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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Tentar perceber

O novo confronto mundial

18 mar, 2017 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O grande confronto, hoje, dá-se entre regimes abertos e liberais, de um lado, e regimes fechados e autocráticos, do outro.

No próximo dia 16 de Abril realiza-se na Turquia um referendo sobre uma lei que dará a Erdogan vastos poderes. Caso vença o referendo, o Presidente turco passará a chefiar o governo, desaparecendo o primeiro-ministro, como acontece nos Estados Unidos. Com algumas importantes diferenças: Erdogan poderá controlar a justiça, incluindo o Tribunal Constitucional, e será autorizado a governar por decreto, ultrapassando o Parlamento.

Será, assim, reforçada a deriva autoritária na Turquia, onde milhares estão presos por motivos políticos, incluindo dezenas de jornalistas. E foram ali realizadas purgas gigantescas nas forças armadas, no sistema judiciário, na educação e na polícia. O motivo – ou o pretexto – foi uma aparente revolução abortada em Julho.

Ganhar este referendo explica, em parte, os insultos que Erdogan dirigiu à Alemanha e sobretudo à Holanda, por terem impedido comícios no seu território com a participação de políticos turcos – como, aliás, fizeram outros países europeus. Porquê tanta violência verbal? Talvez sejam provocações para preparar um corte com os aliados ocidentais – uma sério problema para a NATO, a que a Turquia ainda pertence.

Acirrando este conflito, Erdogan visa também obter os votos dos emigrantes turcos no referendo e ajudar as forças anti-imigrantes e anti-UE em vários países europeus. Parece paradoxal, mas não é.

Aproximação Erdogan-Putin

Existe, agora, um claro alinhamento entre os políticos autoritários, favoráveis à chamada “democracia iliberal”, hostis à integração europeia e à democracia liberal. Erdogan aproxima-se de Putin; a Turquia comprou à Rússia mísseis antiaéreos e antimísseis, que antes eram fornecidos por países ocidentais.

Erdogan, que está a islamizar o seu país, apoia Putin no esforço para enfraquecer as democracias liberais do Ocidente. Em parte por se ter frustrado a prometida integração da Turquia na UE; e porventura, também, porque o islâmico Erdogan aposta vir a liderar um grupo significativo de países árabes e muçulmanos opondo-se aos “infiéis” ocidentais. Países onde, falhada a primavera árabe, predominam as autocracias.

Da parte de Putin não existe propriamente ideologia antidemocrática, mas a exploração de um profundo ressentimento da população russa por ter visto o seu país passar de superpotência no tempo do comunismo para uma mera potência regional, economicamente fraca (sobretudo quando, como agora, o preço do petróleo está baixo). Terá também havido, aí, algum descuido da parte ocidental, que no alargamento da NATO e da UE não teve em devida conta a sensibilidade russa ao cerco.

É o que explica o apoio, incluindo financeiro, que Moscovo actualmente presta aos partidos xenófobos e eurocépticos da Europa. No tempo da União Soviética esta contava com aliados na Europa ocidental – os partidos comunistas, em Itália e França sobretudo; agora Putin cultiva os seus amigos xenófobos e eurocépticos na UE.

Trump do lado iliberal

E os Estados Unidos, como se situam neste conflito? Os EUA estão divididos. Mas é indubitável que Trump e quem o apoia não apreciam a democracia liberal. O Presidente americano, que julgava ter o poder quase absoluto de um CEO empresarial, já começou a perceber que há limites democráticos internos e não gosta deles. E vê a imprensa livre, indispensável à democracia, como seu inimigo principal. Na economia Trump promove o proteccionismo, a rejeição de acordos multilaterais e a hostilidade ao imigrante. Não surpreendem, assim, as curiosas ligações de Trump e seus colaboradores à Rússia de Putin.

O grande confronto actual é, pois, entre sociedades abertas e liberais, de uma parte, e sociedades autoritárias e fechadas, da outra. A novidade é ver os americanos – ou boa parte deles – do outro lado da barricada, combatendo valores democráticos e uma ordem internacional que os EUA ajudaram a construir depois da II Guerra Mundial. Infelizmente, também a UE conta entre os seus membros países cujos governantes defendem a “democracia iliberal”, como a Hungria e a Polónia.

Mas o regime de Trump poderá não durar muito. Como sempre, quando os demagogos chegam ao poder enfraquecem, porque não conseguem concretizar muito do que prometeram. Vejam-se os problemas decorrentes de acabar com o Obamacare: 24 milhões de americanos poderão ficar privados de seguro de saúde. Há congressistas republicanos que não apreciam essa possibilidade, receando pela sua próxima reeleição.

