Opinião de Luís António Santos
A+ / A-

Quem más notícias planta...

06 mar, 2017 • Opinião de Luís António Santos


Profundamente fragilizado pela derrocada de modelos de negócio tradicionais e pressionado pelos desafios da produção e consumo em mobilidade, o Jornalismo é um alvo fácil. Está ali, meio inerte, meio esvaziado, com a pele esticada para todos os lados ao mesmo tempo, pronto para receber as críticas e, sobretudo, já sem grande poder para contrariar os abusos.

A responsável por um dos principais partidos políticos nacionais, Assunção Cristas, usou há dias a expressão "notícias plantadas". Perante uma informação pouco simpática para um dirigente do seu partido, divulgada por um diário nacional, a líder do CDS-PP não hesitou em espalhar um manto de suspeita generalizado sobre os média - o mais importante seria mesmo desviar a atenção, fosse de que forma fosse.

Houve, naturalmente, o antecipado impacto político e também mediático. Por momentos, foi mesmo possível deixar nas pessoas uma sensação de dúvida sobre os processos de seleção editorial.

Esta aritmética política simples, de gestão do imediato "custe a quem custar" tem, com cada vez mais frequência, sido construída à custa do Jornalismo. É, afinal de contas, também cada vez mais fácil fazê-lo. Profundamente fragilizado pela derrocada de modelos de negócio tradicionais e pressionado pelos desafios da produção e consumo em mobilidade, o Jornalismo é um alvo fácil. Está ali, meio inerte, meio esvaziado, com a pele esticada para todos os lados ao mesmo tempo, pronto para receber as críticas e, sobretudo, já sem grande poder para contrariar os abusos.

Sabemos bem, com a ajuda da História e com recurso a exemplos recentes noutras latitudes, que este ataque deliberado à credibilidade do Jornalismo tem implicações que em muito ultrapassam as fronteiras da profissão. Mas, no mais das vezes (aqui e noutras latitudes), os danos só são visíveis em momentos críticos.

Não podemos querer um sector mediático responsável e autónomo e, ao mesmo tempo, contribuir de forma deliberada para a sua fragilização. Não podemos exigir ao Jornalismo que assuma, com rigor e transparência, um papel de relevo numa sociedade democrática e plural e, ao mesmo tempo, não lhe dar condições mínimas de sobrevivência (os média não são fábricas de pneus, como em tempos disse Francisco Pinto Balsemão).

Caricaturar os média para benefício instantâneo é algo que não vai terminar (são cada vez mais populares os exemplos de ‘sucesso’) mas importa manter bem presente que, apesar de todos os mecanismos e entidades reguladoras que temos, foi nos média e através deles que primeiro soubemos de muitos dos episódios mais problemáticos da nossa vida comum. E foi nos média e através deles (com o trabalho esforçado de profissionais de grande qualidade) que – enquanto grupo – encontrámos questionamentos e/ou explicações que não foi possível ter de outra forma.

Plantar notícias sobre as notícias plantadas nos média é uma espécie de foguete de festa de Verão - muito barulho de uma só vez, muita fumaça a seguir e muito pouca preocupação com o destino das canas.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • CF
    06 mar, 2017 Beja 21:12
    Uma década atrás num debate televisivo, um ex-mne belga retorquiu a uma diretora de um jornal francófono que vetava nos seus editoriais o líder do partido flamengo mais votado nas ultimas eleições para primeiro-ministro pois este tinha feito uma aliança pré-eleitoral com um partido nacionalista, e esse ex-mne experiente, retorquiu-lhe utilizando a fórmula “a imprensa pode ser o quarto poder, mas não pode ser a quinta coluna”. Claro que a fórmula vale o que vale, isto é, talvez nada. Esse líder flamengo rompeu a aliança, foi finalmente chefe de um governo federal linguisticamente equilibrado, sucedeu-lhe depois um primeiro-ministro socialista francófono num governo igualmente equilibrado e atualmente o governo é liderado por um liberal francófono num governo federal com alguns ministros do partido nacionalista flamengo então excluído. A Diretora deixou de o ser algum tempo depois e continua a escrever editoriais de grande qualidade. O nosso povo na sua sabedoria costuma dizer “o que tem de ser tem muita força”. Claro que a sabedoria popular vale o que vale.
  • António Costa
    06 mar, 2017 Cacém 19:30
    A Humanidade já existe há "algum" tempo. Desde que o Homem existe que as noticias são "plantadas". Os antigos escribas egípcios já faziam isso..(4 000 anos, chegam? )...A chamada "liberdade de informação" é só e apenas a possibilidade de consultar Diferentes Opiniões. Basicamente podermos "visitar diferentes plantações". Diferentes! Apenas isso. Agora "...um sector mediático responsável e autónomo..." Onde? Em que época? Em que planeta? - Evidentemente que as diferenças são perseguidas ferozmente Tanto em Democracia (Informações IGUAIS são repetidas vezes sem conta por órgãos que "respondem" ao mesmo "dono") , como em Ditadura em que os "perseguidos" acabam por se tornar os "heróis de amanhã".
  • MASQUEGRACINHA
    06 mar, 2017 TERRADOMEIO 19:17
    Muito bem observado. De facto, é cada vez mais notório o desamparo (talvez absoluto,) perante a manipulação reinante e já normalizada, em que ficaríamos sem o Jornalismo. Mas como poderá o Jornalismo sobreviver?