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Sinta Macau ao Seu Estilo numa visita guiada pela Miriam Gonçalves


Acompanhe as reportagens da Miriam e descubra um território rico em tradições religiosas

Em ano de celebrações, descubra como a mensagem de Fátima é vivida no Oriente.

Em Macau, por estes dias, também se comemora o Centenário das Aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos e a Renascença está em Macau para testemunhar a forma única como estas celebrações estão a ser vividas no território.

De 15 a 19 de Maio, acompanhe as reportagens da Miriam Gonçalves. Oiça, na Manhã da Renascença, um relato das tradições macaenses no culto a Nossa Senhora.

São várias as tradições que se assinalam no território, sendo a Procissão de Nossa Senhora de Fátima, que acontece todos os dias 13 de Maio, a procissão anual que reúne o maior número de crentes em Macau. Mas há muito mais para descobrir!

Em Macau, há séculos que várias religiões e costumes convivem. São heranças vividas em rituais, sentidas pela cultura, pelos sabores e marcadas nas fachadas dos edifícios.

Este destino, que tanto fascínio desperta, junta as manifestações culturais de Portugal e do Oriente e é o cenário ideal para uma viagem de sonho.

De 15 a 19 de Maio, acompanhe as reportagens da Miriam Gonçalves na Manhã da Renascença, aqui no site e também no facebook da sua rádio e “Sinta Macau ao Seu Estilo”.


Miriam em Macau - Dia 5

Antes de vir para Macau andei a fazer trabalho de casa e a ler artigos para quando chegasse cá já soubesse alguma coisa, Na minha pesquisa, dei com um blogue de viagens que dava 10 motivos para visitar Macau. Não se esquecia do Templo de A-Má, nem das ruínas de São Paulo e até fazia uma referência simpática à calçada portuguesa. E depois terminava a dizer que 1 dia bastava para ver Macau. Pobre rapaz. Não sabe ele que Macau lhe passou ao lado.

Dediquei o meu último dia aos templos. Já vimos as igrejas portuguesas, por isso, chegou a vez de entender a espiritualidade chinesa que é tão diferente da nossa, mas que, em Macau, está mesmo ali ao lado.

A primeira coisa em que reparei quando saí pela primeira vez sozinha em Macau, logo depois do jantar no primeiro dia, foi nos altares de rua que estavam à porta de cada prédio, de cada restaurante, de cada loja. No fundo, cada porta tem um altar. Neles vemos cinzas de incenso e de papel e alguns têm tacinhas com arroz. E não é para dar de comida aos cães de rua, até porque em Macau não há cães de rua. São ofertas para os deuses, neste caso ao deus da terra. Em casa também têm altares, mas costumam ser ao deus do fogo ou deus da cozinha, para que não falte a comida nem com o quê cozinhar.

Precisaria de várias páginas só para falar deste tema, mas com a ajuda do Dr. Shivá vai ser mais fácil até porque filmei, gravei e só tenho pena de não ter estado a gravar o tempo todo para tentar guardar a imensidade de coisas que aprendi com ele.

O Dr. Shivá é médico gastroenterologista, trabalhou no hospital Pulido Valente, em Lisboa, até se reformar e ser convidado para ir trabalhar para o hospital de Macau. Filho de chineses, viveu sempre em Moçambique e depois do 25 de Abril em Portugal. Só agora foi viver mais perto das origens da sua família. Fala muito bem cantonês, claro, e sempre se interessou pela espiritualidade dos pais e dos seus antepassados, por isso gostou da ideia de vir viver para Macau. Sorte a minha que tive uma bela visita aos templos.

E sorte a sua, pois partilho tudo consigo! Começamos pelo início. Onde começou Macau:

Entre no templo e conheça as tradições espirituais chinesas- Dia 5 em Macau, a crónica de Miram Gonçalves

“Desejo que tu enriqueças!” Belo desejo!

Peço desculpa por este vídeo filmado de forma um pouco amadora, mas, com tantas coisas, eu não sabia para onde olhar, queria que a câmara apanhasse tudo, incluindo o Dr. Shivá, e queria que o microfone apanhasse bem a voz… Só tenho duas mãos e foi tudo um pouco complicado. Desculpe os saltos, mas acho que mesmo assim vale a pena.

