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Opinião de Henrique Raposo
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NEM ATEU, NEM FARISEU

Vídeos, sexo e net: como educar duas filhas?

09 jun, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


Na rua, há anúncios explícitos de lojas de sexo; na tv, os anúncios de preservativos são cada vez mais gráficos, etc., etc. Neste contexto hipersexualizado, é difícil educar os jovens na ideia de que o sexo implica respeito pelo outro; sexo não é onanismo assistido.

“Num único mês (Janeiro), o Facebook teve de investigar cerca de 54 mil potenciais casos de pornografia de vingança (revenge porn) e extorsão sexual (sextortion)”. Divulgada pelo “The Guardian” de 22 de Maio, esta é a notícia que mais me assustou nos últimos tempos.

O terrorismo islamita é visível, mediático e, para o bem e para o mal, já o pensámos milhares de vezes. Ao invés, esta avalanche de vídeos caseiros e sexuais usados como chantagem sobre miúdas é silenciosa, subterrânea, não a debatemos como sociedade. Tenho duas filhas. Confesso o medo e a desorientação perante esta realidade nova: um rapaz na flor da idade e da idiotice pega num telemóvel e filma a intimidade sexual com a namorada, muitas vezes sem ela saber; depois usa aquelas imagens para se gabar junto dos amigos, qual Don Juan 2.0; mais tarde, usa aquele vídeo para fazer chantagem sobre a rapariga. Esta é uma realidade quotidiana que se repete milhares de vezes. E repare-se que os números que mencionei são referentes apenas ao tráfego do Facebook. Como é evidente, este porno de vingança não precisa de Facebook, só precisa de um mail, de uma SMS, de uma galeria de fotos e vídeos num mísero telemóvel.

Há uns dias, o “Correio da Manhã” divulgou um destes vídeos. A maioria das pessoas criticou o jornal. Eu percebo a crítica: aquilo foi divulgado apenas e só para criar tráfego e visualizações.

O caso porém teve o condão de nos mostrar uma pequena gota deste problema, que, na maioria dos casos, é silenciado por razões óbvias: ninguém quer colocar a própria filha abusada ou humilhada debaixo dos holofotes. Mas a verdade é que o tema tem de ser debatido, até porque me parece necessário repensarmos a educação sexual dos miúdos. A sua relação com o corpo tem de ser repensada. Não podemos nem queremos voltar à castidade que diabolizava o prazer, mas não podemos continuar no actual registo de banalização do corpo. Banalização, essa, que se vê em qualquer anúncio em qualquer altura e em qualquer lugar: televisão, jornais, net, anúncios na rua. O corpo (feminino e masculino) e o sexo tornaram-se banalidades desligadas de qualquer noção de amor ou respeito.

Na rua, há anúncios explícitos de lojas de sexo; na tv, os anúncios de preservativos são cada vez mais gráficos, etc., etc. Neste contexto hipersexualizado, é difícil educar os jovens na ideia de que o sexo implica respeito pelo outro; sexo não é onanismo assistido. Neste contexto cultural que faz tangentes às catacumbas do porno, é difícil ensinar os rapazes a respeitar o corpo das raparigas.

Não posso nem quero educar as minhas filhas como se estivéssemos em 1950, não posso nem quero educá-las na diabolização beata da sexualidade, mas também não quero educá-las nesta atitude libertária ou libertina. É um perigo demasiado grande na era da net e da captação de imagem a partir de qualquer geringonça. O código que ainda marcou a sexualidade da minha geração – What happens in Vegas stays in Vegas – já não se aplica. A privacidade tornou-se demasiado porosa. Onde é que está o equilíbrio entre o passado castrador o presente libertino? Não sei, aliás, ninguém sabe. É por isso que temos medo. Estamos moralmente desarmados perante a net.

