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Reportagem - Montejenses querem novo aeroporto, desde que não acabe com as ameijoas - 14/2/2017 - Filipe d
Reportagem - Montejenses querem novo aeroporto, desde que não acabe com as ameijoas - 14/2/2017 - Filipe d

Reportagem

O Montijo diz "sim" ao novo aeroporto. Desde que não acabem as amêijoas

14 fev, 2017 • Filipe d'Avillez


O PCP é a voz dissonante num quase consenso: os montijenses querem que a Base Aérea N.º 6 receba voos comerciais. E acreditam que os estudos de impacto ambiental não vão pôr em causa a obra.

Decorria o ano de 1553 quando a Aldeia Galega do Ribatejo foi escolhida para albergar a sede da rede de transporte de correio, e mais tarde também de passageiros, entre Lisboa e o Sul do país, conhecida como a Mala-Posta do Sul.

A Aldeia Galega do Ribatejo chama-se hoje Montijo e para o presidente da Câmara, Nuno Canta, esse elo histórico é apenas uma das razões para querer colocar os aviões comerciais a aterrar e descolar no que é actualmente a Base Aérea N.º 6, ao serviço da Força Aérea Portuguesa.

“Tem a ver com a questão da cidade das duas margens”, diz Nuno Canta. “Achamos que esta localização vai no sentido da criação de uma área metropolitana de Lisboa mais coesa territorialmente e também economicamente, o que equilibra as duas margens do Tejo em termos de criação de riqueza e de criação de empregos”, explica.

“Depois, tem a ver com questões históricas do Montijo”, continua. “O Montijo foi sempre uma terra ligada aos transportes para a capital. Essa ligação já tem mais de 500 anos, com a Mala-Posta do Sul, que aqui se localizava. Esta estrutura de transportes que virá para cá, para a Base Aérea N.º 6, é uma continuidade desta história. Há aqui razões económicas, razões históricas e, como é claro, razões também de desenvolvimento.”

A decisão final ainda não está tomada, mas na cidade do distrito de Setúbal são poucos os que acreditam que não será o Montijo a acolher a expansão do aeroporto de Lisboa.

Os prometidos estudos ambientais não preocupam Nuno Canta. Estes são tão caros que, acredita o autarca, só se fazem depois de ter escolhido o local: as conclusões servirão, diz, para adaptar a solução de construção e não para a pôr em causa.

O presidente da Câmara do Montijo afirma que não abdica do respeito pelos factores ambientais. “Estamos sempre a falar de um desenvolvimento com base na lei e no respeito integral pelos recursos naturais e pelo ambiente. Isso parece-me fundamental. Tudo isso tem de ser acautelado nessa fase, sendo certo que, como todos sabemos, naquele local já funciona um aeroporto”, lembra.

É precisamente o facto de já existir uma base aérea em utilização que sossega a esmagadora dos montijenses com quem a Renascença falou. À porta de um café, encontramos Fernando, Nuno, Carlos e António. Partilham do pensamento do autarca. “Já estamos habituados à base… Já caíram três aviões e não tivemos problema nenhum com isso”, brinca Fernando. Nuno interpõe rapidamente, entre risos: o que “pode acabar são as amêijoas!”

O que nos conduz à questão ambiental. Carlos recorda que quando se construiu a Ponte Vasco da Gama também se falou muito do impacto, mas “continuou tudo na mesma”. “Os aviões estão cá à mesma”, atira António.

Mas o ambiente não é a única coisa que irá ser impactado pela adaptação da Base N.º 6. Há também todo o impacto social que se espera. Desenvolvimento, claro, mas a que preço? Não se teme a descaracterização do Montijo?

Nuno Canta diz que esse não é um medo, mas um desafio que, confia, os montijenses vão conseguir superar. Nas ruas da cidade repete-se um rol de boas razões para ali construir o aeroporto: o desenvolvimento só vai beneficiar a terra, permitindo a criação de mais empregos, o enraizamento das famílias e o regresso de uma dinâmica que, queixam-se, há anos que abandonou o local.

PCP está contra

Com tantas vantagens e tanta esperança, haverá alguém que seja contra o novo aeroporto? Nuno Canta diz que sim. Há aqueles que receiam perder a tranquilidade, mas há também o PCP do Montijo que, seguindo a orientação do partido a nível nacional, continua a preferir a solução do Campo de Tiro de Alcochete.

E é precisamente na sede do PCP que encontramos, finalmente, uma montijense que dá a cara contra o aeroporto. Sentada do outro lado de um portátil adornado com um autocolante que a proclama “benfiquista e antifascista”, explica-nos que os comunistas são contra porque preferiam a construção faseada de um aeroporto novo em Alcochete.

