Opinião de Graça Franco
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​Atrás de mim virá, ou não?

24 jan, 2017 • Opinião de Graça Franco


Marcelo quis, e bem, arejar o palácio. Abriu portas e janelas mas, passado um ano, arrisca-se a cometer o erro oposto: morrer de pneumonia mediática.

Cavaco Silva morreu politicamente antes de tempo. Na fase final do mandato fez o pleno da crítica. Até no sótão do seu próprio palácio havia quem não lhe perdoasse os silêncios. Votou-se ao exílio mediático e desistiu de explicar políticas, erros, ou omissões. Abdicou de exercer a sua magistratura de influência debaixo dos holofotes. O recato de bastidores foi-lhe implacável. Marcelo quis, e bem, arejar o palácio. Abriu portas e janelas mas, passado um ano, arrisca-se a cometer o erro oposto: morrer de pneumonia mediática.

O Presidente, que muitos analistas garantiam que só ficaria por um mandato, está a gostar do exercício do cargo. Ainda bem. De um Presidente não se espera que se arraste pelas escadarias e jantares oficiais. Tem de gostar de o ser.

Marcelo está em lua-de-mel presidencial. Sente o aconchego do povo. Faz a unanimidade. Transformou a sua análise de domingo nos três minutos diários de uma Conversa em Família. Bate recordes de audiência em todas as televisões generalistas ou de cabo. Sucesso garantido e sem contraditório. E não representa. Confunde-se com o papel. O que sobra da sua análise semanal, o conselheiro dedicado que lhe copia os gestos e lhe antecipa o pensamento (semana sim, semana não…), decifra-lhe o virtualmente “não dito” para gáudio da elite lisboeta. O povo confirma a empatia com ambos e gosta.

Como nos tempos de “candidato ou não?”, Marcelo dá-se ao luxo de já ter marcado a agenda da sua virtual reeleição. Os possíveis candidatos que se cuidem. Ele só dirá se repete a três escassos meses das presidenciais. Setembro de 2020. Dará aos seus adversários os três meses da praxe para prepararem as respectivas campanhas. A continuar assim só um suicida o enfrentará.

Mas podem os ventos mudar? Podem. Tal como a presidência hirta de Cavaco não conseguiu projectar o seu conceito muito particular de interesse nacional e se afastou dos “media”, evitou explicações, fechou-se numa redoma, com as palavras, as acções intuídas ou realizadas debaixo de fogo e desconseguiu de mostrar num ponto ou outro a sua razão. Ninguém pode errar em tudo, como ninguém pode acertar em tudo.

Aqui entra Marcelo, a cair na ratoeira oposta: o comentador pró ou contra, de forma muitas vezes exagerada. Que fazia comentário a preto e branco e, de forma sibilina, não raro ia puxando os fios a vários tapetes, enfraquecendo umas vezes aqui o governo e ali a oposição. Capaz de mandar sem decoro “uma bela pantufada” ou um sibilino aviso – “esta não lembra ao careca”... Discordando ou não, era imperativo ouvi-lo. Brilhante, entusiasmado, efémero. Podia dizer hoje e enganar-se amanhã. Coisa de comentador ousado.

Agora o Presidente é de todos. Mas nem todos consideram possível partilhar o seu entusiasmo pela descrispação, novidade, alternativa, potencialidade, veia criadora, inovação, arejamento, optimismo militante. Pior: a ligeireza da análise já não cola na função presidencial. Não basta deixar o pronunciamento definitivo para o momento seguinte de um apoio visto desde o primeiro momento como “incondicional”. “Em definitivo só veremos (se há ou não uma politica alternativa de sucesso) depois de encerrados os números finais de 2016”. Com esta frase o veredicto final fica remetido lá para Março. Em Março haverá certamente alguma coisa que torne provisória a prelecção inicial e remeta a assinatura presidencial lá para o final do Verão. Tal como o comentador de Domingo, reserva-se em teoria, o direito ao recuo em prazo mais ou menos longo. Mas, entretanto, o optimismo “militante” vai-se tornando profundamente irritante para os 50% dos oficialmente “descrispados” por decreto presidencial.

Tudo tem a sua mão providencial: travou as barrigas de aluguer, a lei feita à medida das pretensões de António Domingos na Caixa, a devassa fiscal às contas bancárias dos “ricos”, a lei que vedava aos privados a participação nos transportes de Lisboa e Porto. Mandou recados contra eventuais disparos na despesa, salários milionários, excessos legislativos na solução da Casa do Douro. Não fez nenhum reparo em matéria bancária, defendeu a TSU como nem o Governo foi capaz e deu o sim essencial a dois Orçamentos.

Ainda Costa não assinou e já o Presidente madruga para assinar em tempo record a mais polémica decisão. Os assessores tornam-se inúteis, o “staff” não aguenta o ritmo presidencial, mas Marcelo nunca se sente só. Chega-lhe o calor dos holofotes e o aconchego do povo.

Comentários
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  • PauloMarquesPatrício
    28 jan, 2017 Sintra/Mem-Martins 12:04
    |||||Marcelo não é o Presidente de Todos, note-se! Poderá ser de quase todos os republicanos, mas ainda assim... E nós, os Monárquicos !!! Quem ouve a nossa voz, o nosso GRITO!!! ... Permitam os deputados republicanos alteração constitucional, que permita referendar o regime: República ou Monarquia. Após decência democrática saberemos quem somos, neste mundo cada vez mais complexo... Talvez Marcelo seja O Último Presidente... !!! Gostaria que o fosse. |||||Viva O Rei ! Viva O Rei !!! Viva O Rei !!! disse: paulomarquespatrício.
  • João Lopes
    27 jan, 2017 Viseu 15:43
    A sabedoria popular diz: “quem muito fala pouco acerta“, “pela boca morre o peixe”, “o excesso de mel enjoa”. Dar-se talvez um pouco menos de importância e ter um pouco mais de recato na sua atuação ficaria bem ao Presidente da República de Portugal.
  • Diogo Pinto
    26 jan, 2017 Madalena 11:29
    Como sempre ... adoro lêr os seus artigos de opinião . Pareceu-me que choca um bocado com á " mediatização " que Marcelo têm colocado na presidência da Republica . Sou sincero , considero-o o presidente TVI . Mas , repare , não será á mediatização um caminho , mais coberto do que descoberto , de informar á populaça ?! Bom dia Srª Graça Franco .
  • Marco Visan
    26 jan, 2017 Porto 09:17
    Em vez de pneumonia mediática, pode simplesmente morrer de pneumonia. Neste último caso, faz-se um funeral com honras de estado maior e melhor que o de Mário Soares e convocam-se novas eleições presidenciais, para tentar eleger um presidente mais sério e honesto.
  • Rosalina Gouveia
    24 jan, 2017 Lisboa 20:42
    Eu diria mais umas coisas.Mas o fundamental está dito.Esperemos o dia do juízo final.Mas para uma grande parte dos Portugueses nâo convivem bem com este estilo de "popular ou populismo" e geralmente nâo acaba bem.