Este vídeo foi feito maioritariamente no Templo de A-Má, mas também mostrei algumas coisas que há no Templo de Kun Iam que, ao contrário do de Á-Má que é nos socalcos, é num terreno plano, numa rua movimentada de Macau. Assim que transponho as portas há dois enormes guardiões do templo de cada lado. O cheiro a incenso é impressionante. Que pena isso não lhe conseguir mostrar. Vamos ao templo de Kun Iam?

Neste templo há capelas dedicadas aos antepassados, que são muito importantes para os chineses. Já ouviu com certeza dizer que os chineses não querem nada com a morte, nem com o número quatro, cujo significado é a morte. Sim, eles são supersticiosos, mas é mais do que isso. Aprendi que querer, por exemplo, levar um chinês ao cemitério chinês para entender como eles vêem a morte seria difícil. Não sei se por isso ou não, fui ver o cemitério antes de ir ter com o Dr. Shivá e fui com o meu guia, o Alorino, que nasceu em Damão e vive em Macau há 35 anos. Ora bem, primeira coisa a reter sobre isto: para os chineses a morte é tão importante como a vida.

Encerrar Macau em cinco dias é muito pouco. Pensar que estive em Macau cinco dias e passei, talvez, 10 minutos a visitar um Casino, o “Venetian”- que por sinal vale a pena conhecer. Era preciso outro roteiro só para apreciar casinos. Eram precisos mais cinco dias. E quando digo apreciar é apreciar. Vê-los como as obras de arte que são. De regresso a Portugal perguntam-se fui a vários sítios e respondo tristemente que não, e percebo que tenho mesmo de voltar.

Sei que nos próximos dias vou sentir saudades e vou voltar a ver os vídeos e as fotografias outra vez. Sei também que hei-de ir à gaveta da cozinha, onde acho que tenho o incenso, procurá-lo e acendê-lo… só para me sentir mais perto de lá. Sei que vou tentar pegar num livro de receitas macaenses escrito pelo Carlos Cabral e tentar fazê-las. Sei que vou passar a cozer o arroz com uma flor de anis para deixar aquele gostinho.

Curiosidades:

  • Quase não há vivendas ou casas térreas em Macau. Há pouco espaço e quase toda a gente mora num apartamento num prédio altíssimo. Como há pouco espaço há que fechar as varandas, como nós cá fazemos com as marquises, mas lá não fecham as varandas com portas com vidros, mas com grades. O ar passa sempre, e tenho cá para mim que é assim para secar a roupa e impedir que o vento a leve. Na China levam a máxima do “tempo é dinheiro” muito a peito e por isso a roupa não é estendida em cordas com molas, mas sim pendurada em cabides poisados em canas de bambu. Assim a roupa seca direitinha e não se perde tempo a passá-la a ferro. Bela ideia não é?
  • Os casinos têm de ter apontamentos portugueses. Por exemplo o MGM, que tem um leão enorme e dourado à porta, lá dentro tem uma estação do Rossio.
  • Nas fotografias (que pode ver em baixo) há um muro em ziguezague cheio de gravuras com a história de Macau. É uma cauda de um dragão. A cabeça é o Casino Grand Lisboa que está mesmo à direita da ponte na fotografia. O corpo estaria dentro de água.
  • As ruas têm sempre o nome escrito em chinês e em português, mas pode não querer dizer a mesma coisa
  • A fotografia numa praia com pedras foi tirada na ilha de Coloane e a terra que vê do lado de lá do rio é a China. A China é sempre já ali. O edifício enorme à esquerda vai ser um hotel com 888 quartos. O 8 é o numero da fortuna, toda a gente o quer, até nas matrículas que são leiloadas.
  • No Jardim de Camões, mesmo ao lado da Fundação Oriente, para além de ter o busto do poeta, tem imensas calçadas bonitas. É lá que as mulheres vão fazer ginástica e os homens se sentam à entrada do jardim, com os seus passarinhos nas gaiolas, ou lá dentro, a jogar "mahjong", dominó ou cartas chinesas.

