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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Não branquear Trump

04 fev, 2017 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O novo presidente dos EUA já mostrou os valores pelos quais se rege. Não são os que levaram à afirmação da democracia liberal. A opinião de Francisco Sarsfield Cabral.

Acabada a campanha eleitoral, Donald Trump foi um presidente eleito muito interventivo, contra a tradição americana. E na Casa Branca continuou a actuar, não como chefe de Estado, mas como líder de um pequeno grupo de familiares e amigos.

Viu-se quando há uma semana proibiu a entrada nos EUA de refugiados sírios e suspendeu a proveniente de sete países de maioria islâmica. Não informou (e muito menos consultou) os departamentos competentes da Administração americana, gerando a maior confusão nos aeroportos. E teve que recuar, quando percebeu que não podia impedir pessoas com licença de residência nos EUA de entrarem no país.

Escreveu o "Financial Times" em editorial: “Se Trump está preocupado com países cujos nacionais estiveram envolvidos em atrocidades recentes, a ausência (na lista das nacionalidades que não podem entrar nos EUA) de nações como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Paquistão é difícil de explicar. Que o presidente tenha interesses empresariais em vários países que curiosamente não figuram na lista, e não tenha interesses em qualquer dos incluídos, não dá à lista qualquer legitimidade”.

Cumprir as promessas

Elogia-se Trump por estar a cumprir o que anunciou na sua campanha eleitoral. Só que muitas dessas promessas são sinistras e aceder ao poder não deu a Trump um pouco mais de bom senso.

Mas não falta, mesmo em Portugal, quem ainda alimente esperanças de que o homem poderá vir a revelar-se não tão mau como isso. E quem peça mais tempo para ter uma opinião fundamentada sobre o novo presidente americano.

Sublinha-se, por exemplo, que tendências políticas, como o isolacionismo ou o proteccionismo, têm uma larga presença na tradição e na história norte-americana. Ou que o sistema político americano, com os seus “freios e contrapesos” (checks and balances), limitará o poder presidencial de Trump. É verdade, mas Trump é uma novidade absoluta.

Claro que outros políticos, que criticam o novo presidente, também mentiram; é um problema da política, desde sempre. E os adversários de Trump nem sempre têm manifestado um grande respeito pela tolerância. Mas isso não justifica Trump, que é o líder da única superpotência mundial e – até há pouco – o grande baluarte da democracia liberal e do Estado de direito.

Por cá, o Presidente da República relativizou o distanciamento de Donald Trump quanto à Europa, afirmando que existe “uma tradição isolacionista” dos presidentes norte-americanos quando iniciam funções. Só que este presidente é radicalmente diferente dos presidentes que o precederam. De Truman a Obama, os presidentes dos EUA apoiaram a integração europeia; Trump saúda o Brexit e dá-o como exemplo a seguir por outros membros da UE.

Decerto que Trump, contradizendo posições suas anteriores, criticou, com brandura, a multiplicação de colonatos por Israel; e a sua embaixadora na ONU disse que seriam mantidas as sanções à Rússia por causa da anexação da Crimeia. Resta saber qual é, de facto, a política externa de Trump, que parece algo variável e imprevisível, sem estratégia clara.

O problema fundamental está no carácter de Trump e nos valores que preza. Ele é presidente da mais poderosa nação do mundo; a “pós-verdade” funciona como um manto de ilusão que o faz viver num mundo virtual. Viu-se quando se empenhou em garantir que na sua tomada de posse tinha estado presente mais gente do que em qualquer outra – uma ridícula falsidade, na qual ele provavelmente acreditava.

Falta de sentido ético

Trump revela uma sensibilidade destituída de um mínimo de ética. Repare-se na questão da tortura, em que ele já teve várias e contraditórias opiniões. Só que essas opiniões nada têm a ver com os direitos humanos ou com a dignidade das pessoas, mesmo suspeitas. Para Trump, trata-se apenas de saber se a tortura é ou não eficaz (muitos militares, incluindo felizmente o novo ministro da Defesa, general Mattis, entendem que não, pois muitos torturados dizem o que for preciso para se livrarem do sofrimento). Aliás, também existem convenções internacionais que proíbem a tortura, mas direito e organizações internacionais pouco valem para Trump.

O novo presidente foi eleito graças à revolta de um grande número de americanos que se sentem marginalizados, com os seus rendimentos quase estagnados desde há décadas, enquanto um pequeno número (o tal 1%) vê a sua riqueza aumentar em flecha. Mas neste governo de multimilionários que é o de Trump não se vislumbram pessoas preocupadas com as crescentes desigualdades; ou com melhorar a vida dos pobres. O próprio Trump elogiou-se a si próprio pela sua esperteza em encontrar esquemas de fuga legal aos impostos, que outros menos ricos tiveram pagar por eles e pelo que faltou a Trump pagar.

