O site da Renascença usa cookies. Ao prosseguir, concorda com o seu uso. Leia mais aqui.
|
Opinião de Henrique Raposo
A+ / A-
​NEM ATEU, NEM FARISEU

Como é que Deus permite isto?

23 jun, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


É uma pergunta errada. A questão é: como é que nós permitimos que o país chegasse a este ponto? A desgraça de Pedrógão tem culpados humanos, culpados portugueses.

A minha conversão foi lenta; foi uma daquelas corridas em que os atletas torcem o pé em obstáculos, valetas, pés alheios. Um dos maiores obstáculos foi (continua a ser) o problema da teodiceia, a complicada relação entre a bondade de Deus e a maldade do mundo.

Como é que se articula a evidente imperfeição da cidade dos homens com a ideia de um Deus misericordioso? Ou seja, como é que Deus permite desgraças como a de Pedrógão Grande? Se Deus nos ama, porque é que permite que uma família de quatro morra sufocada e queimada num Renault ou num Opel numa estrada à vinda da praia? Como é que Deus permite uma aflição assim? Como é que Deus permite que um pai veja o seu bebé morrer queimado? Como é que Deus permite que o corpo de um bebé se funda com o alcatrão? Como? É o drama de Job e Eclesiastes, dois dos grandes romances da Bíblia.

Durante muito tempo, permaneci no cepticismo que descartava Deus. Numa fase inicial, triste e pessimista, tive sempre na cabeça uma passagem de um filme de terror de Roger Corman (The Masque of the Red Death) usada por uma banda gótica famosa nos anos 90 (Theatre of Tragedy). Diz assim o Príncipe Prospero (Vincent Price) à ingénua Francesca: “If you believe you are gullible. Can you look around this world and believe in the goodness of god who rules it? Famine, Pestilence, War, Disease and Death. They rule this world (...) No. If a god of love and life ever did exist, he is long dead. Someone... something rules in his place”.

Com o passar dos anos, e perante a evidência empírica que é a presença do mal neste mundo, o meu cepticismo manteve-se, embora tenha evoluído. Estacionou na sofisticação analítica de Hume. Ele, Deus, deseja evitar o mal, mas não é capaz? Então é impotente e não omnipresente. Ele é capaz, mas não quer? Então é masoquista e não misericordioso. É difícil não ver a lógica deste argumento perante uma tragédia como Pedrógão.

Mas onde está a falha de Hume? Ela existe e descobri-la foi uma das chaves da minha conversão. A falha deste cepticismo está na liberdade. Hume labora ali apenas com duas variáveis (bem e mal) quase abstractas; o bem e o mal surgem como dois titãs que lutam entre si na atmosfera celestial; os homens são meros títeres sem autonomia. Ora, o amor de Deus mostra-se na forma como nos cria livres, para sermos livres, autónomos, com o livre arbítrio necessário para escolhermos (ou não) os seus ensinamentos presentes na história da Revelação. A partir do momento da criação, nós ficamos em liberdade, temos de agir sozinhos. Nós criamos os nossos filhos para que eles sejam livres e independentes, não é? O nosso amor por eles não deseja que eles fiquem para sempre debaixo da nossa asa, pois não? Deus faz a mesma coisa. Sucede que a liberdade tem um lado negro, o mal enquanto escolha humana, quer pela acção, quer pela inacção. Santo Agostinho dizia que gostava de roubar, ele tinha gosto naquele mal, ele escolhia o mal livre e conscientemente, porque lhe sabia bem.

Mas porque é que Ele, o Senhor, não nos impede de escolher o mal num dado momento? Se impedisse essa escolha de forma taxativa, se funcionasse como uma espécie de polícia do mundo, Ele não seria Deus mas sim um tirano, e nós deixaríamos de ser livres, seríamos meros carrinhos telecomandados, perderíamos a sua maior oferenda: o livre arbítrio, a grandeza mas também a tragédia do livre arbítrio.

