O site da Renascença usa cookies. Ao prosseguir, concorda com o seu uso. Leia mais aqui.
|
Opinião de Henrique Raposo
A+ / A-

Devemos manipular os genes das nossas filhas?

17 abr, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


Os alarmes contra a genética devem permanecer ligados. Os “avanços genéticos” podem ser retrocessos civilizacionais.

Chamemos-lhe Ana. A sua avó teve cancro da mama, a sua mãe teve cancro da mama, ela vai ter cancro da mama – é quase tão certo como o pôr do sol. Pensa em engravidar, mas tem medo de passar esta sentença genética às filhas. É por isso que está atenta aos avanços genéticos. E se for possível não ter filhas? E se for possível através da tecnologia escolher um menino? E se for possível desenvolver um embrião feminino completamente livre do defeito genético que provoca o cancro da mamã? Ana é católica e todos os seus alarmes morais disparam assim que se fala em genética. O homem não pode fingir que é Deus. Mas, por outro lado, ela não consegue sair daquele pavor: porque é que vou gerar meninas que têm 50% de possibilidades de desenvolver cancro?

Repare-se que a questão de Ana já não é “podemos manipular os genes dos nossos filhos?”. Já saímos do campo da possibilidade. Estas e outras tecnologias já existem e estão disponíveis no mercado. A única questão que resta está no campo da legitimidade: “devemos manipular os genes dos nossos filhos?” Devemos? Temos esse direito? Compreendo o medo de Ana, também o sinto, mas este caminho é demasiado movediço. Sim, percebo que há uma diferença entre medicina e eugenia; há uma diferença moral entre uma intervenção genética que visa suprimir uma doença que aquele bebé tem altíssima probabilidade de desenvolver (medicina) e uma intervenção que visa aumentar capacidades físicas e intelectuais desse bebé (eugenia). Pode-se fazer este argumento. No entanto, esta solução tem sempre um lado perverso: se abrimos a porta a essa genética defensiva, abrimos também as portas à genética ofensiva e eugenística que procurará aumentar a inteligência e a potência física. É uma caixa de pandora. Uma vez aberta, não se pode fechar. Aliás, ela já foi aberta e já se fala abertamente na criação de um mundo pós-humano através de uma eugenia bem intencionada. Sucede que não existe uma eugenia bem intencionada, só existe eugenia.

Os alarmes contra a genética devem permanecer ligados. Os “avanços genéticos” podem ser retrocessos civilizacionais. Retrocessos, esses, que estão a ser debatidos debaixo da nossa complacência moral. Aqueles que abriram a caixa já falam na introdução de nanotecnologia e de fármacos avançados que visam o aumento das capacidades físicas e mentais logo na fase de embrião (ex.: aumentar memória, aumentar velocidade de raciocínio). O problema é que isto representa a criação de um homem ex nihilo a partir da vontade do próprio homem. Não me parece uma utopia que liberta o homem do calvário das doenças, parece-me mais uma distopia eugenística que transforma o homem num produto manufacturado em laboratório. Ora, a civilização que construímos assenta numa verdade revelada no Evangelho: todos os homens são iguais entre si porque são todos filhos de Deus. Somos todos irmãos. Este futuro pós-humano e eugenístico pode quebrar essa irmandade, pois tem o poder para nos dividir em duas esferas: os homens naturais e os homens artificiais. Portanto, o medo da Ana é compreensível, mas também é perigoso. Naquele amor esconde-se esta distopia eugenista.

