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Opinião de João Ferreira do Amaral
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​A mentira do guarda-chuva

03 fev, 2017 • Opinião de João Ferreira do Amaral


A moeda única fez perder todas as protecções que os países, em particular os menos competitivos, dispunham relativamente aos choques da globalização.

Quando da criação da moeda única, um dos argumentos a favor que mais se esgrimiam era que o euro iria servir de uma espécie de guarda–chuva protector face aos malefícios da globalização. Os europeus - diziam com orgulho os federalistas – iriam ficar protegidos de todas as vicissitudes globais e poderiam assim aprofundar o seu modelo social.

É difícil, hoje, entender como tal patranha conseguiu vingar, mesmo em círculos que se diriam melhor informados.

Na realidade, como aliás era expectável desde o início, a moeda fez perder todas as protecções que os países, em particular os menos competitivos, dispunham relativamente aos choques da globalização.

Perderam, em primeiro lugar, um instrumento de política essencial para lidar com os choques externos (na realidade o único disponível em ambiente de comércio livre), a saber, a política cambial.

Ao cederem a soberania monetária, os estados deixaram de poder exercer a sua função estabilizadora interna, com base na política monetária e na política orçamental, face aos choques externos.

Finalmente, ao ficarem reféns dos mercados financeiros por terem perdido a possibilidade de se financiarem através de empréstimos junto do respectivo banco central, os estados têm enfrentado crescentes dificuldades em honrar os seus compromissos internos, incluindo os que decorrem dos respectivos estados sociais.

A moeda única nasceu da mentira e, até à crise, prosperou na mentira. Agora, arrasta-se e corre o sério risco de morrer, porque a mentira já se tornou demasiado evidente.

Quem se pode admirar com o crescimento das votações anti-sistema? E quem tem moral para as criticar?

