Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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A dívida e o bom senso

22 mar, 2017 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


PS e BE concordam em que não haja reestruturação unilateral da dívida pública.

O Estado português vai precisar ainda durante longos anos de pedir dinheiro emprestado. Porque tem uma dívida enorme (130% do PIB), cujos juros e amortizações terão de ser pagos. Ou seja, precisa de crédito para pagar crédito.

É uma situação incómoda? É, com certeza. Mas parece que se critica menos quem nos conduziu a tal sarilho – o governo de Sócrates – do que quem, depois, teve e tem que enfrentar este fardo.

Não pagamos – é a falsa solução de alguma extrema-esquerda. E também foi de algum PS: lembremos que Pedro Nuno Santos (hoje Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares) afirmou em Dezembro de 2011 que tínhamos na mão a “bomba atómica” – não pagar; a simples ameaça poria os banqueiros credores a tremer (muitos deles seriam, aliás, bancos sediados em Portugal e que detém dívida pública nacional).

Mas estar no poder ajuda a pôr de lado infantilidades. Como seria uma reestruturação unilateral da dívida: iríamos, depois, pedir mais dinheiro emprestado aos credores que só parcialmente pagávamos...

Fechar-nos-iam, então, a porta na cara, como fecharam durante mais de uma dúzia de anos à Argentina. E como seriam então pagos os salários da função pública e feitas outras despesas essenciais?

António Costa percebeu o problema, insistindo em que uma eventual reestruturação da dívida pública portuguesa não poderia ser unilateral e deveria estar enquadrada numa resposta europeia integrada.

Segundo o “Público”, o grupo de trabalho PS/BE sobre este tema encaminha-se para a posição de A. Costa, o que é positivo. E não afasta aquilo que desde o governo anterior tem vindo a ser feito: trocar dívida cara e a médio prazo por dívida a juros e prazos mais favoráveis.

De facto, não há nada como ser governo para ganhar realismo.

Comentários
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  • João Galhardo
    22 mar, 2017 Lisboa 19:05
    É deveras interessante saber como a dívida, desde o tempo de Sócrates para o de Passos Coelho, disparou cerca de 40% . No entanto, para o articulista em questão, a culpa é de Sócrates e os maiores responsáveis são a «geringonça» de António Costa.
  • MASQUEGRACINHA
    22 mar, 2017 TERRADOMEIO 18:49
    Como o PS já conheceu no passado as alegrias governativas e respectivos realismos, a última frase só pode referir-se ao BE. Ora, nem o BE é governo, nem a falta de rigor é questão de pormenor, antes reflexo do mesmo mal-digerido ressentimento que levou ao uso e abuso do termo "geringonça". Mas adiante. Não creio que A. Costa tenha "percebido" e levado o BE a "perceber" que a reestruturação da dívida não podia ser unilateral. Para lá de eventuais folclores, o PS nunca foi por aí. O que A. Costa saberá, é que o inevitável está para chegar : a tal reestruturação enquadrada numa resposta europeia integrada - e só demora porque ainda vai enchendo os bolsos a alguns. Embora não sendo governo, o BE, e mais ainda o PC, têm dado sobejas provas de auto-contenção, sem esconder os seus objectivos : primeiro, impedir o regresso ao poder de uma direita indigna, alienada, assumida quinta-coluna; depois, conseguir que Portugal saia do buraco em que TODOS os seus maus governos o meteram, e possa seguir em frente - para o que a reestruturação da dívida é condição necessária. Se este objectivo for alcançado de forma "integrada", melhor ainda para todos (menos os que lucram com a usura). Quanto à dívida pública e privada, foi ontem publicado um insuspeito estudo que prova, preto no branco, que afinal quem "gastou acima das suas possibilidades" foram os bancos (mau crédito à tripa-forra) e as empresas (acionistas a retirar lucro, sem reinvestimento). Há por aí factos alternativos?
  • Justus
    22 mar, 2017 Espinho 18:48
    Porque é que S. Cabral é tantas vezes criticado e, como ele diz, com azedume e certa violência verbal? Pura e simplesmente porque nos seus textos a isenção e a honestidade intelectual são regras que ele não cumpre. Mentir aos portugueses que não são nenhuns parvos é coisa que não se admite nem desculpa. No presente texto S. Cabral, para além de referir o elevado grau da nossa dívida pública e a forma como o governo está a lidar com a mesma, aproveita a ocasião para lançar mais uma das suas mentiras e distorcer a realidade. Como economista e comentador diplomado, deveria saber que a maior dívida pública foi deixada e em grande parte constituída pelo anterior governo de P. Coelho - 130% do PIB. Vá lá que S. Cabral não chegou à desfaçatez de dizer que o montante desta dívida é culpa do atual governo, mas vontade não lhe faltou. E também é certo que este governo ainda não conseguiu diminui-la. Agora dizer que toda esta dívida é culpa de Sócrates é não perceber nada de economia e adulterar estatísticas. É, em suma, ser mal intencionado. Sócrates endividou o país, é certo, como o fizeram os anteriores governos de Cavaco, Guterres, Durão e Santana. A dívida pública vem de muito longe e S. Cabral, se lesse alguma coisa sobre isso, veria que já no tempo da ex-ministra das finanças Drª Manuela Teixeira os sinos tocaram a rebate. E deveria também saber que o grande alimentador da dívida pública foi o seu amigo Cavaco, denominado "o pai do monstro" pelo seu ex-ministro Miguel Cadilhe.
  • Marco Almeida
    22 mar, 2017 Olhão 12:32
    Diz o articulista "Mas parece que se critica menos quem nos conduziu a tal sarilho – o governo de Sócrates – do que quem, depois, teve e tem que enfrentar este fardo" Ora bem, a dívida no tempo do Sócrates era 94% do PIB em 2010, dívida pública do seu ídolo Pedro Passos Coelho 130.3% do PIB, os números e os relatórios não mentem, ao passo que certas pessoas não sei não.
  • Alexandre
    22 mar, 2017 Lisboa 12:31
    Não foi a dívida pública que deu origem ao pedido de resgate. Esta comparada com as dívidas públicas de alguns estados europeus, estava bem situada. O problema foi a dívida privada. Sarsfield Cabral nada informa como o governo de Passos Coelho deixou a dívida pública, ao sair do governo. Muito pior que o governo de Sócrates.
  • Miguel Botelho
    22 mar, 2017 Lisboa 09:01
    No entanto o realismo de Sarsfield Cabral continua a de estar sujeito aos interesses da «Troika». Ainda não percebeu que o grande negócio da dívida do «FMI» é emprestar dinheiro para depois deixar os estados acorrentados ao seu sistema de pagamento de créditos. Isto já foi explicado no «Keiser Report» (um programa de Max Keiser) que Sarsfield Cabral deveria ver. No entanto, quem não está contra este sistema injusto, normalmente está do seu lado ou repete, como um papagaio, tudo o que dizem. Uma última dúvida: qual a dívida que Sarsfield Cabral está descrever? A privada ou a pública?