Durante 5 dias vivi Macau, respirei Macau, sonhei Macau, senti Macau. Espero que através da minha visita também tenha conseguido sentir um bocadinho e que tenha valido a pena.


Miriam em Macau - Dia 4

Falar da presença portuguesa em Macau vai além da História de marinheiros e mercadores e vai além da arquitectura presente nas casas e na religião tão marcada pelas igrejas. A presença portuguesa em Macau são as pessoas. Os macaenses e portugueses que vivem no território e que fazem tudo por manter vivas as tradições deste sítio. A administração portuguesa já terminou há quase 20 anos, e o que é certo, é que ainda ouvimos português quando passeamos no centro e ainda há aulas de português no Instituto Português no Oriente que esgotam.

Mas há mais Portugal à solta, há Portugal na comida! Só podia! E em quase todas as ruas encontramos lojas onde vendem uma espécie de pastéis de nata. Lá chamam-se “Egg Tart”.

Em Macau não faltam restaurantes portugueses e foi no restaurante “Belos Tempos” que encontrei a Ana Manhão Sou. A Ana é a dona do restaurante e é uma macaense super bem-disposta que serve comida portuguesa com um “toque” especial para que também os chineses gostem. É que os chineses não gostam nem de coisas tão doces, nem tão salgadas como nós. Mas a Ana não mostra Portugal e a sua cultura apenas na cozinha. Ela criou o Rancho Folclórico “Macau no Coração”.

Mal soube disto pedi-lhe logo para ir aos ensaios! E fui. Perdão, fomos. Sim, porque eu não só espreitei como filmei, para que também possa ir ao ensaio vê-los a dançar e conhecer o fabuloso acordeonista mongol, Cai Siu U, (que encontraram através de um anúncio na internet) que toca e canta o “Malhão Malhão” como ninguém.

Em Macau também se canta e dança o "Malhão Malhão" - Dia 4 em Macau, a crónica de Miriam Gonçalves

Reparou que o Cai Siu U termina a cantar “água do Liláu”? O Liláu é uma fonte onde, segundo a lenda, quem beber dela volta a Macau.

A Ana Manhão para além de ser a mentora do Rancho Folclórico de Macau, e a única que não dança nem toca, também ensina os mais jovens a cozinhar comida portuguesa e macaense. Mas só a quem se mostrar digno disso. Como saber se a pessoa é digna? Ela tem um teste infalível e é uma das coisas que revela aqui:

Eu tentei passar no teste da Ana e fui ao Mercado de São Domingos. Não tem nada, rigorosamente nada a ver com os nossos. É toda uma experiência que vale a pena, mas que consigo entender que não seja para toda a gente. Vou só dizer, e para não entrar em pormenores, que os peixes estão ainda vivos quando estão nas bancas... e não os levamos vivos para casa.

A comida macaense é maravilhosa. Uma experiência obrigatória porque é, no fundo, uma cozinha de fusão (que está tão na moda hoje em dia) com mais de 500 anos. Junta o melhor dos dois mundos: a comida portuguesa e a chinesa.

Arroz Chao Chao de bacalhau, minchi (uma mistura de carne frita com sabores orientais) e galinha africana são alguns dos pratos que pode experimentar em Macau.

Mas melhor que escrever é sempre ouvir. E fui ter com quem sabe: Luís Machado, o Presidente da Confraria da Gastronomia Macaense.

Claro que os chineses procuram a comida macaense. Tanto que todos os restaurantes portugueses onde fui tinham mais chineses que portugueses ou macaenses, até n´“O Santos” (o restaurante associado ao Benfica) no dia em que o Benfica ganhou o campeonato.

