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Opinião de Maria Rosário Carneiro
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​Muros

15 nov, 2016 • Opinião de Maria Rosário Carneiro


Ao longo dos últimos anos têm-se vindo de novo a erguer muros, a restabelecer barreiras que impedem a livre circulação, que simultaneamente devolvem aos problemas e às situações, a invisibilidade do sofrimento e da injustiça, e soluções de desenvolvimentos desequilibrados e precários.

Nos primeiros anos deste século, Thomas Friedman publicou um livro intitulado “O Mundo é Plano”. Nele dá conta de um mundo onde, pela primeira vez, nos podemos aperceber dos vales escondidos, dos riachos ignorados, dos grupos esquecidos e abandonados, das grandezas e das pequenezas encobertas.

As barreiras ocultantes das montanhas e dos muros caíram graças à poderosa revolução tecnológica associada a acontecimentos de natureza económica e geopolítica diversos, que a todos aproximou e que a todos dotou de instrumentos que, em tempo real, nos permitem conhecer finalmente o outro escondido e darmo-nos a conhecer a nós próprios também. Tornou visível o invisível, próximo o distante, conhecido o desconhecido.

Este conhecimento global é fundamental para a identificação de situações de exclusão insuportáveis, de desequilíbrios e assimetrias incomportáveis, e a consequente definição de políticas e estratégias articuladas e cooperantes, sem as quais não há desenvolvimento sustentável nem paz duradoura.

Contudo e paradoxalmente, ao longo dos últimos anos têm-se vindo de novo a erguer muros, a restabelecer barreiras que impedem a livre circulação, que simultaneamente devolvem aos problemas e às situações, a invisibilidade do sofrimento e da injustiça, e soluções de desenvolvimentos desequilibrados e precários.

Vem a propósito recordar Mahatma Gandhi: “Não quero que a minha casa seja cercada de muros por todos os lados, nem que as minhas janelas sejam tapadas. Quero que as culturas de todas as terras sejam sopradas para dentro da minha casa, o mais livremente possível. Mas recuso-me as ser desapossado da minha por qualquer outra”. Os muros da nossa segurança e privacidade, a defesa dos nossos modelos conhecidos, não se podem transformar em prisões securitárias que coartam a nossa liberdade, que nos amputam de humanidade, que reduzem o outro à invisibilidade, escorraçando-o de novo da possibilidade de escolha (primeiro objectivo do desenvolvimento). Viramo-nos uns contra os outros, perdemos o futuro.

Mas o medo do desconhecido, as dificuldades das situações, combatem-se com esclarecimento e actuação adequada, inclusiva. Sem muros.

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  • António Costa
    15 nov, 2016 Cacém 10:27
    "....Os muros da nossa segurança e privacidade, a defesa dos nossos modelos conhecidos, não se podem transformar em prisões securitárias..." portanto os muros são necessários desde que não se transformem em muros de prisão. Portanto voltamos ao mesmo, é tudo uma questão de equilíbrio. É o equilíbrio que é necessário. Sabe Maria Rosário Carneiro que com o nosso corpo e as nossas células se passa exatamente o mesmo? As nossas células "interagem" com o mundo que as rodeia.... só precisam de "marcar" os elementos hostis que as pretendem destruir. O objetivo dos "invasores" é passar "desapercebido", invadir a célula e alterar as suas "Leis". As "Leis" que governam a célula estão "escritas" no Código Genético, o ADN. Alterando as "Leis" da célula esta é destruída porque deixa de produzir o que necessita para começar a produzir "invasores" ( por exemplo vírus). Os "Muros" são necessários, sempre existiram (as pessoas não construíam castelos por serem estúpidas), agora repetindo Gandhi, não se podem é transformar em prisões securitárias....pois é.