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Opinião de Henrique Raposo
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​NEM ATEU, NEM FARISEU

Não há vacina para o autismo

21 abr, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


“Eu levei muitos anos a abrir os olhos e o coração. Mas eu sou estúpido e lento. Vocês são melhores. Eu sei que são”.

Temos a tendência para ver os assassínios através da caricatura do “monstro”. Ainda há dias, o assassínio de Barcelos foi descrito nestes termos luciféricos. Trata-se de uma sobrevivência narrativa ou moral: queremos à força separarmo-nos daquele indivíduo, queremos traçar uma linha de fogo entre a nossa “humanidade” e a “monstruosidade” dele; queremos puni-lo e, em consequência, transformamo-lo num Lúcifer.

O curioso é que fazemos o oposto com pessoas frágeis como o autista, por exemplo. Queremos ajudá-lo e, em consequência, transformamo-lo num querubim genial; como se torna numa vítima devido à sua incapacidade social, queremos premiar o autista com uma inteligência sobre-humana, queremos que ele seja o nosso Spock. Mais uma vez, trata-se de um esforço desesperado e ilusório; não queremos o estoicismo de Eclesiastes, queremos dar já uma moral humana à desordem do mundo, queremos suavizar a injustiça inscrita nas coisas e, desta forma, procuramos redistribuir a justiça e o bem através destes mitos sobre assassínios e deficientes.

Estas ilusões são uma espécie de vacinas morais que nos protegem do confronto com a realidade: não, o assassino de Barcelos não é um “monstro”, é um homem como nós; uma curva mal feita na vida pode atirar-nos para aquele nível de maldade. Não, o autista não é um génio. É uma pessoa como outra qualquer.

Esta lei das compensações que esquece Eclesiastes foi o que me veio à cabeça durante a leitura de uma confissão poderosa de Valério Romão (“Da compreensão simplificada do autismo”) publicada no jornal “Hoje Macau”. Este escritor tem um filho autista e conta aqui a forma como lidou com a surpresa. Ao início, recorrendo à tal lei da compensação que nos dá a ilusão de que controlarmos a máquina do mundo, Romão olhava para o filho como todos nós olhamos para a personagem de Dustin Hoffmann em “Rain Man” – o autista só pode ser o tal génio matemático. Sucede que o filho de Romão (como a esmagadora maioria dos autistas) não encaixa nesse cliché benevolente. Não, os autistas “não são todos enviados cósmicos sob a forma de anjos”. Dessa forma, foi necessário “fazer o luto da criança idealizada” para que a criança real encontrasse o seu espaço.

“Eu levei muitos anos a abrir os olhos e o coração. Mas eu sou estúpido e lento. Vocês são melhores. Eu sei que são”, diz o autor do romance “Autismo” (agora reeditado).

Ora, se Romão foi estúpido e lento, foi estúpido e lento como eu seria, foi estúpido e lento como Job: porquê eu? Porque é que isto tinha de acontecer ao meu filho? Porque é que a linha do acaso cósmico tinha de encontrar a linha do meu filho? Porque é que o desígnio inescrutável de Deus tinha de traçar uma linha perpendicular sobre a linha do meu filho? Superar esta sensação de injustiça para assumir a franqueza de Eclesiastes não é fácil, mas Romão chegou lá nesta confissão: “há que ter coragem de nos despirmos de todas as explicações reconfortantes para o fenómeno da deficiência”.

Não, isto não é uma vacina narrativa, não estamos no campo dos Andrew Wakefieds literários que elaboram fraudes e falácias fofinhas. Pensar e escrever é dar murros no estômago, não é dar palmadinhas no ombro; escrever não é fazer o banho da cobra do “auto-ajuda”, é chegar a Eclesiastes. Não há vacinas pra vidinha.

Comentários
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  • José de Pina Navarro
    30 abr, 2017 Lisboa 20:20
    Amigo Henrique Raposo Gosto de ti, rapaz. Muito inteligente, muito esclarecido sobre os mais variados assuntos, muito lúcido na sua interpretação. Parabéns. Se continuares com Deus, não de filiação bocal mas de coração e comportamento, a espiritual musa continuará e se multiplicará, com a oponência feroz, evidentemente, dos especialistas da moderna ciência natural, normalmente sediados no lado contrário, e que habilmente, e com jactância, esgrimem as suas ciências que, também normalmente, porque de teor exclusivamente sensorial e materialista, são truncadas no seu princípio e fim último quando direccionadas ao homem completo que somos. Realmente o que se passa com as aspirações da ciência da hoje, sempre com isso o homem sonhou, e muito recentemente o nazismo pôs isso em prática ao procurar erradicar da face da terra todo o que considerava como sendo humanamente inferior, não referindo aqui nós, óbviamente, os judeus, de todo em todo a isso contrários, mas os deficientes físicos e mentais que, numa radical Eugénia, procurou eliminar da face da terra como semente imprópria de viver e, menos, de se continuar. A única falha , não tanto da ideologia mas do procedimento, tanto deste como a dos modernos cientistas do exclusivamente natural, é que enquanto assim procediam, pelo seu próprio decalque comportamental humano, estavam assim geneticamente proporcionando, e engendrando, essas mesmas deficiências e imperfeições que tão radical, cruel, e orgulhosamente, procuravam eliminar.
  • João Lopes
    22 abr, 2017 Viseu 17:49
    Excelente artigo!
  • MASQUEGRACINHA
    22 abr, 2017 TERRADOMEIO 16:29
    Cada artista tem o clube de fãs que merece.
  • Vera
    21 abr, 2017 Palmela 22:31
    Conheço quem tem um filho autista. O rapaz é ligeiramente diferente, aos olhos da mãe, do pai e das pessoas que o conhecem! porque é inteligente, sabe ler, escrever, contar dinheiro... porque aprendeu, claro! Mas fora de casa é que, é o caso dos trabalhos! rodeado de gente estúpida, que faz comentários absurdos, como: - coitado! por isto e por aquilo, o tom do cabelo, a forma como aproxima as moedas dos olhos (porque a claridade do sol, não lhe é favorável) e mais uma série de disparates, de gente ignorante que só vê extra-terrestres por todos os lados! é claro que o rapaz se afasta e que os pais sentem na pele! aquilo que podia ser compreensivo e tornar-se tão natural, como uma pessoa que coxeia, por exemplo! Há tanta gente a coxear, há gente: uns muito altos, outros muito baixos! E depois, há aqueles exóticos, que pintam o cabelo de azul e usam penteados esquisitos, que eu nem sei comparar com qualquer coisa que faça sentido! e dizem que é pank (deve ser abreviatura de pankhurst)! e são coisas, que as pessoas acham imensa piada!!! e eu fico pasmada, com tantos disparates e tanta falta de 'homage'!!!
  • Tiberio
    21 abr, 2017 Lisboa 15:52
    Bem este artigo é de difícil digestão e envia uma serie de mensagens subliminares e diretas sobre realidades da vida ainda incontroláveis e sem causa conhecida e portanto sem prevenções possíveis,começa por referir o assassino do eu e dos outros,uma doença neurológica de origens não conhecidas com manifestações variáveis,refere o velho testamento e certas nuances,o sofrimento de um pai e refere vivencias e forma dramática ou trabalhosa de conseguir objetivos com suor sangue e lágrimas com inteligência e arte.Concluindo a realidade é por vezes dura incompreensivel e não se consegue também nada sem empenho e conhecimento.