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Opinião de Manuel Pinto
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​O papel formativo dos media

13 mar, 2017 • Opinião de Manuel Pinto


Um sinal dos tempos é vermos altos cargos de responsabilidade política e mediática que manipulam a verdade e a mentira como se fossem equivalentes.

Já bastava que muitas das situações e acontecimentos do nosso agitado mundo fossem inquietantes e complexas quanto baste. Em cima disso, como causa e/ou consequência, ainda tinha de eclodir o fenómeno da multiplicação (ou, pelo menos visibilidade) das notícias falsas ou parciais, dos factos alternativos, das meias-verdades marteladas por fazedores de opinião.

Um sinal dos tempos é vermos altos cargos de responsabilidade política e mediática que manipulam a verdade e a mentira como se fossem equivalentes, e segmentos importantes de eleitorados que, conscientemente ou não, apoiam e propagam o que vai de encontro à sua visão do mundo, sem cuidarem da sua consistência.

Há naturalmente efeitos perversos de um tal clima de vale-tudo e relativismo, que precisa de ser enfrentado, compreendido e combatido. Um ponto positivo que se tem vindo a salientar em algumas sociedades é, justamente, o debate e a tomada de iniciativas que ajudem as pessoas, desde a escolaridade básica, a adquirir critérios e instrumentos sólidos de orientação. Naquilo que se fizer é, porém, preciso ir além da “caça às notícias falsas”, facilmente convertível numa espécie de folclórica “caça ao tesouro”, que não permite abrir os olhos para a variedade de formas de mentir e manipular e, menos ainda, para a leitura crítica dos acontecimentos da actualidade.

A iniciativa deve caber a quem tem o papel de formar – famílias, professores, animadores, bibliotecários, editores de conteúdos. Mas não pode prescindir do contributo dos profissionais do jornalismo e dos media. E, aqui, permita-se que refira um pequeno sinal: quando os jornalistas portugueses se reuniram em congresso, em meados de Janeiro último, uma das conclusões gerais que aprovaram, apenas com uma abstenção, foi a “urgência” da “promoção da literacia mediática, com iniciativas no domínio da educação pré-universitária e da população em geral". E, no capítulo das moções sectoriais, aprovaram igualmente, por larga maioria, o pedido, a fazer às instâncias políticas, para que, além de uma disciplina de educação para os media a oferecer pelas escolas, as instituições de ensino superior e as redacções “estudem e lancem projectos orientados para a literacia relacionada com as notícias e os media”.

A par de educadores e professores, jornalistas, editores, directores, documentalistas, cartoonistas, mas também guionistas, argumentistas e produtores não se podem esquecer que, ao fazerem o seu trabalho, estão também a ser formadores.

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  • António Costa
    13 mar, 2017 Cacém 10:30
    Não vale a pena ir ao caso da invasão do Iraque e das mentiras que estiveram por detrás. Vamos ao caso muito recente da Turquia e dos Curdos. Na sequência da intervenção militar da Turquia contra os Curdos, milhares de pessoas morreram. Os dirigentes turcos vieram gabar-se de terem "anulado" milhares de "terroristas". Perante a enorme violência desta operação militar, uma centena e meia de intelectuais turcos, fizeram um abaixo assinado. O objetivo era resolver o diferendo com os curdos, à mesa das negociações. O resultado foram perseguições e prisões arbitrárias. Recordo que por muito menos, no final do ´séc. XX, a Sérvia foi atacada e bombardeada pela NATO, sendo-lhe a "independência" do Kosovo, imposta pela força. Os jornalistas são pessoas e acabam envolvidos nas lutas politicas de verdades e mentiras, como quaisquer outros.