificamos a beleza da Criação.

É por isso que o argumento céptico (de Epicuro a Hume) não faz sentido. Hume argumentava desta forma: Ele, Deus, deseja evitar o mal, mas não é capaz? Então é impotente e não omnipotente. Ele é capaz, mas não quer? Então é masoquista e não misericordioso. A questão é que Deus não é omnipotente nesse sentido ditatorial e caprichoso; Ele não é um homem, muito menos um garoto, não muda de opinião a cada segundo. Se Ele travasse a tragédia natural, suspenderia o movimento natural do mundo, suspenderia as leis da física, da química, da matemática – leis que dão o movimento e a própria vida ao mundo. Deus suspender-se-ia a si mesmo se travasse o terramoto, a tempestade, o incêndio. Seria uma contradição em termos, seria o vazio, o vácuo, o nada. O que é preferível? Um mundo onde de vez em quando há tragédias naturais ou o vazio?

Além do mais, Ele nunca prometeu um mundo sem tragédias naturais e humanas. Ele nunca nos prometeu um mundo sem cheias, incêndios, terramotos, gulags, invasões, guerras. Aliás, se tivesse feito esta promessa, Ele não seria o Deus que preza a nossa liberdade num mundo em movimento, seria um tirano celestial anulando a nossa liberdade num mundo estático, sem movimento, sem tempo. Viveríamos não numa “fita de tempo”, mas num quadro estático. Ou seja, não viveríamos, seríamos tão inertes, naturais e amorais como cinza ou areia.