Portanto, a pergunta “como é que Deus permite isto?” é uma pergunta errada. A questão é: como é que nós permitimos que o país chegasse a este ponto? Como é que nós, enquanto comunidade política, não fizemos nada nos últimos 50 anos para responder ao êxodo rural que começou quando o meu pai migrou para a Ribeira de Frielas no meio das cheias de 67? No sábado, como é que tantas autoridades e organismos falharam de forma tão clamorosa? E, já agora, porque é que cada um de nós não perde um fim-de-semana por ano a limpar os terrenos do avô lá da terra?

A desgraça de Pedrógão tem culpados humanos, culpados portugueses. No domingo, não reze apenas pelas vítimas, reze também por si, meu caro leitor, porque o mal começa em si, em mim, em nós, na incúria que não nos deixa agir e na cobardia que não nos deixa perguntar.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Carlos Ribeiro
    10 jul, 2017 Sobreda 13:42
    Que forma simplista e ingénua de olhar para uma divindade. Então Deus, cria o mundo e o Homem, cruza os braços e diz:filhos, agora é convosco. Eu sou infinitamente bondoso e na minha igualmente infinita misericórdia, observo impassível, aos crimes mais hediondos que se possa imaginar. Assassinatos, genocídios, violações de mulheres, crianças e até bebés. Guerras que não mais acabam. Fica então a divindade impassível perante o horror, o ódio sem limites, como um sádico que, sem amor no coração, espuma de prazer. Rejeito monstros desta natureza, divindades deste calibre, assassinos e genocidas cruéis. O amor vivo-o com o outro. Sem mediação. Pelo outro e por mim. Vivo-o também com a Natureza num paixão inabalável pela vida. Carlos Ribeiro
  • Aurelino M. Costa F.
    27 jun, 2017 Londrina - PR 13:51
    Ótimos artigos!
  • ALETO
    26 jun, 2017 Lisboa 23:06
    Sr. António Costa, não podemos desculpar os erros a uma pessoa tão arrogante como Henrique Raposo. Infelizmente, do alto da sua arrogância, teve a infelicidade de citar parte de uma obra de Edgar Allan Poe, como se tivesse sido escrita pelo cineasta Roger Corman. Ainda por cima, citou-a sem tradução para português, pensando que todos os leitores são como Henrique Raposo (bilíngue em inglês e português). Ao querer ser esperto, caiu por completo num erro que aqui foi descoberto. Só espero que Henrique Raposo tenha mais cuidado na próxima vez que tentar citar nomes e obras que diz conhecer.
  • António Costa
    26 jun, 2017 Cacém 14:17
    O cronista Henrique Raposo, foi autor do livro "Alentejo prometido". Li o livro e expliquei, num comentário anterior, porque o achei aberrante. Generalizar situações extremas (pobreza, analfabetismo e outras) comuns a muitas regiões do país, como quase "exclusivas do Alentejo" é errado. As crónicas não são boas ou más consoante a "camisola que se usa". Ignorar denúncias de situações graves, só porque a pessoa é "rotulada" de fascista, comunista, capitalista ou jihadista é coisa que me recuso a fazer.
  • Marco Visan
    26 jun, 2017 Lisboa 13:16
    Não, Sr. António Costa. Não concordo consigo. Os comentadores que criticam Henrique Raposo, pelo facto deste errar, não recorrem a «idiotices». Recorrem à verdade dos factos. Uma adaptação para cinema, não é o mesmo que prosa escrita e fidedigna. Henrique Raposo esqueceu-se disso e errou claramente. Infelizmente, o António Costa é daqueles que defende o cronista mesmo se este defender que faz chuva num dia em que o sol é radioso.
  • António Costa
    26 jun, 2017 Cacém 07:46
