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Opinião de Henrique Raposo
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NEM ATEU, NEM FARISEU

Julga-se diferente do “monstro” de Barcelos?

31 mar, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


Adelino Briote não é um monstro luciférico, é um homem tal e qual como o meu caro leitor, tal e qual como eu.

Caro leitor, estou certo de que já rotulou o assassino de Barcelos, Adelino Briote, com a palavra “monstro”. É uma atitude compreensível.

É mais fácil criar um cordão sanitário entre si e um homem que degola quatro pessoas como se estivesse a degolar quatro cordeiros. É mais confortável pensar que Adelino não partilha consigo a mesma humanidade, é mais cómodo pensar que ele é feito de outra massa, é mais conveniente assumir que ele é feito a partir de um barro luciférico, qual argila diabólica moldada e cozida nos confins dos infernos. É mais cómodo, mas também é mais errado.

Adelino Briote não é um monstro luciférico, é um homem tal e qual como o meu caro leitor, tal e qual como eu. Nós, eu, você e ele, partilhamos o mesmo pecado original; o mal que ele praticou não está fora do nosso alcance. Sim, nós criámos algo que Briote não tem: mecanismos morais e religiosos que nos elevam acima do pecado original, mas, seja como for, partilhamos com ele a mesma condição de seres caídos. Quando dizem que “Adelino Briote é desumano”, o meu caro leitor e a maioria das pessoas partem do pressuposto de que “ser humano” é o mesmo que “ser bom por natureza”. Onde é que foram buscar essa ideia? Embora tenham um som parecido, “humanidade” e “bondade” não são sinónimos. A humanidade não está separada do mal.

Já sei qual vai ser a sua contra-resposta: se ele não é malévolo, então só pode ser louco; se ele não representa um mal separado da nossa humanidade, então está separado da humanidade por um erro técnico, isto é, por uma doença mental. Lamento, mas o meu caro está de novo equivocado. Adelino Briote não tem uma doença mental incapacitante. Ele não é inimputável.

O homem de Barcelos cometeu aquele crime em consciência. O seu livre arbítrio não estava desligado, estava ligado, ele escolheu matar. Aliás, é esta a natureza do pecado: é uma escolha. Já não se lembra das “Confissões” de Santo Agostinho? Agostinho diz-nos ali que o pecado sabe bem; quando era novo, Agostinho roubava não por necessidade, mas por prazer; tinha gosto quando percebia que a sua inteligência o transformava num ser autónomo em relação à lei e à moral, isto é, tinha gosto em ficar impune.

Adelino Briote matou porque quis, não para ficar impune, mas para provar o sabor da vingança. O mal, meu caro, é uma escolha consciente, não é um acaso provocado por alguém inconsciente.

Briote não é um monstro, é apenas um homem que atingiu o ponto sem retorno. A profundidade deste ponto de ruptura varia de homem para homem, mas todos o têm dentro de si. Não, não estou a perdoar Briote. Estou apenas a recordar um ponto: a diferença entre Briote e o meu caro amigo não é de natureza, é de grau. Portanto, acautele-se, não separe a sua humanidade do mal, perceba que as pessoas que se julgam acima do pecado original são também as pessoas que estão mais próximas desta estirpe de mal. As pessoas que gritam “monstro” à passagem de Adelino Briote são aquelas que, sem o saberem, estão mais próximas do ponto sem retorno. Julgam que Briote é um retrato de Lúcifer, quando na verdade é um espelho.

