Opinião de Luís António Santos
A+ / A-
Opinião - Luís António Santos

​Para que queremos nós um jornalismo sem dignidade?

06 out, 2016 • Opinião de Luís António Santos


A aceleração dos ciclos informativos promove o ‘mais’ mas não promove ‘o melhor’.

Na mesma semana em que o Papa Francisco disse, sem meias palavras, que um jornalismo baseado em rumores ou promotor do medo é uma forma de terrorismo a responsável máxima pela BBC Radio, Helen Boaden, deixou o cargo com uma palestra criticando duramente o lugar social que a actividade ocupa na actualidade.

Em enquadramentos muito distintos e naturalmente sem qualquer acerto prévio, ambos nos relembraram que a aceleração dos ciclos informativos promove o ‘mais’ mas não promove ‘o melhor’. Pelo contrário, aliás. E que isso começa a ter efeitos claros na natureza dos regimes políticos em que vivemos.

O Papa indicou que a tarefa principal do jornalismo – a sua vocação mesmo – será a de “alimentar a dimensão social do humano, promovendo a construção de uma cidadania verdadeira”. Isso, acrescentou, faz-se “não submetendo a profissão a lógicas de interesses particulares, sejam eles económicos ou políticos” e dando conta, em permanência, da riqueza que há na pluralidade de olhares: “Nem sempre é fácil chegar à verdade ou até mesmo perto dela; nem tudo na vida é preto ou branco; até mesmo no jornalismo precisamos de saber discernir entre as tonalidades de cinzento dos eventos que somos chamados a cobrir”, disse.

Helen Boaden andou por perto: “Será que a crescente competição por atenção não nos está a levar a escrever títulos mais fortes do que devíamos? Será que não nos está a levar a dar respostas de preto ou branco a perguntas que surgem de situações tremendamente complicadas? Não estaremos a apressar-nos a encontrar vitimas e vilões e, acima de tudo, bodes expiatórios?”.

Em ambos os posicionamentos sente-se uma enorme preocupação com os efeitos que uma produção mediática cheia de exageros e imprecisões, cheia de culpados, cheia de acusações e contra-acusações, cheia de promessas de catástrofes no horizonte está a ter nas sociedades democráticas. Promove-se a apatia, promove-se o medo, promove-se a necessidade de maior protecção, promove-se, em última análise, o aparecimento de entidades ou figuras ‘que nos vão livrar de tudo isto’.

O fenómeno Trump, mesmo que Hillary Clinton venha a ganhar as eleições norte-americanas daqui a um mês, não é um episódio marginal. É talvez o mais visível. Mas não vai ser o último. Na Europa já nos assustamos todos com o homem que lidera a Hungria e tivemos a campanha do Brexit. As réplicas vão aparecer um pouco por todo o lado.

Os média não são responsáveis mas são parte integrante do problema. Precisam, urgentemente, de se reorientar.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • F Soares
    06 out, 2016 A da Gorda 14:10
    Por isso mesmo é que felicito o guarda redes do Gigon , na conferencia de imprensa que deu. !00% de razão!
  • Santos
    06 out, 2016 Aveiro 10:39
    De acordo mas com uma ressalva. O jornalismo é o espelho das sociedades de hoje. Vejamos quantos milhares de livros vai vender o jornalista Saraiva ao mexer em "lixo". Os "big brother" acabaram?