A posição do partido a favor da opção Alcochete é recordada num artigo na edição do jornal “O Avante” de 2 de Fevereiro: “As razões por nós invocadas eram óbvias: Portugal precisava de uma solução de futuro, 50 anos depois da Portela; as perspectivas de evolução do tráfego aéreo – quanto mais não fosse pelo desenvolvimento tecnológico na área e pela massificação da utilização deste meio de transporte – eram de franco crescimento, como se veio a confirmar; os terrenos públicos (…) [do Campo de Tiro de Alcochete] tinham a vantagem de evitar a especulação e diminuir significativamente os custos do investimento; o essencial dos estudos de viabilidade económica, mas também de segurança, de impacto social e ambiental, davam clara vantagem a esta hipótese.”

Para o presidente da Câmara do Montijo, a adaptação da base do Montijo para receber voos comerciais limita-se a pôr fim a seis décadas de espera.

“O aeroporto da Portela, quando foi construído era provisório, e esteve provisório até ao último Governo que privatizou a ANA. O aeroporto da Portela era para ser desmantelado, era um aeroporto a prazo, e seria desmantelado quando houvesse uma grande infra-estrutura a Sul. Essa foi sempre a ideia, desde o Estado Novo. E isso nunca se veio a concretizar – e estamos a falar aqui de um tempo de 60 anos”, explica Nuno Canta.

“Portanto, eu diria que, para termos a certeza que o aeroporto vem para a Base Aérea Nº 6, temos de ir dando passos”, conclui. Passo a passo, rumo ao aeroporto: a maioria dos montijenses não acredita nem quer que o destino seja outro.

Comentários
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  • Manuela da silva
    25 abr, 2017 Montijo 01:25
    Sou absolutamente contra. Já moro no sítio onde passa os aviões da base e já chega de barulho... Estão se a preocupar com as amêijoas que são apanharas por uma certa população e vendidas a bom preço e a maior e transportada para Espanha. Mas isso ninguém se preocupa em fazer uma lota afim que seja legal é controlado. Ninguém se preocupa com a reserva natural da região. O aeroporto seria muito melhor em alcochete onde há muito espaço ou em Leiria onde justamente já foi contruido e está às moscas. Mas penso que é tudo uma questão de interesses de dinheiro.....
  • orfeu
    17 fev, 2017 11:01
    Fala-se tanto em aquecimento global, degelo, subida das águas e vão fazer um aeroporto mesmo a jeito de ficar submerso!!!
  • Cags
    16 fev, 2017 Lisboa 23:45
    Montijo... jamais, jamais!
  • Ana Silva
    15 fev, 2017 Montijo 22:58
    O Montijo concorda é como quem diz este senhor não fala por todos. Impacto ambiental não conta!!?? Desde quando?! E problemas não são amêijoas são as aves flamingos e outras. Estamos numa reserva ecológica ou vão fazer outro freeport? E não tem nada a ver com cor politica, não sou comunista e NÃO concordo. Tenho casa que já fica na passagem dos aviões da base e chega estruturas danificadas descanso interrompido etc etc. Mais emprego onde? Os passageiros vão directos à capital nem sabem para que lado fica o Montijo.
  • Provincianismo
    15 fev, 2017 Montijo 19:08
    Tudo que os idiotas se preocupam são as amêijoas? Portugal merece ter os políticos amêijoas que têm.
  • Vasco
    15 fev, 2017 BXB 15:13
    Ou Monte Real ou Alcochete, chega de remendos.
  • Victor Costa
    15 fev, 2017 Pombal 09:56
    Penso que a Base aérea nº6 foi escolhida, para "o novo aeroporto" , só por interesse de alguém que por ali tenha alguns valores negociáveis. Penso que a BA Nº5, situada na zona de Monte Real, Leiria, tem maior viabilidade, pois tem espaço para fazer mais uma pista e, ainda, não são necessárias novas acessibilidades pois a A1 passa muito perto e a A17 também. Note-se que a riqueza empresarial se situa a Norte de Leiria e o País, paisagisticamente, é mais bonito para Norte do que Para o Sul. Também é de notar que entre Lisboa e o Porto não existe mais nenhuma infraestrutura onde possam aterrar aeronaves de algum porte.
  • Sergio
    15 fev, 2017 Lisboa 09:11
    Então mas... o Tejo não estava poluído? Deve ser de qualidade essa ameijoa...
  • Aviadoraposentado.
    14 fev, 2017 Lisboa 19:26
    Não sou nem nunca fui comunista. Mas se alguma vez eles tiveram razão é agora. O mais sensato e lógico é a construção faseada do aeroporto em Alcochete. É precisamente o problema de quem fica com as "massas" que se está a sobrepor ao interesse social e nacional.
  • Carlos Silva
    14 fev, 2017 Amora - Seixal 17:16
    Será porque Alcochete não tem nada e é uma terra de forte implantação do PCP? É que isso ia dar umas massas ao partido!