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Opinião de José Miguel Sardica
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A aflição europeia

08 fev, 2017 • Opinião de José Miguel Sardica


A minha geração, e a mais nova, estão muito habituadas a viverem “na Europa”; não se lembram das imensas dificuldades e incertezas de quando ela não existia ou de quando Portugal lhe estava à porta.

Houve um tempo em que a UE fazia parte da solução. Para os países ricos do norte e para os países pobres do sul (de adesão mais recente), a União Europeia era o caminho – para que os ricos continuassem a liderar o mundo e os pobres beneficiassem da convergência que melhoraria as suas vidas. Mas desde há uns anos, com a burocratização das instituições comunitárias, com a crise das dívidas soberanas e com o assalto dos populismos e terrorismos, parece que a UE passou a fazer parte do problema. Os mais críticos dirão até que a UE é o problema – e que as lideranças europeias são a encarnação disso mesmo.

Em 2016, o eurocepticismo transformou vários actos eleitorais em testes à ideia do projecto europeu. E muitas eleições aprazadas para este ano de 2017 seguirão tal senda. Cada derrota do sistema foi saudada pelas franjas euro cépticas; e a cada vitória magra deste, deu-se um suspiro de alívio. Não sou tão euro entusiasta quanto outros, porque não posso ver sem reserva a forma como a União se vai fechando e entregando poderes e soberanias a entidades (como o todo-poderoso Eurogrupo) não fiscalizáveis pela democracia ou pelo voto. Mas reconheço facilmente que a construção europeia foi um dos maiores projectos políticos e de relações internacionais da segunda metade do século XX, dando ao velho continente décadas de paz e prosperidade. Talvez o problema seja de memória.

A minha geração, e a mais nova, estão muito habituadas a viverem “na Europa”; não se lembram das imensas dificuldades e incertezas de quando ela não existia ou de quando Portugal lhe estava à porta. E da mesma maneira que só apreciamos a saúde quando estamos doentes, corremos bem o risco de só apreciar a Europa se, ou quando, já não a tivermos.

Em 2016, a UE tremeu a cada eleição. Trata-se de uma situação abstrusa, porque é ilógico que as democracias temam o mecanismo de base que as funda, justifica e alimenta. E tudo foi pior no caso dos referendos – que os próprios governos transformaram em plebiscitos, e que serviram de pasto fácil às demagogias e aos populismos. A imprudência de David Cameron, em luta doméstica contra o UKIP, atirou o Reino Unido para fora da UE. Depois, a precipitação de Matteo Renzi (propondo uma revisão constitucional destinada a blindar o executivo), atirou a Itália para a incerteza.

De governo em governo, e se estes durarem até às eleições de 2018, Beppe Grillo vai ficando mais perto do Palazzo Chigi. Na Áustria, Norbert Hofer quase conseguiu a Presidência para uma ultra direita pouco europeísta e muito nacionalista – o que não pouco assustaria Bruxelas. Finalmente, o fracasso de François Hollande (depois de um mandato castigado pelo terrorismo), levou-o a desistir da recandidatura ao Eliseu, um abandono que François Fillon ou Benoît Hamon tentarão preencher este ano, mas que, por ora, só traz contente Marine le Pen. Como esperançado anda Geert Wilders, que vai em breve a eleições na Holanda.

Por toda a parte, líderes democráticos europeus arriscaram demais, chantagearam eleitorados (ou não os compreenderam), amuaram e foram embora, ou desistiram. A hora não está fácil para políticos euro entusiastas que sejam em simultâneo democratas, carismáticos e populares. E nunca a Europa precisou tanto deles. Sobretudo neste ano de 2017, quando demagogos de toda a espécie espreitam a cada esquina, e quando o velho mundo vai ficar mais sozinho perante a anunciada deserção isolacionista dos EUA de Trump ou uma possível pressão imperialista de Putin – dois dos grandes, senão mesmo os maiores, euro críticos com mais poder.

