Opinião de Manuel Pinto
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​A auto-referencialidade no jornalismo e na cultura

05 dez, 2016 • Opinião de Manuel Pinto


Não é rigoroso fazer das redes sociais e particularmente do Facebook o agente primordial da multiplicação de notícias falsas ou de meias verdades.

Ao escolher como palavra do ano de 2016 o termo “pós-verdade”, a empresa Oxford Dictionaries deu nome a um fenómeno que se exacerbou nos últimos meses, com o Brexit, no Reino Unido, e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos da América. Esse fenómeno pode caracterizar-se pela diluição de fronteiras entre a realidade e a ficção, que o mesmo é dizer entre a verdade e a mentira. Os referenciais (gostos, interesses, causas, opiniões, crenças) do mundo de cada um, de cada grupo ou tribo são tomados como critério de verdade, mesmo que a verdade dos factos os contradigam.

Não é rigoroso fazer das redes sociais e particularmente do Facebook o agente primordial da multiplicação de notícias falsas ou de meias verdades. Essa lógica do ‘bode expiatório’ permite encontrar explicações rápidas, mas leva a esquecer que as últimas décadas têm assistido, no próprio jornalismo instituído, a um resvalar permanente para a diluição das fronteiras entre jornalismo e o entretenimento, o espectáculo, o comércio de interesses e de ideologias.

Para usar um conceito caro ao Papa Francisco, o jornalismo parece hoje de um gravíssimo problema de auto-referencialidade. E isto acontece porque tem esquecido quais são os seus valores fundacionais – a prestação de um serviço a todos os cidadãos, pautado pela verdade e pela verificação dos factos. Mas também se deve dizer que a auto-referencialidade se tornou hoje um problema da vida social e cultural, configurando o quotidiano e os estilos de vida.

A equivalência entre facto e ficção e entre verdadeiro e falso representa um risco preocupante para o futuro das nossas sociedades, como bem analisou Hannah Arendt em “As origens do totalitarismo”. E isto tanto na vida política e cultural como no jornalismo.

Neste contexto, nunca foi tão necessário como hoje quer o trabalho competente de quem filtra, pesquisa e verifica a informação que circula no espaço público, dando aos cidadãos os instrumentos que lhes permitam avaliar o grau de fiabilidade da informação que recebem. Mas também nunca como hoje foi tão fundamental a preparação de cidadãos capazes de verificar a fiabilidade e consistência dessa mesma informação. O movimento tem de partir dos dois lados e sem qualquer deles, o espaço público fica coxo e definha.

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  • MASQUEGRACINHA
    05 dez, 2016 TERRADOMEIO 22:08
    Actualmente, a quantidade e velocidade da informação no espaço público já ultrapassou a capacidade humana de a processar eficazmente - aliás, tal como Tofler e muitos outros previram, para não dizer avisaram, também quanto às respectivas consequências. Não há nada de novo debaixo do sol, portanto, como de costume. Seguindo o exemplo das áreas científicas, parece-me que restará ao (bom) jornalismo a hiper-especialização, e uma organização do trabalho consentânea. A menos que queira depender de automatismos algorítmicos para filtrar, pesquisar e verificar a informação, parafraseando o articulista, o jornalista terá que ser secundado por task force dedicada a... informá-lo. Dos nebulosos interesses e desvios permitidos pelos algoritmos sabemos o suficiente, e sobre as inescapáveis falhas da objectividade humana também, muito concretamente no caso do jornalismo, tão dependente de anunciantes e linhas editoriais e etc.. Enfim, um tema de primacial importância na sociedade moderna, com evidentes implicações no próprio funcionamento minimamente saudável das democracias, a exigir reflexão séria e urgente. Filtrar a informação, sim, mas como, com tantas liberdades, direitos e interesses envolvidos? No meio do ruído, a verdade dos factos está (quase) a ser ultrapassada pelas ficções que se vão instalando, apesar de todos os sinais do presente e de todos os avisos do passado.