Mais: Trump quer baixar impostos aos mais ricos e deitar para o lixo muitas das regulamentações financeiras criadas após a crise global desencadeada pelo crédito de alto risco (subprime). E houve quem se mostrasse perplexo com a alta das acções em Wall Street após a eleição de Trump…

O homem não pode ser considerado um débil mental ou pouco inteligente. É tudo menos isso, o que o torna particularmente perigoso. Há que levar a sério a ameaça que ele representa, não o branqueando.

Comentários
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  • Horacio
    07 fev, 2017 Lisboa 18:35
    Não vai demorar muito para todos verem quem é o verdadeiro Trump. E posso dizer com certeza que não vão gostar. Nos anos 80' senhora portuguesa me disse que gostava muito do Trump e que ele devia de se candidatar a Maior de nova York e logo começou uma discussão com algumas pessoas que o conheciam .mas afinal perguntou um "o que é que você sabe sobre esse sujeito , que não o conhece que o compre". Então procurei saber mais sobre Donald J Trump era fácil mesmo antes de ser político ele adorava aparecer na média e dar entrevistas ,tinha opiniões sobre tudo .na maioria desastradas. Era considerado um empresário medíocre que tinha herdado uma fortuna e os contactos do pai e ia acabar com essa fortuna. Depois veio a falência o calote aos fornecedores e em seguida o livro The Art of The Deal ( o verdadeiro autor garante que é tudo ficção) mas o Mito estava criado .depois vieram programas de televisão a fama .os negócios de licensing ( alguns desastrados como a Trump univesity, e condomínios que nunca forram entregues). O dinheiro começou a voltar e ele começou ater novamente opiniões desastradas ."devíamos de roubar o petróleo aos árabes ,não sei porque Bush não ficou com o petróleo " "o Obama não é cidadão americano". "O povo mexicano são estrupadores e traficantes e talvez alguns sejam boas pessoas". "O mundo inteiro abusa dos Estados Unidos nós somos explorados por todos". "Não existe aquecimento global,olhem com esta frio em nova York precisamos de aquecimento global".etc
  • Ana GONÇALVES
    06 fev, 2017 Lisboa 03:17
    Quem elegeu Trump ,foram os operários,as classes mais desfavorecidas e os mais pobres. Basta ver quem está contra Trump. As grandes empresas ,Soros, os Lobys os actores milionários que vivem em palácios e andam pelo mundo de avião privado. Se não entende isto é pena. Trump ,tem 50 Milhões de seguidores nas redes sociais."
  • J
    05 fev, 2017 Lisboa 22:23
    Ao sr. Trump deve ser dada toda a largueza. Em breve, ele colherá o que semeia.
  • MASQUEGRACINHA
    05 fev, 2017 TERRADOMEIO 18:33
    Os líderes e reis do passado eram-no no passado - um passado não tão longínquo assim, em que os direitos de conquista incluíam o direito natural à pilhagem, à violação e à escravização dos vencidos.Creio que é melhor deixarmos essas gloriosas figuras e direitos aonde pertencem, que é ao passado. E à história, evidentemente, para ver se conseguimos aprender alguma coisa. Todas as sociedades, e em particular as de tipo ocidental estão, para o bem e para o mal, estreitamente ligadas aos EUA, pelo que Trump não é só um problema interno deles, que eles resolverão. Dos seus actos recolheremos, todos nós, consequências. Trump é um problema nosso. E agora uma questão verdadeiramente séria: já se sabe se afinal choveu, ou se a chuva se susteve, durante aquele admirável discurso de tomada de posse? A net já concluiu alguma coisa que nos alivie desta dúvida que nos atormenta?
  • Justus
    05 fev, 2017 Espinho 15:07
    Trump, Trump e Trump! Sarsfield Cabral não faz outra coisa que não seja desancar em Trump, dia sim, dia sim. Não simpatizo com Trump nem admiro as suas ideias e políticas. No entanto, não se pode dizer que seja um trapaceiro, que promete uma coisa e faz outra, como aconteceu aqui no passado recente, sendo certo que estes vira casacas que por cá andaram a prometer uma coisa e a fazer outra, foram sempre defendidos (pelo menos com o seu silêncio) por Sarsfield. Depois, Trump foi eleito para governar o seu país, não para governar o mundo e os múltiplos interesses subjacentes. Para quem não faz nada pelo seu povo e o deixa cair na miséria e no desemprego, como aconteceu aqui no passado, é claro que a emigração forçada é a tábua de salvação (vão para o estrangeiro, dizia Passos Coelho aos desempregados). Os incompetentes querem que os outros tomem conta do seu povo, porque no seu país não são capazes de lhe dar o mínimo de subsistência. Trump tenta defender o seu país de invasores, que diz serem malfeitores, criminosos e terroristas. Estará no seu direito, suponho eu. Por cá também já tivemos líderes e reis que, no passado, expulsaram e impediram de entrar no território romanos, árabes, castelhanos, etc., etc. A defesa dos povos, da sua riqueza e civilização é uma constante da história. Sarsfield Cabral desconhece tudo isto, assim como desconhece que, nos nossos tempos como já foi no passado, a segurança dos povos é praticamente a primeira tarefa de qualquer governante.