    Fiquei elucidado que o brilhante escritor do séc. XIX Edgar Allan Poe, tinha feito filmes nos anos 60 do séc. XX. É perfeitamente natural que livros tenham muito mais tarde servido de inspiração a filmes ou adaptados ao cinema. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O Henrique Raposo referiu-se ao "filme" e não ao "livro". Penso que discordar das pessoas é perfeitamente legitimo. Atacar crónicas recorrendo a idiotices, só mostra falta de nível e provoca o efeito oposto.
  • joaquim
    25 jun, 2017 Guimarães 22:24
    A existência de Deus não é uma certeza absoluta, pois nunca ninguém o viu. Pode ser apenas uma invenção da mente humana. Todos temos medo e somos seres muito frágeis; por isto, temos uma necessidade imperiosa de recorrer a algo ou alguém que nos é infinitamente superior para nos acudir num momento de grande aflição. Eu quero muito que Deus exista, e se Ele existir, só faz sentido que seja Bom, Misericordioso e Perfeito. O universo é um lugar muito violento onde não cabem estas três qualidades. Logo, Deus não pode ter sido o criador do universo. Existe no nosso planeta fenómenos naturais capazes de ceifar a vida a dezenas de milhares de seres humanos em poucas horas, fenómenos esses sem qualquer responsabilidade humana. O culpado e criminoso é Deus? Quando formos capazes de distinguir o Reino de Deus do reino da matéria (universo), então conheceremos verdadeiramente Deus, mesmo sem o vêr. Que bom seria.
  • António Pimenta
    25 jun, 2017 Torres Vedras 17:28
    Dos primeiros comentários que li acerca desta peça escrita, só li «brilhante». Henrique Raposo parecia ser um escritor soberbo, saído dos maiores talentos que já houve em Portugal. Depois li a crítica negativa e constatei o tremendo equívoco de Henrique Raposo em citar uma obra de um autor errado. Fez lembrar Cavaco Silva quando disse ter lido a «Utopia» de Thomas Mann. A tremenda falha de atribuir a obra «The Mask of the Red Death» a Roger Corman (e não a Edgar Allan Poe), constitui uma prova de incompetência do cronista. Para além de citar a passagem que refere sem tradução portuguesa, pior é aquilo que escreve, demonstrando uma vez mais o seu desnorte como cronista. Diz que «numa fase inicial, triste e pessimista» teve sempre na cabeça uma passagem de um filme[...] Que fase inicial foi esta? Porquê, triste e pessimista? Henrique Raposo pensa escrever bem, mas a prova escrita desta sua crónica, através deste parágrafo, é a de um desastre completo.
  • Vera
    24 jun, 2017 Palmela 23:05
    Os terrenos ardem com o calor, porque estão sujos: feno seco, papeis, sacos de plástico e outras porcarias que se juntam com o vento, provocam incêndios! Não é Deus, a quem compete limpar os terrenos!!! o homem suja a Natureza, tem que limpar... mesmo que fosse a trovoada que provocasse o incêndio, só se deu porque havia lixos! toda a vida se ouviu falar que a trovoada atrai às árvores, mas se cair um raio em cima de uma árvore, apaga logo de seguida! havia lixos, houve responsáveis! e morreram dezenas de pessoas! é triste! muito triste! mas é verdade.
  • mara
    24 jun, 2017 Portugal 16:29
    Caro Dr. lamento pessoas gostem tanto de atacar o vosso excelente artigo, que tão bem define o Homem perante essas tragédias, como bem diz Deus criou-nos deu-nos liberdade, nós criamos os nossos filhos libertam-se de nós, o poeta Libanês Khalil Gibran diz: "Os teus filhos não são teus filhos, são filhos da vida," à medida que nos libertamos das asas paternas podemos fazer ou não asneiras, e muitas dessas asneiras infelizmente atingem pessoas que nada têm a ver com elas, Deus deu-nos liberdade de fazer...que temos feito para bem da natureza que nos ofereceu? Destruição estragar o clima e tantas asneiras, seria bom que quem censura o Senhor meditasse no mal que nós homens andamos por aí a fazer...