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Opinião de Henrique Raposo
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​NEM ATEU, NEM FARISEU

Como falar do terror às crianças?

26 mai, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


Não sei qual é o caminho correcto, mas vejo pelo menos dois caminhos errados. O primeiro erro é evitar a questão e o segundo é transformar esta realidade dantesca numa peça de ficção.

A partir do momento em que o islamismo ataca crianças num concerto pop, a pergunta deixa de ser teórica e passa a ser uma inevitabilidade: os nossos filhos já colocaram, estão a colocar ou colocar-nos-ão perguntas sobre o terror, que no fundo são questões sobre a natureza do mal. Como responder?

Não sei qual é o caminho correcto, mas vejo pelo menos dois caminhos errados. O primeiro erro é evitar a questão, é fingir que este mal concreto (islamismo radical) não existe no mundo, é transformar esta realidade dantesca numa peça de ficção, é dizer que aquelas reportagens da Sky News não são diferentes de um filme, é fingir que este mal real tem a espessura moral de um vilão Marvel.

O segundo caminho errado passa por dar respostas xaroposas que proclamam a inevitável vitória do bem sobre o mal, como se este radicalismo pudesse ser derrotado apenas com vigílias, cantorias, manifs, hashtags ou posts lacrimejantes. O bem, a luz, a esperança existem de facto, mas existem em acções concretas, em discursos concretos que iluminam com coragem o problema real. A luz não é para apontar ao calhas, é para apontar ao problema. O discurso fofinho e empoleirado nesta bondade abstracta e sempre vitoriosa iliba-nos do confronto pessoal e directo com o mal aqui e agora. Se o bem ganha sempre, então porque é que me vou maçar com acções e palavras concretas? Este caminho não é uma negação com o primeiro, mas é uma fuga.

Estes dois caminhos mantêm o bem e o mal ao nível do conto de fadas, que é um nível com bastante saída hoje em dia, diga-se. É o nível dos pais que recusam levar o filho de 15 anos a um funeral, “porque é muito pesado, coitadinho”; é o nível dos pais que não levam o filho a ver o avô no lar, “porque cheira a doença”; é o nível dos pais que nunca confrontam os filhos com a doença, com a morte e com os seus próprios pecados. E uma criança ou jovem que chega aos 15/20 anos sem nunca ter sido confrontado com o mal do mundo e sobretudo com o mal que carrega dentro de si será inevitavelmente um adulto com a espessura moral de uma personagem de filme de sábado à tarde.

A partir daqui, tenho dúvidas. Como é que se explica o terrorismo suicida a uma criança? Se é difícil conversar com adultos sobre o suicídio, como é que se explica a crianças um suicida que ainda por cima é terrorista? Parece-me impossível.

Assim talvez seja boa ideia começarmos a inevitável conversa pela ideia de Guerra, que é mais digerível do que a ideia de Terrorismo. Se pensarmos no mal como um funil subterrâneo com vários níveis de profundidade e gravidade (Dante), um soldado em guerra com outros soldados é alguém que habita os níveis superficiais desse inferno e até pode aparecer no purgatório; é portanto um início de conversa. Já o terrorista suicida que mata meninas num concerto não tem hipótese, está mesmo no centro profundo e gelado do inferno.

É conversa para outra altura, porque não é possível responder à pergunta que as crianças fazem: “porquê?”. “Porque é que eles fazem aquilo?”. Apesar de ser delicado, é possível explicar-lhes o porquê de uma guerra, até porque há batalhas nas fábulas e filmes infantis. O mesmo não se aplica ao porquê do terrorismo islamita. “Porque é que eles fazem isto?” Porque não gostam de nós. “Mas porque é que não gostam de nós?”, etc.

O terrorismo islamita e suicida representa um vórtice sem fim de porquês que só podem ser respondidos com uma linguagem que uma criança não compreende. Ainda bem.

Comentários
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  • niño
    29 mai, 2017 Serpa 11:23
    Este senhor não foi criança... Tenho pena por lhe terem pintado um mundo cor de rosa e lhe não mostrarem o terrorismo do ocidente. Com isto não quero dizer que gosto dos terroristas, de quaisquer deles.
  • mara
    27 mai, 2017 Portugal 18:20
    Caro Dr. gostei do artigo, desde os cinco meses convivo com a doença, a morte, a inveja, a humilhação, quando ouço noticias de crianças que devido a uns açoites quando se portam mal, cai o Carmo e a Trindade questiono-me: como consegui chegar aqui com tantos desgostos que vivi, e porque punha heranças em perigo tão caluniada que fui, e tantas tareias e castigos que sofri? Apenas encontro uma resposta: a Fé que me foi transmitida por três Queridas, que infelizmente duas muito cedo me deixaram o que deu origem ao drama da minha vida, que Deus meta Juízo na cabeça destes homens e nos dê a Paz.
  • Vera
    26 mai, 2017 Palmela 22:11
    Henrique Raposo, não pense que as crianças são parvas, porque não são! uma criança pode ignorar o que está à sua volta, mais ou menos até aos cinco anos, mas a partir daí uma criança apercebe-se da maldade do Mundo! eles sabem muito bem que um homem que mata não é boa pessoa! eles sabem muito bem que o que não é verdade na televisão, são apenas os desenhos animados: o 'Dragon ball', por exemplo, não sai da televisão para bater em ninguém num concerto de música, do Jorge Palma "encosta-te a mim..." imagine! você às vezes diz coisas, fora de série! - O que é um terrorista? A professora explica: - É uma pessoa que causa terror! - E o que é o terror? - O terror é o medo! E não é preciso explicar mais nada... Noutros tempos, as professoras é que eram terroristas! não falavam com as crianças! e quando abriam a boca, era um berreiro, que estremecia tudo. Hoje as crianças ensinam os pais! isso sim...
  • Alzira Cruz
    26 mai, 2017 Porto 19:10
    Um texto tão bonito como este só deve ter sido inspiração de Nossa Senhora de Fátima. Gostei tanto que agora não perco mais nenhum texto do Dr. Henrique. Que Deus, nosso senhor, abençoe o Dr. Raposo por muitos, muitos anos.
  • M.Amélia Pinto Lopes
    26 mai, 2017 lisboa 12:29
    Uma óptima iniciativa, oportuna, educativa, tranquilizante.....Obrigada .Partilhei. É Missão a acontecer.
  • João Lopes
    26 mai, 2017 Viseu 11:00
    Excelente artigo. Concordo: «O bem, a luz, a esperança existem de facto, mas existem em acções concretas, em discursos concretos que iluminam com coragem o problema real».
  • António Costa
    26 mai, 2017 Cacém 09:44
    "...uma criança ou jovem que chega aos 15/20 anos sem nunca ter sido confrontado com o mal do mundo..." ?!?! Desculpe, mas o Henrique Raposo vive em que "planeta"? Depende só das pessoas e das "ideias das pessoas" com que os miúdos são criados. Só e apenas disso. O mundo nunca foi "um mar de rosas" e sempre existiram crianças. As nossas crianças não tem de lidar (ainda!) com o drama dos atentados quase diários que os "aliados" e "grandes amigos" do Ocidente patrocinam. Isto, evidentemente, às custas dos ganhos astronómicos que o petróleo permite.
  • Marco Visan
    26 mai, 2017 Lisboa 08:30
    É caso para concluir que o terrorismo islamita e suicida representa um vórtice sem fim de porquês que só podem ser respondidos com uma linguagem que Henrique Raposo não compreende. Ainda bem.