Comentários
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  • Alexandre
    02 abr, 2017 Lisboa 22:45
    Não, Domingos Simões. O comentário sobre a pena de morte foi para a Vera e não para si. Foi o progresso do ser humano e a mentalidade do homem progressista que acabou com a pena de morte neste país e em muitos mais. Não vamos agora recuar na mentalidade e retroceder nos nossos valores e princípios, como deseja o Sr. Henrique Raposo. Sobre o que escreveu, tente usar o seu comentário contra o autor do texto, em vez de o bajular da forma triste como fez. Ninguém fica agradecido por alguém como Henrique Raposo vir aqui semanalmente pregar o retrocesso da sociedade e do ser humano.
  • Vera
    02 abr, 2017 Palmela 22:05
    Alex, se alguém falou aqui em pena de morte, foi você! há maneira de acabar com um criminoso sem pena de morte! pergunte a um polícia que lhe explique! ou acha que os polícias matam por vontade própria? só Deus sabe, como eles ficam quando são obrigados a fazê-lo! e Deus também sabe, quanto me custou, o que eu disse! mas estou saturada destas notícias! e se é preciso acabar com 'o mal pela raiz', para que outros sem culpa, não sofram! alguém terá que conseguir falar, custe o que custar! e eu falei! doeu, mas falei! Quanto ao Sr. Domingos, sentiu e chorou, porque é uma pessoa com sentimentos... O 'homem' em questão, vai ser julgado! até pode ter uma razão muito forte para ter entrado em paranóia, mas isso não lhe dá o direito de matar quatro pessoas! E se você acha que os meus comentários são ridículos, procure o 'homem' e conte-nos o que ele tem para dizer...
  • Domingos Simões
    02 abr, 2017 Caldas da Rainha 14:38
    ALEXANDRE 02 ABR, 2017 LISBOA 12:44 A sua opinião é tão válida quanto as de qualquer opinante. O que vai a seguir não belisca essa validade. Só não entendo a mistura da sua referência ao meu comentário com a pena de morte !!! Deseja ajudar-me a perceber essa mistura que fez? Também não entendo porque pode um ser humano, com tripas, ditar a pena de morte de outro ser humano. Claro que sou um "ideiota" cheio de ideias !!!
  • Alexandre
    02 abr, 2017 Lisboa 12:44
    Tão ridículos os comentários de Vera. Onde é que ganhou a ideia que os homens matam-se? Foi do Henrique Raposo? Se alguém mata por três ou quatro vezes, tem a lei e a pena de prisão ou será que quer voltar ao tempo da pena de morte? Sabe em que ano abolimos a pena de morte neste país? Mas pior é o comentário de Domingos Simões. Não pode ser mais subserviente do que isto. Em vez de criticar, vem dar a mão ou a palmadinha nas costas. Muito triste. Domingos Simões é o tipo de pessoa que não tem nada para dizer. É um puro idiota nesta sociedade em queda livre.
  • Vera
    02 abr, 2017 Palmela 09:45
    Um homem com uma faca não consegue matar 4 pessoas ao mesmo tempo! penso eu! se seguirmos os mandamentos de Deus: "não matarás", "ama o teu próximo como a ti mesmo"; 1º) 'não matarás', 2º) mas defenderás 'o teu próximo'... então naturalmente três viram e não reagiram! se reagissem, dos quatro assassinados só morreria um! os outros três matavam por defesa... Ninguém defendeu Jesus, morreu sozinho, apontado por quase todos, de traidor! agora os homens matam-se todos uns aos outros! por que será? ninguém pensa???
  • Domingos Simões
    02 abr, 2017 Caldas da Rainha 07:16
    Estimado ser humano Henrique Raposo: Quanto queria e não sou capaz de lhe agradecer o texto acima. Limitado, limito-me a um MUITO AGRADECIDO LHE FICO! Tenho 2 lágrimas de agradecimento a escorrer de um bom sabor na alma. Texto sem teias de aranha e profundo. Igual respeito me merecem todos os comentários. Cada um dá o que tem e mais não pode, porque apenas emite o que tem dentro. Façam o favor de ser felizes para bem do Corpo Humanidade, do Mundo e do Espaço Infinito.
  • Vera
    02 abr, 2017 Palmela 05:42
    Bem, o que eu acho, não sei se acho bem, se acho mal, mas acho e é a minha opinião, não tenho outra! é assim: se uma pessoa mata, por algum motivo muito drástico, pode acontecer! sem ser premeditado! a pessoa entrega-se, paga pelo seu acto violento, assume que errou! mas se matou duas vezes é assassino, porque repetiu! e se matou três vezes, acabem com ele... pronto, acabou!!!
  • Alexandre
    01 abr, 2017 Lisboa 20:19
    O crime pode ser provocado por alguém inconsciente e ser rotulado de mal (caso de André Briote) ou ser provocado por alguém consciente e ser rotulado de bem (o assassinato político, como exemplo).
  • Caim
    01 abr, 2017 Taquáras 11:43
    Quanto mais nos afastamos de Deus, mais monstros nos tornamos!
  • João Galhardo
    01 abr, 2017 Lisboa 09:31
    Adelino Briote não é um homem tal e qual como o leitor ou o cidadão anónimo. Adelino Briote é um criminoso. O código penal assim distingue aqueles que são criminosos daqueles que não são. Eu julgava que o Henrique Raposo percebia isto. Afinal, tenta mais uma vez escapar à realidade e enganar os seus leitores com pura charlatanice literária, ao nível do pior folheto de corda do século XIX.