Comentários
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  • ALETO
    20 mar, 2017 Lisboa 08:37
    JMP, acabe-se antes com o domínio dos Estados Unidos da América no Mundo e das suas armas de destruição massiva. Este problema está para ficar.
  • a
    20 mar, 2017 c 07:01
    o democrata cabral prevendo que o regime trump poderá não durar muito...pode ser que se engane! Não há crise...depois ajustam-se as previsões e faz-se novo comentário.
  • JMP
    19 mar, 2017 ÍLHAVO 23:04
    O confronto mundial não é novo. É, cada vez mais, apenas um: entre o proletariado e a burguesia. Parece, por vezes, não ter norte mas na sua base material está o salariato. Acabe-se com o salariato acbar-se-á com as relações de dominação e confronto entre nações!
  • João Galhardo
    19 mar, 2017 Lisboa 23:03
    «Sociedades abertas e liberais», como Israel que ataca a Síria quando quer e bombardeia Damasco, sem cobertura da imprensa internacional. Aquilo que considera ser uma sociedade autoritária e fechada, como a Síria, nem se quer tem o direito de defender o seu espaço aéreo, pois se acertar em cheio num caça ou bombardeiro (como aconteceu este fim de semana), Avignor Liberman, representante daquilo que Sarsfield Cabral considera ser uma sociedade aberta e liberal, vem dizer que destrói todo o sistema de defesa sírio. Parabéns, Sr. Sarsfield Cabral, pelo seu texto elucidativo daquilo que são as sociedades abertas e fechadas ou, digamos, daquilo que o senhor e a imprensa internacional consideram ser sociedades autoritárias e liberais.
  • Justus
    19 mar, 2017 Espinho 21:41
    Texto sem interesse, despido de análise inteligente. S. Cabral retira daqui e dali umas tantas frases e ideias, colocando-as com uma certa ordem para dar a entender que têm sentido, mas não têm. Para S. Cabral, no mundo, só existe a Rússia. os EUA, a Turquia, a Alemanha, a Síria e pouco mais. Mas o mundo e os seus interesses estão longe de se confinar às potências que S. Cabral apelida de "democracias iliberais". Felizmente que deixou de falar em democracia de"esquerda" e "direita" ao verificar que a "direita" de que tanto gostou é completamente estúpida. S. Cabral analisa o mundo como se ele estivesse reduzido aos países mais badalados e logo pelos piores motivos. Não admira porque é daqueles jornalistas que apenas sabem falar do que está à vista, daquilo que os media escrevem e falam porque são superficiais, "ininteligentes" para utilizar o seu "i" de negação e não sabem o que é o rigor e a isenção. O que estes escribas querem é apresentar o seu produto, distorcido da realidade, para depois o vender. O que pretendem é fazer negócio, como autênticos "vendilhões do Templo" Não foram estes escribas que, no tempo do Bush, nos impingiram e propagaram constantemente nos seus escritos a existência de armas químicas no Iraque? Não foi, Sr. Sarsfield? Não venha agora com estas cantigas de países "iliberais", pois sabemos muito bem onde quer chegar: dividir para reinar. Até aqui, reinou com esquerda e direita, agora quer reinar com liberais e iliberais. Valha-nos Deus, Sr. Sarsfield!
  • MASQUEGRACINHA
    19 mar, 2017 TERRADOMEIO 16:21
    Bom artigo, com os factos bem entrosados. Também me parece que a excessiva truculência de Erdogan visa um qualquer objectivo por enquanto obscuro, provavelmente o que o articulista refere, a preparação de um corte com os aliados ocidentais. É o ressurgir do imperialismo otomano, abortado que foi o califado. Suspeito que se aproximem tempos muito difíceis, e a UE neste triste estado...
  • capeta
    19 mar, 2017 Faro 13:13
    A tentativa de alargamento da NATO e da EU, não foi um descuido foi um risco mal calculado. O conflito na Urânia, foi como "cutucar a onça com vara curta" como dizem os brasileiros. Uma sequência de "erros" (calculados ou não), tem sido a intervenção direta ou indireta do ocidente no Médio Oriente. E finalmente, o erro capital foi minimizar a força e a manha de Putin, que se pensava enfraquecido e letárgico. No meio de toda esta confusão, ha no entanto um detalhe que não deixa de me intrigar. Israel, permanece, e é deixado tranquilo, como se nada disto lhe dissesse respeito.
  • António Costa
    19 mar, 2017 Cacém 12:34
    Neste momento, as "jogadas" do "Poker" internacional estão completamente "a meio". Vamos aguardar mais um pouco, sim? Ou como se costuma dizer, "deixe-os pousar". A situação do Médio Oriente é uma autêntica "salada russa". Com russos. (1º) Irão vs Arábia Saudita. (2º) Israel com Medo do Irão, "apoia" a Arábia Saudita contra Irão. (3º) Israel acaba por ter o apoio "total" dos EUA contra o Irão. (4º) Ao ganhar na prática, a Guerra Irão-Iraque, graças à invasão do Iraque pelos EUA, o Irão vê-se "a braços" com uma guerrilha extremamente violenta, por parte dos sunitas. (5º) A Guerrilha Sunita, extremamente violenta "desemboca" em grupos como o "Estado Islâmico". Acabando por tomar projeção mundial, aparecem grupos como o Boko Haram, o Al-Shabaab ou o Abu-Sayyaf. A Ideologia e o financiamento vem todo do "mesmo lado". É também este dinheiro, que financia tanto o "politicamente correto" como a violência terrorista. Por isso é "tabu" falar em "terrorismo islâmico". O silêncio é bem pago!
  • Augusto Saraiva
    19 mar, 2017 Maia 09:13
    Muito bem explicado; Mais explicações destas houvesse! E eu pergunto: Mas, então, "Sô Tor", para que serve ONU, a NATO e o Tribunal Internacional de Haia?!
  • Indignada
    18 mar, 2017 Fig da Foz 22:40
    Embora concorde com alguns pontos deste artigo, dado que vem de um apoiante de políticos nada honestos e que desgraçaram Portugal, caso do socialista MSoares..., será que a sua opinião merece crédito?