Opinião de Luís António Santos
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​Até na Suécia, vejam lá...

20 fev, 2017 • Opinião de Luís António Santos


Trump é um produto de uma lógica mediática que gosta muito de momentos exuberantes em cadeia e os média – nacionais e internacionais – precisam de assumir as suas responsabilidades.

Este fim-de-semana, prestes a completar um mês de exercício da Presidência, Donald Trump brindou-nos com mais uma das suas ‘verdades alternativas’ durante um comício na Flórida. Ao enunciar países que, segundo ele, teriam ido longe demais nas políticas de acolhimento a refugiados e estariam a sofrer atentados terroristas disse algo do género: “olhem para o que se passou ontem à noite [sexta-feira] na Suécia.

A Suécia, quem haveria de pensar? A Suécia. Eles acolheram muitos refugiados e agora têm problemas como nunca imaginaram que iriam ter”. Acontece que na Suécia não se passou nada semelhante. O ex-primeiro-ministro sueco, Carl Bildt, reagiu até com ironia escrevendo na rede Twitter: “O que é que ele anda a fumar?”.

Num mês tivemos, segundo alguns cálculos (certamente falíveis), quase uma centena de afirmações, declarações ou reacções por parte de elementos da Administração Trump contendo dados não verificáveis. E tivemos, invariavelmente, reações de espanto nas redes sociais e nos média seguidas de uma qualquer explicação, correcção ou clarificação (neste caso, o da Suécia, Trump terá dito que falou de algo que viu na Fox News).

Esta quase dança, este circuito de ‘verdadezinha – verificação – verdadezinha alterada’ tem um carácter extremamente lúdico. É um ‘bom produto’ para alinhamentos informativos e é, também, um bom tópico para conversas de café entre amigos. Nasce e morre todos os dias – tem emoção, tem ritmo, tem princípio, meio e fim – e recorre a uma estrutura narrativa que nos é muito confortável e que é usada à exaustão em novelas, folhetins, séries e saga cinematográficas.

Corre, por isso, o risco de entrar com facilidade naquele território da ‘nuvem do banal’, um emaranhado de temas que está presente no nosso dia-a-dia mas ao qual damos já pouco mais do que atenção instantânea.

Acontece que foi precisamente esta a estratégia que garantiu um sucesso eleitoral inédito a um empresário falhado como Trump – os média viveram com deleite os seus desvarios diários, deram deles uma imagem tendencialmente banalizada e ajudaram, assim, a impulsionar um movimento que muito poucos levaram a sério até ser tarde demais.

Trump é um produto de uma lógica mediática que gosta muito de momentos exuberantes em cadeia e os média – nacionais e internacionais – precisam de assumir as suas responsabilidades, tratando a estratégia da nova administração norte-americana com seriedade. Não nos falem só da última escandaleira, por favor. Falem-nos do que está a mudar a sério, enquanto andamos entretidos com isto. Vá lá.
Comentários
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  • Telmo
    20 fev, 2017 Toronto 23:08
    Respeito sua ideia Luis . Mas estas muito longe da realidade hello acorda as pessoas estao e a ficar fartas de politicos mentirosos de viverem uma mentira de nao ver futuro para seus filhos . Isso nao foi trunp que fez forao politicos vendidos
  • Jorge
    20 fev, 2017 Almada 21:25
    Considera Trump um empresário falhado? Quais os critérios que utiliza nessa qualificação? Confesso que não simpatizo com o Trump. Desculpe senhor comentador, apesar de nos estar a alertar para o que a postura ridícula de Trump esconde, está a cair no mesmo saco do Trump.
  • Ana
    20 fev, 2017 Oeiras 20:08
    É verdade que, enquanto nos destrai com escandaleiras, se preparam medidas económicas e estratégias políticas que merecem muito mais atenção, pelas consequências a médio-longo prazo em todo o mundo. No entanto, devo dizer que o primeiro ministro sueco vive num outro mundo...Eu sigo a imprensa internacional e lembro-me de, pelo menos, duas ocasiões (num festival de música e num assalto a uma casa privada) que foram praticadas por refugiados. Claro que foram tratadas como crimes comuns mas dá para perguntar se os suecos se sentem seguros e se eles (o povo sueco) não acham que tem alguma coisa a ver com a falta de controlo dos refugiados entrados...
  • Dias
    20 fev, 2017 Mafra 19:31
    Boa noite Sr. Luis Santos. O Trump não falou em atentados mas no caos que assola a periferia de grandes cidades europeias donde já os próprios locais fogem. As autoridades chamam zonas sensíveis e recomendam à população que evite esses mesmos bairros. São na verdade bairros perigosos . Sugiro que veja novamente o video onde alegadamente dizem que o Trump inventou um atentado.
  • MASQUEGRACINHA
    20 fev, 2017 TERRADOMEIO 18:19
    Na mouche. É mesmo isso - enquanto andamos risonhamente entretidos com os fait divers de teatro do absurdo de Trump, eles lá vão somando e seguindo. Resta-nos a esperança de que os média se mantenham sóbrios e atentos ao essencial: há coisas muito, mas mesmo muito sérias a acontecer, ainda que com máscara de palhaço.
  • j
    20 fev, 2017 al 16:09
    Mais à frente irão dar razão ao Trump.Se não fossem as ações do Trump isto já parecia uma rebaldaria com tanto refugiado.