Comentários
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  • Indignada
    11 fev, 2017 Fig. da Foz 17:49
    Dr. Sardica, convinha ser um pouco mais honesto e referir que a Europa de que fala, pouco ou nada tem a ver com a Europa idealizada pelos pais da CECA no Tratado de Roma, o qual previa uma maior relação entre os europeus, mas sem afectar as suas soberanias, as suas identidades e NUNCA aceitar uma invasão de selvagens muçulmanos que querem vir viver à nossa custa. Em suma, fomos TRAÍDOS e é contra isso que os europeus maduros, com dignidade lutam! Colabore.
  • Bastos
    09 fev, 2017 Lisboa 11:58
    È um artigo demasiado extenso para ser comentado na totalidade.As eleiçoes na Holanda estão inquinadas com a violência contra os mais idosos e insuficientes que são aconselhados a sair ou são eutanasiados.Tal como Passos aconselhou os desempregados a emigrar, na Holanda País super lotado demogr´ficamente a ordem instalada é para abater.Muitos votos da esquerda estão a migrar para a direita radical e vamos ver no q isto dá.
  • Edulrs
    08 fev, 2017 Faro 22:13
    Houve democratas a arriscar demasiado, não lideres, esse foi o problema, os que deviam ser democratas transformaram-se em tecnocratas e os que deviam ser lideres transformaram-se em lacaios da corrupção, aqui temos a tão falada falência da democracia que abre portas a uma nova era de incertezas e muito oportunismo, populista, especulativo e terrorista, todos articulados por quem amanipula as fraquezas de espírito de quem nasceu e cresceu em gerações que ou nunca souberam o que se sonhou para o mundo evoluído ou ja se esqueceram da necessidade desse sonho.
  • MASQUEGRACINHA
    08 fev, 2017 TERRADOMEIO 19:24
    Um artigo muito a puxar ao óbvio, muito certinho. Como nada do que tenho lido do articulista me leva a achar que o mesmo tenha um particular sentido de humor ou da ironia, creio que fala a sério quando diz que "a União Europeia era o caminho - para que os [países] ricos continuassem a liderar o mundo e os pobres beneficiassem da convergência que melhoraria as suas vidas". Não seria antes para que os países ricos garantissem a existência de mercados permanentes, controláveis e próximos? E bolsas de trabalho a mais baixo custo? De facto, são os ricos, empresas sobretudo, mais do que países, quem lidera o mundo. E todos os benefícios da convergência e efectivas melhorias de vida dos países pobres só aconteceu na justa medida dos interesses económicos dos países ricos, como a história recente e presente bem prova. Mesmo supondo as mais excelentes intenções dos pais fundadores da UE (a paz incluída), elas só existem, só subsistem e só continuarão a existir enquanto isso servir os objectivos dos ricos - sejam eles países, empresas ou indivíduos. Deixemo-nos de poesias patéticas, de listagens de coisas óbvias, de negações da evidência cada vez mais evidente - e tratemos mas é de meditar e opinar em como corrigir esta trajetória enquanto é tempo. Se ainda for a tempo, há que impor limites políticos à ganância, à sede de poder e ao desprezo pela democracia, que minam e corrompem a própria ideia de humanidade. Não nos dispersemos.
  • Marco Almeida
    08 fev, 2017 Olhão 18:57
    José Sardica diz: a construção europeia deu ao velho continente décadas de paz e prosperidade. Vamos lá a vêr se a gente se entende, depois da 2 grande guerra que serviu de exemplo para muita gente a única coisa que houve foi conflitos internos e ponto final e daí a coisa não passaria nem evoluiria para coisa maior porque a Nato não deixaria, segundo, essa tão proclamada paz bélica virou uma tremenda guerra financeira com custos muito maiores para a Europa, arruina e destroi familias governos e Países inteiros e com isso ninguém se parece preocupar, quanto aos Ingleses e o seu Brexit, pois deixaram de têr um mercado livre de 550 milhões de pessoas para abraçar um mercado com 7.15 mil milhões já descontando a Europa, ou eu sou muito burro ou acho que ficaram a ganhar.
  • Zé Açor
    08 fev, 2017 Açores 16:18
    Porque não deixa o Júlior de ser também calaceiro? Porque perdoaram à Alemanha os milhares de milhões que lhe foram disponibilizados para apoio à parte oriental da Alemanha a quando da reunificação, e ela não é capaz de pedoar aos "calaceiros" do Sul nem de pagar as compensações de guerra devidas à Grécia pelas destruições causadas peos nazis n 2ª GM? Quem acabou por dominar a Europa, após 2 tentativas bélicas infrutíferas, mas vitoriosa à terceira, uma insidiosa guerra económica?
  • João Galhardo
    08 fev, 2017 Lisboa 14:55
    Antes de enviar esta mensagem, espero que o Sr. Miguel Sardica e a Renascença não censurem esta minha mensagem. Eu gostaria de relembrar ao Sr. Sardica que vivemos em democracia, onde existe o direito à livre opinião. A ideia de censurar e apenas deixar que certas mensagens ou opiniões sejam transmitidas, pertence a um passado na nossa história que todos queremos esquecer. Registo a sua opinião sobre o tema, mas discordo, pois julgo que não fez uma investigação rigorosa sobre o caso europeu.
  • JULIO
    08 fev, 2017 vila verde 10:38
    Os trabalhadores dos paises do norte ,estão cansados de trabalhar para os calaceiros do sul, e ainda serem insultados
  • Alexandre
    08 fev, 2017 Lisboa 09:29
    O Miguel Sardica quer acreditar numa Europa que se deixou subjugar aos interesses de Wall Street e que comprou os derivativos tóxicos dos americanos, só porque Angela Merkel vive com uma Alemanha refém do exército americano? Quantas bases militares americanas se encontram estacionadas na Alemanha? A ideia de uma Europa subjugada por interesses financeiros americanos, ao ponto da estratégia ser a de lutar contra a Rússia e ajudar um regime «nazi» e tirano em Kiev, não é boa. Ainda por mais quando uma das mulheres que organizou esse apoio, Victoria Nulan, disse «fuck EU!» A Europa não pode continuar a seguir as estratégias falidas dos Estados Unidos da América.