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Opinião de Manuel Pinto
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Más notícias, boas notícias e mudança de lentes

22 mai, 2017 • Opinião de Manuel Pinto


Experiências mostram que prestamos mais atenção a um desastre do que a um gesto bonito.Mas o que é uma notícia positiva?

A mensagem do Papa para o 51º Dia Mundial das Comunicações Sociais, a evocar no próximo domingo, levanta uma questão interessante: como fazer frente às “más notícias” dos media e dar espaço e atenção às “boas notícias”?

A interrogação vai de encontro a um discurso que, volta e meia, anda nas bocas do mundo: existe uma tendência no jornalismo para exagerar o que é negativo e para subestimar o que é positivo. E a tendência agrava-se em tempos de crise económica, de relativismo de valores e de ausência de referenciais éticos.

Como tentativa de resposta têm surgido iniciativas de criação de projectos jornalísticos que pretendem distinguir-se por dar “boas notícias”: soluções inovadoras, prémios e vitórias, receitas e iniciativas saudáveis, etc. Mas porque é que esses projectos não se tornam eles próprios casos de sucesso?

A resposta não é fácil. Mas lembra-me sempre a contradição que surge com frequência a quem estuda as audiências de televisão: se se pergunta o que as pessoas gostam de ver, a resposta é, digamos, documentários, programas culturais, informação. Mas os dados do audímetro apontam em sentido bem diverso: telenovelas e entretenimento. Experiências de “eyetracking” (monitorização do movimento dos olhos) perante ecrãs de notícias mostram que prestamos mais atenção a um desastre ou um escândalo do que a um gesto bonito.

Por conseguinte, pode perguntar-se: se os jornalistas nos ‘pintam o mundo’ e se a pintura tem com frequência cores negras, onde reside o problema? No mundo retratado, nos pintores ou nos apreciadores das pinturas?

Quando há notícias de carga negativa, elas não podem evidentemente ser sonegadas. Assim como o contrário. Mas cabe perguntar: o que é uma notícia positiva? É necessariamente “flores e passarinhos a voar”? E porque não os conflitos e tensões que revelam resistência aos males do mundo? E as que denunciam o (e resistem ao) achincalhamento das pessoas e das situações?

Neste contexto, a mensagem do Papa Francisco merece leitura atenta, porque não cai na armadilha do simplismo. “Não se trata, naturalmente – nota ela - de promover desinformação onde seja ignorado o drama do sofrimento, nem de cair num otimismo ingénuo que não se deixe tocar pelo escândalo do mal”.

E lança uma pista, que desenvolve, em registo evangélico: “a realidade não tem um significado unívoco. Tudo depende do olhar com que a enxergamos, dos ‘óculos’ que decidimos pôr para a ver: mudando as lentes, também a realidade aparece diversa.”

Comentários
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  • MASQUEGRACINHA
    23 mai, 2017 TERRADOMEIO 16:46
    É o público quem faz o artista, como dizem com voz embargada pela gratidão os cantores muito, muito populares? São os comentadores de artigos de opinião uma medida de aferição da atenção suscitada por determinado articulista? Como escreveu FSC há bem pouco tempo, ter comentadores, mesmo algo agressivos, é bom sinal, é sinal de que tem leitores... Ou seja: não há má publicidade, desde que despertemos a atenção, nem que seja fomentando baixa polémica, ou insultando o leitor. É, de facto, o público quem faz o artista. ANTÓNIO COSTA : No caso de HR, deixei de ter inteligência disponível, e incluí-o na minha curta e selecta lista dos intragáveis. Deixei de o ler, como escrevi, logo deixando de contribuir para a publicidade. Não me deixou saudades, nem pelo conteúdo, nem pelo estilo. Embora continue a ler FSC, também deixei de o comentar, uma vez que o meu último comentário não foi publicado, apesar de estritamente dentro dos Termos e Condições, e eu não gosto de participar em jogos com regras flutuantes. Curiosamente, ou talvez não, referia nesse comentário a frequente coincidência de temas com HR... Está-se sempre a tropeçar em HR, parece. Veremos se publicam este comentário, que os desígnios do Mediador são isso mesmo, do Mediador.
  • António Costa
    22 mai, 2017 Cacém 23:59
    Li o seu artigo. Li também o comentário do MASQUEGRACINHA, Terradomeio. Noticias e "Boas Noticias"...A "Boa Noticia" é a da Salvação. É uma "Boa Noticia". Uma "Noticia Muito Forte". Mas no "dia-a-dia" temos a narração de "ocorrências", de acontecimentos, de coisas que aconteceram boas ou más, e a que damos o nome de "Noticias". Mas a "Boa Noticia", a "Boa Nova" é algo muito forte e radicalmente diferente das outras noticias. (2) As lentes ou os óculos com que vemos "as realidades". O conjunto de todas as realidades, vistas com os respetivos óculos são no fundo Apenas Uma. Uma mesma realidade, vista de muitas maneiras diferentes. Só de diferentes ângulos, em diferentes situações desde o "inicio" até ao "fim". Só compreendemos Verdadeiramente o que nos rodeia, quando o observamos com diferentes "óculos". Só assim, a "realidade" aparece "completa" nas suas múltiplas "formas". A "realidade terrestre" vista por "olhos" humanos, por exemplo. Para o MASQUEGRACINHA: Gostei do seu último comentário ao H.R. Penso que sabe qual foi.
  • MASQUEGRACINHA
    22 mai, 2017 TERRADOMEIO 16:47
    Boa análise, para o espaço disponível. Parece-me também que os média, tanto o jornalismo como o entretenimento, demoram a fazer as pazes com a diversidade de espectadores - uma diversidade que se sedimentou em definitivo. Um fenómeno sociológico, de causa-efeito circular, dir-se-ia : dá-se ao público o que este quer, e o público quer o que lhe vão dando. Argumentação, aliás, bem conhecida dos que dão ao público sangue, lágrimas, alcovitices, bola e fast-fama - e não deixam de ter bastante razão, não é verdade? Já A. Maslow dizia qualquer coisa no sentido de que quem experimenta charutos cubanos, passa a preferi-los aos mata-ratos que apreciara a vida inteira... Isto para dizer que só a educação, em sentido forte, nos salvará, a nós e ao jornalismo e ao entretenimento, da alegre miséria reinante, não a fazendo desaparecer de todo (é a diversidade...), mas tornando-a, digamos, mais selecta, só para pobres de espírito mesmo. Como diz o povo, o bom sai caro, e com o dinheiro que as misérias vão dando (como sempre), e a falta de anunciantes a suportar o bom, o problema é deveras bicudo... Agradeço ter-nos trazido as palavras do Papa Francisco, cuja simplicidade, definitivamente, não lhe atinge o espírito. Boa gente devia aceder ao link que disponibilizou, mormente alguns opinadores que, volta e meia, regressam ao que apodam de "relativismos", zurzindo-os como pecado digno auto-de-fé. Por que será? Gosto muito de constatar que alguém ouve, percebe e dissemina as palavras do Papa.