Curiosidades:

  • Em Macau não existe a casa do Benfica, do Sporting ou do Porto, mas existem restaurantes que fazem muito bem esse papel.
  • A Torre de Macau foi construída em 2001 e hoje em dia é um dos maiores símbolos de Macau. Tem centro de congressos, centro comercial, restaurantes, incluindo um rotativo, mesmo lá em cima. A vista mais maravilhosa que se pode ter sobre Macau. É um almoçar a 360 graus. Com um buffet fabuloso em que uma pessoa fica confusa e não sabe se há-de perder horas a olhar a vista, se a comer! Vê-se Macau, as 3 pontes que vão para a Taipa e aí vê-se bem o quanto estamos rodeados pela China. A Torre de Macau tem 338 metros e tem o segundo maior Bungee Jumping do mundo.
  • A China ofereceu a Macau dois Pandas que fazem as delicias, principalmente dos chineses que são mesmo fãs desde animal. São um casal muito simpático que já tem crias, mas os pequenotes só saem ao domingo. Custa menos um euro vê-los e ainda podemos ver macacos, araras e Pandas Vermelhos que são o animal mais fofo do mundo. (Pode confirmar esta minha afirmação na fotografia meia desfocada que consegui tirar, que eles não param quietos)
  • Em Macau há zonas em que há joalharias porta sim, porta sim! Quem ganha dinheiro no casino pode logo investir em ouro.

Miriam em Macau - Dia 3

Macau era uma península com mais duas ilhas: Taipa e Coloane. Digo era porque as coisas mudaram nos últimos anos (eu explico mais em baixo, nas curiosidades).

É na ilha da Taipa que vou ter com o professor Jorge Cavalheiro. Ele mora no Campus Universitário onde ainda é professor, reforma-se este ano. Um homem alto, magro, com uma enorme barba grisalha. Cumprimentamo-nos e arrancamos logo com o objectivo de chegar ao pé da estátua do navegador Jorge Álvares que é o responsável pela descoberta da China. Pelo caminho percebo logo umas quantas coisas: o professor não tem nem telemóvel nem telefone, lê por volta de 4 livros ao mesmo tempo e quando lhe pergunto (tolamente) qual é a área da História em que é especialista reponde-me que essa ideia de compartimentar o Saber há-de ser, em breve, ultrapassada porque não se pode entender uma época sem entender a outra. E isso verifica-se não só na História como na Biologia ou Matemática… está tudo ligado. Percebo rápido, muito rápido, que posso fazer-lhe as perguntas todas que quiser que vou ter respostas. E com as datas certas.

Com o professor tentei entender como é que estas duas culturas tão diferentes, a chinesa e a portuguesa, se deram sempre tão bem. E para isso temos de recuar uns anos. A cidade de Macau tinha uma muralha para se proteger, sobretudo, das invasões dos piratas. Era apenas uma porque as autoridades chinesas achavam que não havia necessidade de muralhar mais a cidade. Acharam isto até Macau ser invadido pelos holandeses. Então, para se protegerem de povos invasores, em 1622 completou-se a muralha sul e construíram-se alguns fortes e fortins que protegessem o porto exterior.

Dentro das muralhas existiam duas cidades. A cidade chinesa, chamada “bazar”, e a cidade portuguesa ou cristã. Essas cidades tinham uma arquitectura totalmente diferente de casas e locais de culto - igrejas na parte portuguesa e os templos na parte chinesa. Esta divisão era feita não por muralhas físicas, mas pela barreira da língua e da cultura. No entanto, essa barreira foi-se esbatendo e hoje em dia conseguimos encontrar, por exemplo, um templo mesmo ao lado das ruínas de São Paulo.

O melhor mesmo é ouvir o Professor Jorge Cavalheiro:

Hoje em dia, na parte cristã, encontramos altares de rua porque os chineses começaram a viver na parte cristã e vice-versa. A conversa soube a pouco, felizmente não ficou por aqui porque o Professor Jorge convidou-me para “ir ali ver um Templo muito interessante”. Ainda lhe vou contar mais sobre os templos, mas, por agora, não resisto. Vamos? É o templo budista de Lin Fong construído em 1592:

Visita ao templo budista Lin Fong - Dia 3 em Macau, a crónica de Miriam Gonçalves

Curiosidades:

- Macau era uma península com mais duas ilhas: Taipa e Coloane. À semelhança do que aconteceu na Holanda, aqui está-se constantemente a ganhar terra ao mar e já não há separação entre as duas ilhas. À terra que acrescentaram entre a Taipa e Coloane chamaram-lhe Cotai. No tempo dos portugueses, a ilha da Taipa não tinha muitos prédios, agora em Cotai, o tal território entre as duas ilhas conquistadas ao mar, existe uma pequena Veneza (com direito a passear de gondola nos canais), uma pequena cidade de Paris (com direito a Torre Eiffel) e mais uns quantos casinos enormes. São pequenas cidades com terminal de autocarros do mesmo tamanho que o terminal de autocarros de Coimbra, por exemplo, e cada hotel tem um!