  • António Costa
    05 fev, 2017 Cacém 10:01
    "....a ausência (na lista das nacionalidades que não podem entrar nos EUA) de nações como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Paquistão é difícil de explicar..." mais palavras, para quê? Sim, porque o 11 de Setembro não foi realizado por mexicanos! Ainda à pouco mais de um ano, populações drusas atacaram ambulâncias de Israel e executaram os feridos que transportavam! Soldados israelitas? Não! Eram "apenas" combatentes do Estado Islâmico! Israel para fazer a vida difícil ao Hezbollah e ao Irão, os seus maiores ( únicos? ) inimigos na Região está a apoiar os "assassinos" do EI! Assim o Estado Islâmico, executou milhares de Palestinianos, em campos de refugiados na Síria perante a Indiferença Total da Comunidade Internacional! Se a "lista dos países" foi realizada por Obama, é ainda pior! Se a "lista de países" estava mal feita, porque não seguiu o mesmo caminho do "ObamaCare"?
  • Carlos Costa
    05 fev, 2017 Parede 03:55
    Sobre a tomada de posse ninguem fala ou escreve que a tomada de posse de Obama em Janeiro de 2013 coincidiu com o Martin Luther King Day que sendo feriado celebra-se sempre na terceira 2 feira do mes. Washington DC esta sempre cheio nesse feriado. Ninguem reporta os cordoes de manifestantes anti-Trump que impediram milhares de pessoas de entrarem no recinto. Mesmo assim as fotos e videos VERDADEIROS (felizmente por enquanto temos a net...) e nao manipulados pela CNN mostram um recinto cheio ate ao monumento e milhares de pessoas que estiveram junto e alem deste. Sobre a CNN e espantoso o credito que os europeus dao a este orgao de informacao que utiliza actores como pivots ou p.e. a fantastica reportagem "live" do inicio da primeira guerra (anos 90) do golfo em que 2 pretensos jornalistas, pretensamente em Bagdad, colocavam mascaras de gas filmados sobre um fundo azul (tecnologia de ponta na altura) enquanto se ouviam sirenes de aviso dos bombardeamentos. Carlos Fino da RTP foi o unico que estava VERDADEIRAMENTE live no momento....
  • 04 fev, 2017 21:29
    Será que quando morrem perto de tres mil pessoas na mesma hora, quando se ataca num supermercado, num museu está o bom senso em questão? Será que pelo facto de os alemães acolherem milhares de refugiados foram poupados em Dezembro de 2016?
  • Ana
    04 fev, 2017 Oeiras 19:30
    Correcção : a lista de países foi elaborada pelo governo Obama, não foi criada pelo governo Trump.Este limitou-se pôr em execução um plano já existente. Nova correção : Nuno Rogeiro, na televisão (canal 2, salvo erro) mostrou como as fotos da tomada de posse foram mais uma manipulação (dos tais democratas). A foto da tomada de posse de Obama foi tirada na hora e a de Trump, várias horas antes da tomada de posse. Preciso explicar porque parecem tão diferentes ? Ele mostrou uma outra tirada na posse do Trump (perspectiva da mesa para a praça) e não se verificava a tal discrepância óbvia. Certo, Trump tem a personalidade egocêntrica requerida a um populista, mas nada mostra que seja mais do que isso. Não tenta (ao contrário dos chamados "democratas") manipular a informação, calar os "media", impedir manifestações, impedir os mecanismos legais que o limitam de actuar. Além do mais, o sistema tem funcionado na limitação dos excessos. É pena que os tais "democratas" usem todos os meios (que chegam ao reles) para marcarem pontos. É que, no fim, são eles que ficam a perder, acredite.
  • MASQUEGRACINHA
    04 fev, 2017 TERRADOMEIO 18:51
    A minha vénia ao Sr. S. Cabral. Há, de facto, momentos em que temos que chamar as coisas pelo nome, sem paninhos quentes - mesmo que isso nos doa um pouco, ou até nos desiluda. O perigo representado por Trump é real e imediato: achar que se deve esperar para ver no que a coisa (mais ainda) dá ou alimentar ilusões de que a responsabilidade do poder tornará razoável um megalómano, é estúpido. No artigo, explanam-se algumas das principais razões disso mesmo.Trata-se de um daqueles momentos em que, por uma questão de simples princípio, se tem que tomar partido, e o Sr. S. Cabral tomou, de forma muito clara, o seu.