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Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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A paixão da liberdade

10 jan, 2017 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


Nessa noite, ao saber da sua primeira eleição presidencial através da Renascença, Soares experimentou o sabor da informação livre que ele próprio ajudara a garantir.

Mário Soares teve uma vida cheia de causas, mas arrisco dizer que a liberdade foi a maior delas: na defesa que dela promoveu e no modo como ele próprio a exerceu.

Bateu-se por ela, antes e depois do 25 de Abril. Opondo-se ao regime autoritário do Estado Novo ou erguendo-se contra a deriva totalitária da extrema-esquerda depois do 25 de Abril, houve sempre em Mário Soares a mesma preocupação: defender a liberdade para todos – próximos ou distantes, amigos de eleição ou adversários de estimação.

No labirinto pós-revolucionário, a intuição pela liberdade levou-o a todos os tabuleiros, internos ou externos, nos quais se jogava a sua asfixia ou a sua consolidação.

O foco na liberdade tê-lo-á precipitado também nalgumas decisões sobre a descolonização, cuja história está ainda por fazer. Mas naquilo que aconteceu a centenas de milhares de pessoas, que regressaram de África em circunstâncias trágicas ou penosas, haverá responsabilidades a repartir também por muitos responsáveis políticos e militares, antes e depois do 25 de Abril. Sem esquecer os contextos: nem o externo, em que algumas potências usavam as antigas colónias portuguesas, como mais um palco da chamada guerra fria; nem o interno, quando o país chegou a estar à beira de uma guerra civil.

O comício com Salgado Zenha no então Pavilhão dos Desportos pela defesa da liberdade sindical, numa altura em que o PCP pretendia impor a unicidade sindical, obrigando à existência uma única central representativa dos trabalhadores, foi um momento chave.

Soares bem sabia que se jogava aí a matriz do regime em construção, quando alguns procuravam criar uma versão portuguesa dos regimes do leste europeu.

E ao opor-se – com Almeida Santos na primeira linha – à ocupação da Rádio Renascença por militares e outras forças da extrema-esquerda, Mário Soares tinha a aguda consciência de que estava em causa a liberdade religiosa, a liberdade de informação e a própria liberdade de expressão.

De resto, tendo criticado a Igreja ou tendo sido por ela criticado, designadamente pela questão do aborto, Mário Soares sempre defendeu não só a liberdade de culto, mas também o papel da Igreja na sociedade portuguesa. Nos contactos que manteve com a Igreja antes e depois do 25 de Abril, Soares afirmou também a sua liberdade ao não seguir as pisadas jacobinas da I República, evitando reabrir uma questão religiosa em Portugal.

Confrontado numa entrevista na Renascença sobre a sua relação com Deus, Soares respondeu em 1985 que até então nunca havia sido tocado pela graça da fé. A resposta diz tudo sobre o modo como se relacionava com a Igreja, cujo papel na construção democrática muitas vezes enalteceu.

O combate pela integração europeia radica também, antes de mais, na procura da consolidação de um regime livre e democrático. Nesse como noutros casos, a intervenção e o instinto político de Mário Soares foram decisivos. Não esteve sozinho e sozinho nada poderia fazer. Mas esse foi também outro dos seus méritos: quando o foco estava na defesa da liberdade ou na consolidação do regime democrático, soube construir em cada momento as alianças necessárias, relegando para segundo plano, fronteiras ideológicas ou partidárias.

Assim se explica, por exemplo, a formação do segundo Governo Constitucional que em 1978 – quatro anos apenas, depois do 25 de Abril – juntou PS e CDS, chocando boa parte do país, à direita e à esquerda.

Com a mesma liberdade e também como primeiro-ministro desagradou a muitos dos seus próximos, proclamando que em tempos de crise o socialismo devia ser metido na gaveta. Mas nos anos da troika puxou de idêntica liberdade para fustigar violentamente a receita e os efeitos da austeridade.

Em 1987, recém-eleito Presidente da República não deu ouvidos ao PS que pretendia formar governo na sequência de uma moção de censura que derrubou o executivo minoritário de Cavaco Silva.

Soares, de novo livre, optou pela dissolução do Parlamento e convocou eleições antecipadas, das quais sairia o primeiro governo de maioria absoluta do PSD.

De resto, como chefe de partido, foi dos líderes menos convencionais e, porventura, menos… partidários. Em muitas circunstâncias não temeu ficar em minoria, afrontando com total liberdade a maioria do seu próprio partido. E fê-lo de forma original, quando, por exemplo, se auto-suspendeu provisoriamente das funções de secretário-geral do PS, em protesto contra o apoio dos socialistas à reeleição presidencial que o general Ramalho Eanes viria folgadamente a obter.

Nas eleições presidenciais seguintes, as de 1986, Soares candidatou-se após uma clamorosa derrota do PS nas eleições legislativas de Outubro de 1985. Com 8% nas sondagens, Mário Soares surgia muito atrás de Freitas do Amaral e também a uma distância considerável de Salgado Zenha e de Lurdes Pintasilgo.

Sabe-se como a história acabou. Soares derrotou Freitas à tangente na segunda volta, tendo recebido para o efeito, o apoio dos seus mais encarniçados adversários do período revolucionário.

Nessa noite eleitoral, o resultado seria disputado voto a voto. Na primeira volta, Freitas ficara a escassos votos de conseguir a eleição. Mas no debate da segunda volta com Freitas, Soares parecia ter conseguido mobilizar a esquerda para o indispensável voto útil. Ainda assim, era arriscado prever resultados.

Para as previsões eleitorais dessa noite, a Renascença, através de João Amaral, contratara Francisco Soares que de uma forma só aparentemente artesanal montava os seus cálculos a partir dos resultados de mesas de voto tipo, cuja ponderação lhe permitia chegar a um resultado muito próximo do final.

E foi desse modo que poucos minutos depois do fecho das urnas, a Renascença anunciou em primeira mão ao país que o vencedor dessa noite seria Mário Soares.

Informado previamente pela Renascença da sua mais que provável vitória, Soares entusiasmou-se, exclamando que se era a Renascença com independência e liberdade a dizê-lo, é porque tinha mesmo vencido aquela que continua a ser até hoje, a mais disputada eleição presidencial em Portugal.

Nessa noite, ao saber da sua primeira eleição presidencial através da Renascença, Soares experimentou o sabor da informação livre que ele próprio ajudara a garantir.

Apreciado com a mesma liberdade que ele próprio cultivou, Mário Soares não foi nem nunca será unânime. Como todos, teve opções erradas, discutíveis ou acertadas. Decidiu bem nuns casos e cometeu erros noutros. Ganhou mais do que perdeu. Mas como homem, nenhuma derrota foi maior do que ele.

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  • Alexandre
    10 jan, 2017 Lisboa 19:19
    «Mas esse foi também outro dos seus méritos: quando o foco estava na defesa da liberdade ou na consolidação do regime democrático, soube construir em cada momento as alianças necessárias, relegando para segundo plano, fronteiras ideológicas ou partidárias.» Tenho pena que não investigue mais acerca deste tempo, onde Soares foi primeiro-ministro. Esse é o problema dos exageros e da falta de informação. Na verdade, este foi o pior período político de Mário Soares. Faz também falta não conhecer o relacionamento entre Mário Soares e Henry Kissinger, autor moral do massacre do Chile, em Setembro de 1973.