- As ruas de Macau estão sempre impecavelmente limpas. Não se vê um papel no chão e para além de existirem caixotes do lixo em todo o lado há sempre pessoas a limpar. E esses trabalhadores, que estão sempre na rua, usam os tais chapéus típicos de Bambu.

- Vamos dar uma voltinha ao Adro de São Lázaro e ver a presença portuguesa em Macau?

Passeio ao Adro de São Lázaro, a presença portuguesa em Macau

Miriam em Macau - Dia 2

Dia dois em Macau. Ando na rua e continuo sem saber para onde olhar. São tantas coisas bonitas! Acho que vou chegar ao fim da viagem e ainda vou encontrar coisas que permaneceram escondidas de mim nos dias anteriores.

Agora vejo Macau de dia. Está calor, mas sempre nublado, sem, no entanto, ameaçar chover. Gosto tanto de olhar as árvores e perceber que não conheço nenhuma. Não há cá Plátanos ou Jacarandás como nas cidades portuguesas, nem pinheiros, ou oliveiras, ou sobreiros. As árvores são grandes, não são altas mas têm uma copa larguíssima e redonda, são tão verdes, mas tão verdes, com folhas enormes, algumas com mais de dois palmos. Aliás, há mulheres que usam essas folhas como leques.

No adro do Seminário Jesuíta de São José, recebeu-me o Padre João Eleutério, que foi professor de Teologia em Portugal e que aceitou vir para Macau há uns anos, dar aulas de Teologia na Universidade de São José, que funciona no Seminário de São José.

E porque é que eu escolhi começar por aqui? Porque é aqui que a história do cristianismo na Ásia começa e se desenvolve. A este seminário chegaram ao longo dos anos jovens com o mesmo objectivo: pregar o evangelho. É impossível estar aqui sem pensar na coragem que tinham de ter. As famílias que deixaram para trás, para se tornarem missionários em terras tão desconhecidas, em terras com hábitos e língua tão diferentes. O seminário de São José foi construído como um complemento ao Seminário de São Paulo (primeira universidade de tipo ocidental no extremo oriente) mas como é do conhecimento geral – tendo em conta que é o monumento mais facilmente identificável de Macau – ele ardeu ficando até aos dias de hoje apenas a fachada.

Com o Padre João Eleutério percorro o corredor onde os actuais alunos de Teologia estão a ter aulas. É no antigo dormitório e é através das janelas no corredor (que outrora serviram para vigiar os estudantes, ver se estavam a dormir ou na conversa) que vejo os actuais alunos. Estão todos empenhados a ouvir e nem dão pela nossa presença à janela. Nota-se bem que são de nacionalidades diferentes.

Depois de conhecer o Seminário de São José visito a magnifica igreja que tem o mesmo nome que o Seminário. É linda e também é espaço de romaria, porque é lá que se encontra a relíquia de São Francisco Xavier, no altar à direita. Está ao centro, tendo do lado direito um Santo António e para que saibam quem é, diz em português “Santo António de Lisboa” e em inglês está escrito “Santo António de Pádua”! Assim todos ficam de acordo! Também está escrito em cantonês… mas aí já não sei que cidade deram ao nosso Santo António.

Sabe muito bem estar lá dentro, mas é cá fora, nas escadas enormes, que nos sentamos a conversar e a gravar esta pequena entrevista. Atrás de nós está a igreja, com uma fachada alta, larga, muito bem restaurada, parece nova, pintada de amarelo e branco.

Quer ver como é?

