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Opinião de Henrique Raposo
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​NEM ATEU, NEM FARISEU

Como encontrar a misericórdia depois do terror islamita?

24 mar, 2017 • Opinião de Henrique Raposo


É cada vez mais complicado chegar à compreensão, é cada vez mais trabalhoso aplicar a lente da misericórdia às pessoas que nos matam como animais num matadouro municipal

Esta crónica é uma confissão. Passados 16 anos sobre o 11 de Setembro, é cada vez mais difícil conter a raiva que sinto contra este islamismo wahhabita nascido e criado na Europa; é cada vez mais difícil filtrar este ódio através das nossas ideias de tolerância e estado-de-direito, é cada vez mais complicado chegar à compreensão, é cada vez mais trabalhoso aplicar a lente da misericórdia às pessoas que nos matam como animais num matadouro municipal. É cada vez mais difícil, mas até agora tenho conseguido manter esse equilíbrio cristão.

Como? Em primeiro lugar, assumo que a raiva existe. Quem afirmar que não sente um pingo de raiva ou ódio está mentindo, está espalhando pela alma aquela lengalenga facebookiana que diz “não se passa nada”, “não pode haver medo”. Mas é evidente que há medo, é evidente que há desconfiança, é evidente que existe um mal: o radicalismo wahhabita que cresce nas comunidades muçulmanas que se auto-segregaram. Fingir que este mal não existe em nome de uma abstracta “tolerância” não é defender uma ética cosmopolita, é alimentar uma ética cobarde. E diga-se que identificar este mal e reconhecer o medo não é o mesmo que fazer o jogo da Le Pen. Aliás, esta hipocrisia politicamente correcta é que tem permitido o crescimento das Le Pen. É claro que há medo. O que distingue as pessoas é a forma como se lida com esse medo. Le Pen quer potenciá-lo, nós devemos neutralizá-lo.

O caminho da misericórdia prossegue com uma distinção: o islão é grande e plural; se muitos cederam ao radicalismo, a grande maioria dos muçulmanos não é defensora desta violência. Isso é evidente quando lemos romances ou reportagens feitas a partir do ponto de vista dos subúrbios muçulmanos de Paris ou Londres.

Entre muitos outros, “An Unfinished Business,” de Boualem Sansal, é um livro perturbador por duas razões. Em primeiro lugar, este escritor argelino não tem problemas em dizer que o islamismo radical ou jihadista é um fascismo que não tem sido combatido pelo “meio” intelectual e pelo status quo político da Europa; de resto, por uma série de razões que não cabem nesta página, este fascismo wahhabita foi transformado no porta-voz das comunidades muçulmanas da Europa. A tragédia começa aqui. Em segundo lugar, Sansal mostra o desespero do muçulmano “moderado” que está preso entre a determinação dos islamitas que dominam pela força o seu bairro e a forma como os diversos poderes municipais e estatais escolhem esses mesmos islamistas como interlocutores. Note-se que este muçulmano “moderado” compõe a maioria demográfica das comunidades muçulmanas. Problema? É uma maioria silenciosa, invisível, amedrontada. Estas pessoas que querem viver como europeus normais têm medo dos radicais que vivem no 3.º esquerdo lá do prédio, têm medo dos serviços camarários que escolhem falar apenas com os radicais; têm medo em geral, têm medo de se sentarem no banco do metro, pois sabem de antemão que a sua tez já transmite um medo confessado ou inconfessado ao cidadão comum.

O caminho da misericórdia termina portanto nesta ideia de que é urgente deslegitimar os fascistas wahhabitas que falam em nome do islão europeu. Estes fascistas até são muitas vezes financiados por países do Médio Oriente. Portanto, fechar uma mesquita financiada pela Arábia Saudita não é “islamofobia”, é decência, é salvar o dia-a-dia dos muçulmanos e sobretudo das muçulmanas que querem viver como europeias.

Por falar em mulheres, não podemos continuar a permitir a forma degradante como a mulher muçulmana europeia é desrespeitada pela sua própria comunidade. Forçar uma garota a casar com o primo não é “diversidade cultural”, é barbárie. Até se pode dizer que, a partir deste ângulo feminista, temos o dever de abrir estas comunidades muçulmanas, temos o dever de remover o mal fascista ou wahhabita, temos o dever de destacar e proteger as muçulmanas que sonham com uma vida banalíssima e europeíssima. Se não fizermos isto, se continuarmos a olhar para o lado, chegará o momento em que perderemos o rasto da misericórdia.