Comentários
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  • Vera
    11 jun, 2017 Palmela 18:19
    Pois é! é complicado! talvez o Henrique Raposo, lhes fazendo companhia em passeatas aos fins de semana, levando-as a visitar o Mosteiro da Batalha, por exemplo e contando-lhes a história do Mosteiro, ou à praia do Castelo, onde só há dunas sol e mar, não há Net, e o telemóvel funciona mal com o barulho das ondas; pode arranjar uns papagaios de plástico que as pessoas perdem imenso tempo a fazê-los voar! ou jogar às cartas sentados em cima duma manta, levar um farnel e um rádio para ouvir a Renascença! aproveitem e dancem... depois está tudo cansado, quando acaba o passeio, chegam a casa e adormecem todos. Quando eu era rapariga, o meu pai pegava na tenda de campismo (tipo mochila, às costas) e cada uma de nós levávamos o que nos pertencia; a minha mãe ocupava-se dos pasteis de bacalhau; e o arroz de tomate sabia mesmo bem, frio e tudo! por lá, havia sempre onde comprar um melão, que o meu pai era perito em escolher! punha-se à beira-mar, dentro de uma covinha para refrescar! não tínhamos carro, como hoje! dávamos corda aos sapatos e fartávamos de andar... um chapéu de palha, uns calções,um rádio de pilhas e era uma festa! o meu pai tinha muito cuidado em montar a tenda afastada de outras tendas, onde haviam rapazes que tocavam guitarra! e mesmo assim arranjava uns pauzinhos e corda para vedar o terreno à volta da tenda! era o tempo dos Beatles,o meu pai tinha pouco cabelo e usava boné! atravessávamos de cacilheiro e depois íamos para a Caparica, no comboio. Invente! Henrique.
  • Vasco
    11 jun, 2017 Santarém 00:15
    O senhor HR fala e muito bem da preocupação com o futuro das suas filhas e quantos pais não se preocuparão com o futuro dos seus filhos? Infelizmente o mal é que estamos todos metidos dentro do mesmo barco que pelos vistos é de piratas e quando pensamos estar a transmitir uma boa educação aos nossos filhos mal eles saem à rua quando não é já em casa com a televisão ou internet, já eles estão debaixo de fogo porque há outros meninos e meninas com outro género de educação quando não são também adultos desde educadores, padres ou sacristães, pedófilos em que às tantas vemos as nossas crianças abusadas da pior forma por quem nós imaginávamos terem a responsabilidade de educar, agora temos ainda a acrescentar a tudo isto a promoção da homossexualidade como sendo um produto natural que faz bem à saúde e à mentalidade de cada um e haja alguém que arrisque a pôr isto em causa logo temos o BE com a restante orquestra de esquerda na AR a reclamar os direitos à igualdade ou diferença de género como eles lhes chamam; qualquer dia temos para aí algum daqueles tipo de extra-terrestres que por aí andam com arganéis no nariz e outras decorações no corpo a reclamar que é um suíno e logo lá estarão estes partidos a dizer que sim senhor tem o direito à diferença de género e de raça.
  • João Lopes
    09 jun, 2017 Viseu 13:15
    Artigo corajoso que devia fazer pensar a muita gente responsável: políticos, educadores, pais e mães... É verdade: «O corpo (feminino e masculino) e o sexo tornaram-se banalidades desligadas de qualquer noção de amor ou respeito».
  • mara
    09 jun, 2017 Portugal 09:09
    Mais um excelente artigo, estamos a viver num Mundo onde se perderam todos os valores, recordo quando tinha dezoito anos numa pastelaria em Lisboa entrou uma rapariga com uma mini -saia muito ousada e no meu grupo um rapaz ficou de olhos arregalados e disse um disparate, um outro respondeu: Prefiro ter que me esforçar respeitosamente para comtemplar a elegância duma rapariga a vê-la oferecida a todos sem vergonha...E agora é um horror, para onde caminha o Mundo? Para a perdição total, porque todos os valores se estão a perder...