Comentários
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  • Pedro
    09 jul, 2017 Amora 12:27
    Sara: "Deus não tem de permitir ou não , o homem é que faz as suas escolhas , boas ou más" Não sabia que o homem escolhe os desastres naturais. :P
  • sara
    08 jul, 2017 lisboa 16:18
    É preciso desfaçatez para fazer esta pergunta ...Deus não tem de permitir ou não , o homem é que faz as suas escolhas , boas ou más...Deus permite as suas escolhas , A Vida é que não perdoa essas escolhas.. o homem merece a consequência das suas más ou boas opções...Como o homem é tão pequenino, não aceita e repele Deus nas suas vidas , mas não lhe repugna acusa-lo quando não gosta dos resultados....Deus está onde o aceitarem, por isso ninguém tem o direito de lhe imputar culpas...peçam informações a "quem", é o senhor do mal...não vendem todos os dias a alma a esse "quem"?...tudo é fácil com "ele"...não se pode agradar a dois senhores...ou se escolhe o bem , ou se escolhe o mal...cada um tem o que merece....que a consciência pese , porque os que morreram no incêndio , hoje são mártires , graças a quem tem a cobardia de pedir contas a Deus!!!!
  • Djêdje
    06 jul, 2017 Porto 12:30
    Por que Deus permite este mal? Pergunta pertinente cuja resposta é dada por Deus no seu livro sagrado a Bíblia.Este livro ímpar conta desde o principio o que há de ser o fim(deste sistema).Também é um livro histórico contando a verdade sobre o passado que interessa ás pessoas espirituais.Estas são definidas por pessoas humildes, modestas e com sede de saber estes assuntos que lhe darão sabedoria.Esta sabedoria não está disponível para as pessoas arrogantes, rebeldes e que desconsideram os assuntos espirituais. Sendo assim só pessoas com estas características acima citadas e que agradam muito ao Criador, conseguem entender e explicar estas perguntas pertinentes que a humanidade tem dificuldade em perceber. O que fazem médicos, engenheiros, políticos...enfim todo o tipo de técnicos, população em geral, quando pretendem saber algo sobre um assunto geral ou técnico? Pesquisam as fontes mais credíveis sobre o assunto.Quem são estas fontes credíveis?Bem a partida são aqueles que já deram provas de conhecerem bem estes assuntos...os especialistas na matéria. Então Jeová Deus é o Maior especialista que melhor fala de Si-a verdade.E a verdade sobre Deus, está escrita desde longa data na Bíblia, o seu livro sagrado. Respondendo então a esta pergunta recorremos a 2 textos, mas primeiro irei fazer uma breve introdução que serve de base para entendermos estes texto. Gênesis 3:1-6 mostra-nos a rebelião no Éden contra Deus.Aí foi questionada por Satanás a forma de Deus governar os humanos.
  • Miguel Botelho
    02 jul, 2017 Lisboa 13:13
    Muito bem, Mara. Dado que Henrique Raposo não explica neste seu artigo, é capaz de me explicar o que ocorreu no massacre de Évora e Beja, durante a ocupação francesa de 1808? Pelo que sei do seu comentário, os franceses andaram por todo o lado a cometer maldades. O que é que aconteceu em Évora e Beja? Quantos é que morreram? Onde estão os documentos que provam estes massacres? Obrigado.
  • António Costa
    02 jul, 2017 Cacém 03:43
    Acho positivo que o sr. Henrique Raposo ter começado a perceber(?), que ao contrário, do que escreveu no livro "Alentejo prometido", a "Alma Alentejana" sempre tem Memória. Memórias que passam de pais para filhos. Conforme referi no meu comentário, expressões "isso não é roupa de franceses", bem como as recordações violentas da ocupação francesa estavam bem presentes na "Alma Alentejana", passaram de "pais para filhos" (repito-me). Os Alentejanos também têm Memória! E infelizmente ocupação estrangeira é sempre ocupação estrangeira! E os abusos e massacres cometidos por forças de ocupação estrangeiras não se limitam às forças militares dos EUA na Guerra da Coreia (infelizmente!). Foram sempre uma constante ao longo de toda a História da Humanidade.
  • António Pimenta
    01 jul, 2017 Lisboa 19:54
    Depois de ter afirmado (mal) que Roger Corman era o autor da obra «The Mask of the Red Death», Henrique Raposo inventou agora um novo facto histórico: os massacres franceses em Beja e Évora. Posso até copiar a Vera e dizer: Bravo, Henrique Raposo, pela aldrabice! Só lhe falta o momento de glória, como o de Salvador Sobral, no espectáculo a favor das vítimas de Pedrógão Grande.
  • joaquim
    01 jul, 2017 Guimarães 19:15
    Caro, Henrique Raposo. Porque devemos acreditar que Deus foi o criador do universo? Faz algum sentido Deus ter criado a vida e depois sujeitá-la ao sofrimento? Um mundo criado por Deus jamais deveria infligir sofrimento algum. Porque não acreditarmos nesta ideia: O Deus bom criou um mundo espiritual e invisível aos olhos humanos. O universo criou-nos a nós e é tudo o que existe quando falámos da matéria, antimatéria, forças, tempo, espaço, etc... . Só nos libertaremos definitivamente de todo o tipo de sofrimento quando um dia nos libertarmos do nosso corpo material. Se pautarmos as nossas vidas por pensamentos e acões dignos e elevados, haverá algo em nós, não físico, que se libertará e passará a fazer parte do mundo invisível criado por Deus onde não há lugar ao sofrimento. Assim a pergunta "porque é que Deus permite este mal ?" , deixa de fazer sentido.
  • mara
    01 jul, 2017 Portugal 16:53
    Caro Dr. Raposo parabéns por mais um belíssimo artigo, lamento que o Senhor Miguel Botelho não saiba que também os franceses andaram pelo Alentejo, não a passear ou a curtir as suas lindas paisagens mas a fazer as mesmas maldades que nessa altura fizeram em todo o lado...Uma das provas que andaram por lá é o caso da Soror Mariana Alcaforado...
  • Vera
    01 jul, 2017 Palmela 09:42
    Bravo, Henrique Raposo!!!
  • Diferencial
    01 jul, 2017 Saldanha 01:26
    Bem elaborado, interessante, mas parcialmente incorreto/incompleto. Aceitando e partindo do princípio que Deus criou o universo e as suas leis e que estas são imutáveis, "Não há acaso, não há aleatório no mundo natural." continua a não ser de todo verdade, porque estes elementos são própria parte da lei que rege o universo que habitamos. Por conseguinte também não há tal coisa quanto um universo previsível porque vivemos num mundo de probabilidades e aleatoriedade. Sugiro a todos os interessados no assunto (incluindo o autor) a fazer uma breve pesquisa acerca do tema. Palavras chave: fisica quântica, incerteza, compatibilidade, cristianismo, implicações, relações, Deus.