Foi aqui que tudo começou - Dia 2 em Macau

Começamos a conversar na esperança que um pássaro que costuma andas nas redondezas não comece a piar. Acho que ninguém vai a Macau sem reparar neste pássaro, nunca percebi qual era, mas ouvia-o tantas vezes! Parece um grasnar muito alto que vai aumentando de rapidez cada vez que faz “piu”. E pia muito alto mesmo. Acho que no fim vou acabar por ter saudades dele.

Vamos à conversa?

A seguir visitámos o museu de Arte Sacra do Seminário de São José e fico logo sem palavras ao ver o único quadro que saiu ileso do incêndio da igreja de São Paulo. Único. Perfeito, encerrado numa madeira escura mostra a Virgem Maria com Jesus ao colo. Está rodeado de vidro, já teve aventuras que cheguem e por isso é bom que fique bem resguardado. Melhor que estar a dizer-lhe o que o Padre João Eleutério me ensinou com a visita é ouvi-lo a ele. A conversa é uma viagem pela História do Catolicismo na Ásia, sobre os primeiros dicionários para chinês, procissões que duram um dia e festas que metem danças e Fernão de Magalhães à mistura! O melhor é ouvir:

A música faz parte da Igreja de São José e não é algo que esteja apenas encerrado no Museu de Arte Sacra ao ver os instrumentos e as pautas antigas que estão expostas. Durante o Festival de Música de Macau há sempre concertos que acontecem nesta igreja que tem condições acústicas óptimas.

De volta ao adro do Seminário de São José, onde de um lado está uma árvore imensa rodeada por roseiras sem flor e do outro uma imagem de Nossa Senhora de Fátima com os três pastorinhos, despeço-me do Padre João Eleutério e saio tão feliz por ter sentido que aprendi tanta coisa hoje.

Curiosidades:

- Em 5 dias que estive em Macau nunca vi nenhuma mulher a passear um cão. Na realidade, nunca vi nenhum cão a passear. Pelo menos com as patinhas no chão! Sim, porque o objectivo da primeira selfie (pode ver lá em cima) era mostrar como é que os cães passeiam em Macau: ao colo dos donos.

- Talvez seja uma coisa a que as mulheres dão mais importância, mas os homens também lhe dão muito valor! Das primeiras coisas que reparei é que em Macau, ande por onde andar encontra sempre casas de banho públicas e impecavelmente limpas, têm sempre papel e sabonete líquido e algumas delas até estão equipadas com essa fabulosa invenção à qual nunca tinha dado tanto valor como nestes dias: ventoinha!

- Macau é conhecido por ser a terra dos Casinos. E é verdade, há muitos casinos. Tantos como a soma das igrejas e dos templos do território.


Miriam em Macau - Dia 1

A chegada a Macau é sempre histórica. Seja a chegada atabalhoada da rapariga que deu origem a Macau – a deusa A-Má – mas essa história fica para os próximos dias, seja nas caravelas portuguesas comandadas por Jorge Álvares que em 1555 atracaram na Foz do Rio das Pérolas.

Estava ansiosa com esta viagem. Ansiosa por ser a maior até agora (nunca tinha posto os pés na Ásia), ansiosa por vir sozinha e ansiosa com o trabalho que tinha de fazer! A verdade é que no fim-de-semana antes de voar para Macau, mal dormi e apenas sonhei. Ainda bem que sonhei. Acho que cumpri o primeiro requisito para vir a Macau que é conhecida por ser a cidade dos sonhos.

O que me estava a deixar assim mais medrosa era em Hong Kong, o meu destino, conseguir sair rápido, dar com o terminal dos barcos e mostrar o meu bilhete previamente comprado. Tinha tudo espectacularmente explicado numa folhinha que li vezes sem conta na esperança de decorar todos os passos para não me perder. E sim, claro que falam em inglês, ainda mais em Hong Kong, para onde voei, mas o que é que se há-de fazer? Sou uma rapariga ansiosa! E a Ásia é longe! E diferente.