O pavor de Ana esquece ainda dois pormenores adicionais. Em primeiro lugar, a medicina normal avançou no tratamento do cancro, que será cada vez mais uma doença crónica controlável. Em segundo lugar, a genética não é destino, é apenas probabilidade. Dizer que “é provável que a Ana e a suas filhas desenvolvam cancro” não é o mesmo que dizer “é garantido que desenvolvam cancro”. 50% não são 100%. Não podemos perder a esperança no futuro. Caso contrário, chegará um momento em que nenhuma possibilidade de doença será aceitável. Caso contrário, chegará o momento em que as pessoas exigirão um futuro pós-humano só porque têm 10% de hipóteses de desenvolver doença x ou y. Não quero viver nesse futuro que me parece um nazismo delicodoce.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Vera
    18 abr, 2017 Palmela 22:45
    Eu conheço pouco desta matéria! mas como os genes humanos podem vir do pai ou da mãe ou de antecedentes destes, o melhor é não nos preocuparmos muito com isso! uma filha pode herdar genes do pai, a mãe pode se doente e o pai não ser e vice-versa! ou o pai e a mãe podem ser saudáveis e o filho ou a filha herdarem uma doença dos avós, ou antecedentes dos avós (bisavós ou trisavós)! Há uma coisa de que o Henrique Raposo, não falou e que isso, eu acho que é realmente preocupante: são pessoas que se casam e não sabem qual é o seu grupo sanguíneo! que não pode ser igual, no cônjuge! senão os filhos podem vir com sérios problemas de saúde: deficiências físicas ou mentais! isso é que é preocupante! e que todos os jovens devem saber! qual o seu grupo de sangue? para não se casarem com alguém do mesmo grupo sanguíneo! ou então, a mulher pode fazer uma intervenção cirúrgica, para não engravidar! o que não aconselho, porque todas as mulheres, gostam de ser mães! vale mais esquecer o príncipe encantado, porque nem sempre o encanto é duradouro... e o amor dos filhos e filhas, dura para sempre! Ah! atenção jovens! não são só os familiares que têm o mesmo grupo de sangue! os mais antigos, dizem que os primos não se podem casar! pois há primos já afastados, que os avós é que eram primos direitos, daí seguiram-se outros casamentos, até que o grupo sanguíneo foi-se modificando! e encontramos pessoas de outras famílias, que são do mesmo grupo que o nosso! a questão, está numa análise ao sangue!
  • Quirino
    18 abr, 2017 Lisboa 14:37
    A ciência é a única luz racional que vem trazendo mais compreençao e melhor qualidade de vida ao Mundo.A intervenção no campo genético está muito mais avançada do que nos é dado perceber.Utilizar a intervenção genética como meio de prevenção de doenças ou outras anomalias que levam ao aborto por exemplo e outras vivencias terrivelmente complicadas é compreensível.Utilizar a genética como forma da conjugação dos ADN(S) é o futuro quer seja a favor ou contra determinadas convicçoes .A conjugação passa de aleatória a induzida com os dados existentes permitindo uns e recusando outros.A ciência é uma realidade imutável quando credível ..Quem irá determinar o tipo de intervenções será o Homem através das complicadas secções de Bio -Ética e quejandos sediadas na ONU.
  • António Costa
    17 abr, 2017 Cacém 22:59
    A "Ficção Cientifica" dos anos 70, do Séc. XX deixou-nos um cenário "apocalítico" sobre as modificações e alterações genéticas provocadas pelo Homem. Mas em 40 anos a Ciência avançou muito, e em termos genéticos nem se fala. Os "sistemas vivos" tem sempre "falhas" e a Vida adapta-se "rapidamente" às alterações genéticas. Sejam as alterações provocadas ou não pelo Homem, a "Vida" vai seguindo em frente. Não se preocupe.
  • MASQUEGRACINHA
    17 abr, 2017 TERRADOMEIO 17:35
    O Sr. H. Raposo não deve preocupar-se tanto, pessoalmente, em viver nesse futuro porque não vai lá chegar de certeza. Depois, é de uma tocante inocência, ou de falta de televisor em casa, ou de vida em clausura, considerar que exista (no presente, no presente real e concreto), uma "irmandade" para ser quebrada. Há, de facto, uma irmandade, mas para ser restaurada, ou melhor, para ser construída de raiz, uma vez que, na melhor das hipóteses, nunca passou de um ideal jamais levado à prática, pelas mais diversas razões e desculpas. Se nos viermos a dividir em duas esferas, de homens naturais e artificiais, não tenho a menor dúvida de que coincidirão com as duas esferas mais salientes que (de há muito) dividem a "irmandade" : os Tios Patinhas, a gastarem uns trocos com a artificialidade que lhes permita viverem mais e melhor, quiçá a imortalidade! ; e o resto da malta, naturais e descartáveis como se quer, a produzir para os tacos de golfe e para os parafusos dos cyborgs. Há tanto assunto urgente para resolver, aqui e agora, a bem da irmandade... Vamos mas tratar dos nossos problemas, antes de nos preocuparmos com os dos vindouros. É que, por este caminho, as preocupações dos vindouros são capazes de ser mesmo só ficção científica, ou "irmandade" mais do mesmo. O Papa Francisco, povero, lá vai clamando para o deserto...
  • ALETO
    17 abr, 2017 Vila Franca de Xira 12:38
    O «nazismo delicodoce» é mais um exagero dessa cabeça infantil e mal preparada em abordar temas que nada têm a ver com a sua competência.