Comentários
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  • emaria
    31 mar, 2017 porto 15:23
    Há spre quem oculte os pecados do ocidente, colocando-o no andor. Quem o faz náo é sério. O Ocidente instiga,paga ,faz e desfaz negøcios,inventa pretextos para toda a esp3cie de malfeitorias.Reconhecer nao absolve ninguém.É uma questao de transparencia.
  • Carlos Nascimento
    27 mar, 2017 Lisboa 08:59
    Há já algum tempo que acompanhava os textos e as opiniões de Henrique Raposo, a quem achava ser homem integro e respeitável. Infelizmente, a sua postura contra João Maria de Castanheira de Pêra não foi a mais certa. Por isso, Henrique Raposo, para mim, acabou. Não o volto a ler.
  • Ângela Veloso
    26 mar, 2017 Lisboa 12:47
    Henrique Raposo é talvez o maior hipócrita em matéria de lições de moral. É selectivo e xenófobo. como são quase todos os que escrevem colunas de opinião semanal. No entanto, a sua diatribe contra João Maria de Castanheira de Pêra, em conjunto com Secundino Correia do «Mensageiro de Santo António» é algo mesmo de escabroso.
  • ALETO
    25 mar, 2017 Lisboa 22:30
    Concordo plenamente com a análise de Marco Visan. O texto publicado por Secundino Correia no seu pasquim, «Mensageiro de Santo António» contra o maestro de coro de Castanheira de Pêra, João Maria, é uma vergonha. Este e Henrique Raposo atacaram João Maria de maneira impiedosa, pelo facto de ser homossexual. Agora, pedem que sejamos selectivos contra o muçulmanos, quando os mesmo Secundino Correia e Henrique Raposo também o são contra os homossexuais católicos. Xenófobos desta natureza, não interessam à sociedade. Tenho pena que a Renascença continue a dar cobertura a alguém parcial, selectivo e xenófobo.
  • Vera
    25 mar, 2017 Palmela 22:00
    Eu gosto pouco de entrar por portais religiosos! não por medo, mas por respeito aos outros!... Se há terrorismo, a culpa é dos governos, que empurram aqueles que lhes pertencem, para países diferentes! todos nós temos o direito de ser diferentes! não podem impor-nos leis que não nos pertencem! isto é tão lógico, como aquele velho ditado: "cada macaco no seu galho". Nós portugueses, somos tolerantes! mas, como a tolerância não é para todos, se eu tivesse que me deslocar a um país muçulmano, não levava comigo a cruz de Cristo, porque sei, que era uma ofensa para eles! Mas se eu entrasse numa Mesquita, dentro do meu país, eu podia levá-la ao pescoço; se é meu hábito andar com ela, por que motivo tinha de a tirar, sentindo que Deus é o mesmo? e porque eles estão dentro do meu país!! claro que, se me impedissem eu não entrava! mas não gostava... na minha ideia: é que, na minha casa mando eu e quem não gostar, fica à porta! mas o meu país, é a minha casa! neste caso, já funciona a lógica da tolerância. Obrigada Henrique Raposo, Eu tolero, Tu toleras... Nós toleramos...
  • OLIVARES ROCHA
    25 mar, 2017 Rio de Janeiro 14:01
    Texto contraditório. O islamismo e um só. A diferença está no papel de cada um . Esquece o autor que há papel para o mais agressivo, acobertado pela Sharia, e o papel pro mais tímido, temerário, .Edroso, acobertado Perla taqia. O resto é enganação.
  • Marco Visan
    25 mar, 2017 Lisboa 09:05
    É inacreditável ler e perceber a mentalidade escondida por detrás das crónicas medíocres (ou panfletos de propaganda) que Henrique Raposo escreve. Temos agora mais um admirador, vindo do «"Mensageiro de Santo António", o tal que escreve contra o João Maria, impedido de ser maestro de coro em Castanheira de Pêra, pela Igreja Católica portuguesa, devido ao facto de ser homossexual. O próprio João Maria confessou que a nossa Igreja ainda vive uma mentalidade do tempo do século XVI. Comparou esta Igreja, defendida pelo "Mensageiro de Santo António" e por pessoas como Henrique Raposo, ao Califado Islâmico. Vamos tentar esclarecer aqui uma coisa. Quem é contraditório nas suas afirmações? Quem são os cínicos e os hipócritas que se escondem por detrás de boas intenções e panfletos de propaganda escrita à sexta-feira? Se não têm princípios, ao menos tenham vergonha no verdadeiro cinismo que a vossa mentalidade representa.
  • Leão de Amsterdam
    24 mar, 2017 amsterdam 21:36
    Faz falta aparecer um novo Sebastião José de Carvalho e Melo europeu para resolver este grave problema,???
  • João Lopes
    24 mar, 2017 Viseu 21:01
    Excelente artigo de Henrique Raposo
  • MASQUEGRACINHA
    24 mar, 2017 TERRADOMEIO 17:18
    Concordo com o que diz. Até uma pequena achega: muito recentemente, comentando a recente decisão judicial de permitir às empresas a proibição de os funcionários exibirem símbolos religiosos, o imã de Lisboa dizia não discordar - até porque o célebre "lenço" muçulmano não é, de todo, um símbolo islâmico, apenas um acessório de vestuário que muitas muçulmanas optam por usar, e outras não. Imã dixit. Um português, muçulmano e orientador de muçulmanos, que fala claro, e junto de quem, tudo leva a crer, os fanatismos não encontrarão acolhimento. Talvez nisto (também) esteja o segredo de Portugal continuar incólume... Estamos a chegar a um ponto em que temos de nos questionar sobre o nosso próprio pacifismo e tolerância, se não serão realmente cobardia e comodismo. Estamos a começar a tolerar viver em estados securitários - em nome de quê? De não conseguirmos defender os nossos valores, o nosso modo de vida, contra fanáticos dementes? De não conseguirmos separar o trigo do joio, o imã de Lisboa do califa de Mossul, o uso do abuso? Vamos delegar o "problema muçulmano" em entusiastas de uma qualquer "solução final"? Sobre assuntos verdadeiramente graves, importantes, consequentes, como é o caso deste (ou da eutanásia, já agora), nunca se opina, comenta ou debate demasiado. Ou estaremos a ser vencidos pela cegueira decadente do tédio? O inimigo conta com isso, com a nossa futilidade "civilizacional". Futilidade, aliás, é característica que não encontro no Sr. H. Raposo.