No avião só vejo alemães, chineses de Hong Kong, chineses da China, e até de Macau, mas chineses. Sentei-me no meu lugar, à janela, claro. É impossível falar da viagem num A 380 sem dizer que é realmente um senhor avião, o “Gigante dos céus” (já agora, uma curiosidade, por serem tão grandes não podem aterrar em Lisboa). Eu dou-me mal com aviões em viagens em que é suposto dormir, mas posso dizer, agora que já acabou, que foi o melhor voo nocturno que já fiz.

Estava eu a por um filme para ver, quando reparo que o senhor com um ar claramente chinês (por “ar” entenda-se olhos) estava a ler um jornal português. O meu coração descansou. E passado dez horas e meia, quando o sinal de pôr os cintos acendeu e começamos a descer em direcção à pista, toquei no ombro do senhor e disse “Vai para Macau? Posso segui-lo?”. Era o Armando e a mulher, a Teresa. Dois macaenses que chegavam a casa depois de um mês em casa do filho que vive em Portugal, no Porto. Tenho cá para mim que ganhei dois amigos para a vida. Trocámos números, explicaram-me inúmeras coisas sobre Macau e antes de pisar o solo macaense já sabia quanto valiam as patacas, que o casino Venetian era igual a Veneza… E que nos encontrávamos na Procissão no dia 13, que era uma procissão lindíssima até à Penha e que este ano era especial que até saía da Sé (sai sempre da Igreja de São Domingos, mas por se esperar muita gente, por ser o Centenário das Aparições de Fátima, o Bispo de Macau decidiu mudar a partida para a Sé).

Chegada a Macau e depois de termos as malas, sim, termos, os 3, porque como disse, nunca mais os larguei. Eles é que me largaram quando me entregaram ao meu guia destes 5 dias, o Alorino. Confesso que me custou um bocadinho esta separação. Claro que também só os conhecia há 3 horas… Mas pareceu-me uma vida.

Saí do terminal dos barcos… Respira-se um ar quente e húmido… O carro conduz-se à esquerda, como em Inglaterra, e aqui mais perto, Hong Kong.

Estou na Ásia!

"Estou na Ásia" - Dia 1 em Macau, a crónica de Miram Gonçalves

Prédios como nunca vi. Não só na altura, nada disso: a arquitectura! Parece que cada casino faz um concurso para ser mais bonito, mais original e mais megalómano do que o outro. Depois espreito as ruas e de repente, surgem edifícios baixinhos, com a traça igual aos nossos. São os nossos! Igrejas, calçada portuguesa, e ao lado um prédio com mais de 30 andares. Ao passar as pontes vêem-se assim planícies com montes de terra… Terra conquistada ao mar, aposto (e apostar é uma coisa muito bem vista por cá) que quando cá voltar daqui a uns anos, naquele sítio já estará um grande casino.

Assim que cheguei larguei as coisas no hotel, tomei um duche e fui falar com Elsa Jacinto da Lusa. Ela viveu cá nos anos 90 e voltou em Março. Que diferença ela deve ter sentido! Por isso é uma óptima conversa para se ter, mal se chegue cá.

Encontrei senhores a passear passarinhos! Mais do que uma gaiola! Lá vão eles para o jardim e penduram as gaiolas nos troncos das árvores.

Primeiras impressões mal chego? Sem dúvida os contrastes tão magníficos entre o novo e o antigo, entre a arquitectura portuguesa e os modernos casinos. Sempre a olhar para cima, com o pescoço bem esticado e a dizer “Oh” muitas vezes e sem saber para onde olhar, porque não cabe tudo no meu ângulo de visão e também quero ver o que há ao nível dos meus olhos. Aprendi logo que temos de ter mais cuidado nas passadeiras (até porque o trânsito é ao contrário), a loucura que são os andaimes usados nos prédios em construção, são feitos de bambu e atados com umas fitas! Não interessa o tamanho do prédio. Impressionante, ainda para mais, sendo eu escuteira e nunca tendo tido coragem para me pôr em cima do que eu própria construí em amarras.

Hoje deito-me a pensar o quanto a língua portuguesa me faz sentir em casa. O alivio que senti quando alguém falou comigo em português. Nunca como antes senti isto. Mais do que nunca, faz sentido a frase de Fernando Pessoa: “A minha pátria é a língua portuguesa”

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