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Comentários
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  • Eduardo Rocha
    06 fev, 2017 Lisboa 20:28
    É fundamental recuperar as quatro soberanias perdidas: monetária, legislativa, orçamental e territorial! Mas tal só será possível, quando Portugal, deixar de ser um país de CHONIHAS dependentes de tachos e subsídios parasitas!
  • Luis
    06 fev, 2017 Parede 18:45
    Os defensores do regresso ao escudo devem dizer que a ferramenta da desvalorização é boa para o estado e empresas e MUITO má para os trabalhadores por conta de outrem. Assim que mudassem para o escudo teria de haver uma enorme desvalorização que daria competitividade mas por outro lado levaria a que o salário passaria a comprar metade dos bens importados pois os mesmos ficariam a um preço muito superior por via da dita desvalorização. Já as empresas exportadoras ficavam a ganhar pois continuavam a vender em euros ou dólares e pagavam internamente bastante menos aos funcionários e aos fornecedores. A verdade tem que ser toda dita sem se esconder as partes desagradáveis.
  • joao123
    05 fev, 2017 lisboa 10:24
    Se não estivesse-mos no euro as taxas de juro em Portugal para quem quisesse pedir emprestado á banca estavam a...pois...
  • ZoomOut
    04 fev, 2017 Santarem 23:30
    Apesar de lhe reconhecer muito mérito e esforço nesta reflexão,(da qual tem sido aliás pioneiro),permita-me discordar da premissa:"A moeda única fez perder todas as protecções",caro JFA,não será assim tão simples,é por estarmos no grupo do euro que beneficiamos de taxas de juro "europeias" (e não propriamente "lusas"),bem como de uma inflação devidamente controlada, isto tem um valor "per se",já para não falar nos fundos de convergência, que se julgavam suficientes para tornar nossa economia mais competitiva.Neste ponto aceito concordar com a insuficiência nesse objectivo, mas penso que concordará que antes de mais, foram governantes e empresários os mais responsáveis por esse "mau uso". Por outro lado, e mais relevante na minha opinião, é continuarmos a achar que a "política cambial" é a ferramenta indicada para combater a globalização, é aqui que discordo profundamente, pois temos de uma vez por todas aceitar a mudança de paradigma, (até por uma questão moral). Desvalorizar a moeda é uma "batota" útil para crises conjunturais, e na realidade significa desvalorizar também toda a nossa economia...todos percebemos o conceito, mas não considero aceitável! O modelo europeu de moeda única, significa confiança entre estados e políticas comuns, temos que deixar a "batota" de lado, e ganhar dentro das regras (como ganhámos o Euro2016). A melhor forma de não ficarmos reféns dos mercados, é não precisarmos deles,(sendo sustentáveis e crescer "organicamente",como os tratados sugerem!
  • AB
    04 fev, 2017 Evora 20:54
    Há consequências quando se usam desvalorizações de moeda como meio de "controle" da economia. A solução numa economia global não é desmantelar o euro e voltar às moedas nacionais, é criar uma moeda global.
  • ZoomOut
    04 fev, 2017 Santarem 18:56
    Apesar de lhe reconhecer muito mérito e esforço nesta reflexão,(da qual tem sido aliás pioneiro),permita-me discordar da premissa:"A moeda única fez perder todas as protecções",caro JFA,não será assim tão simples,é por estarmos no grupo do euro que beneficiamos de taxas de juro "europeias" (e não propriamente "lusas"),bem como de uma inflação devidamente controlada, isto tem um valor "per se",já para não falar nos fundos de convergência, que se julgavam suficientes para tornar nossa economia mais competitiva.Neste ponto aceito concordar com a insuficiência nesse objectivo, mas penso que concordará que antes de mais, foram governantes e empresários os mais responsáveis por esse "mau uso". Por outro lado, e mais relevante na minha opinião, é continuarmos a achar que a "política cambial" é a ferramenta indicada para combater a globalização, é aqui que discordo profundamente, pois temos de uma vez por todas aceitar a mudança de paradigma, (até por uma questão moral). Desvalorizar a moeda é uma "batota" útil para crises conjunturais, e na realidade significa desvalorizar também toda a nossa economia...todos percebemos o conceito, mas não considero aceitável! O modelo europeu de moeda única, significa confiança entre estados e políticas comuns, temos que deixar a "batota" de lado, e ganhar dentro das regras (como ganhámos o Euro2016). A melhor forma de não ficarmos reféns dos mercados, é não precisarmos deles,(sendo sustentáveis e crescer "organicamente",como os tratados convidam!
  • Palma
    04 fev, 2017 Colónia 12:47
    Quem passa o dominio da sua moeda para os de fora, passa tambem a sua autonomia e a sua soberania e torna-se dependente e chantagiavel. Os politicos pós 25 de Abril todos sucessivamente teem vendido Portugal aos poucos e poucos. A entrada para a UE e para o Euro foi e continuará a ser uma catástrofe para Portugal.
  • António Costa
    04 fev, 2017 Cacém 08:38
    O problema é que as pessoas só percebem que ficam a ganhar "metade" quando os valores do ordenado ficam reduzidos a metade. Uma inflação de 50% é equivalente à perda real de 33% do ordenado. A inflação real, além de causas externas, tem origem, sobretudo no aumento artificial do nº de notas de banco em circulação. Só que os governos quando colocam a "rotativa das notas" em ação culpam os "especuladores e grandes armazenistas"! As pessoas ao pé de um carteirista profissional não ficam protegidas! Ficam SÓ sem a carteira SEM perceber!
  • MASQUEGRACINHA
    03 fev, 2017 TERRADOMEIO 20:55
    Dixit. Lúcido e inteligente como sempre. Já agora, também gostei dos comentários: todos construtivos, mesmo aqueles com que não concordo particularmente.
  • Luis
    03 fev, 2017 Lisboa 13:32
    Será que o artigo merece uma opinião distinta só porque se é de extrema direita ou de extrema esquerda? Do centro, da direita ou da esquerda? Ferreira do Amaral tanto quanto se sabe não é um homem de esquerda e muito menos de extrema esquerda. Qual a razão então porque a nossa direita e a nossa extrema direita se recusam a ver a realidade? Talvez porque continuem boçais e imbecis como há cinquenta anos atrás? Não há pachorra, é por isso que ninguém nos leva a serio na Europa.