Opinião de Luís António Santos
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​“Então e os Panama Papers?”

19 set, 2016 • Opinião de Luís António Santos


O eventual futuro do jornalismo está no trabalho rigoroso e sério e não na força com que se puxam galões puídos.

O director do semanário 'Expresso' escreveu este fim-de-semana um texto com este título onde – passados uns redondos quatro meses sobre as primeiras manchetes – apresenta uma espécie de defesa pública da honra da casa.

A tal defesa organiza-se em torno de propostas simples. A primeira é de que a documentação está toda disponível para quem a quiser trabalhar desde 9 de Maio (Pedro Santos Guerreiro até nos deixa o link)., a segunda é de que a investigação é muito complexa e está em curso e a terceira é de que o 'Expresso' é um jornal sério, envolvido numa série de outras investigações jornalísticas muito sérias, e que isso não deveria merecer dúvidas (são várias as vezes em que o autor se questiona até sobre a validade deste seu exercício).

Valerá a pena ler este texto e tentar perceber o seu enquadramento no atual momento do jornalismo nacional. Duas reflexões parecem-me, desde logo, pertinentes.

Há, por um lado, uma clara sensação de que o jornal se sente ferido na sua honorabilidade e acossado por uma torrente de acusações que entende serem falsas. É cada vez mais recorrente, não apenas no jornalismo nacional, esta ideia de afastamento entre a percepção que os jornalistas mostram ter do seu trabalho e a percepção dos leitores (cada vez mais críticos e com cada vez mais meios para se fazer notar). É uma distância que não deverá vir a desaparecer, sobretudo se os argumentos usados pelos jornalistas forem deste calibre: ‘Se não estamos a fazer bem, aí fica o link – façam vocês se conseguirem’, ou então, ‘Nós somos o jornal X, uma instituição – como é possível que se questione a nossa forma de trabalhar?’ Ambas emanam de uma concepção do exercício da profissão gasta e até perigosa. O eventual futuro do jornalismo está no trabalho rigoroso e sério e não na força com que se puxam galões puídos (parte substancial da audiência não tem sequer tempo ou paciência para aturar tais disparates).

Há, por outro lado, espalhados no texto, sinais de uma enorme fragilidade. Os Panama Papers não foram, em todo este tempo, trabalhados no necessário detalhe e urgência pelo jornalismo nacional (seja pelo' Expresso' ou por outra empresa) porque, simplesmente, não há meios suficientes para o fazer. Admitir isso, logo à cabeça, teria sido preferível às deambulações por teorias conspiratórias sobre críticas anónimas em blogues e redes sociais orquestradas por figuras tenebrosas (que, naturalmente, não são nomeadas).

Pedro Santos Guerreiro desperdiçou uma oportunidade para estreitar a relação de confiança com a sua audiência específica. À pergunta “Então e os Panama Papers?” deveria ter respondido, há muito, com humildade e respeito: “pedimos desculpa; exagerámos na promoção do que tínhamos capacidade para fazer (demos entrevistas a mais e fomos a programas nas TVs a mais); estamos a trabalhar; vamos dar conta do que estamos a fazer de forma periódica; já pedimos ajuda especializada mas estamos abertos a outras colaborações; quem nos quer ajudar?”


Comentários
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  • Mara
    31 mai, 2017 Portugal 20:33
    Não acredito em politicas, de lado nenhum desiludida me confesso com tudo o que vejo....
  • Viver com Dignidade
    25 set, 2016 Do mundo dos vivos 17:47
    Se falarmos na maioria dos políticos e alguns dos mais poderosos que tiram dinheiro de um lado para por noutro, verificamos muita gente envolvida dos quais jornalistas, Pois é, melhor não se falar no assunto.
  • Viriato
    20 set, 2016 Condado portucalense 13:47
    Dos europeus caucasianos não queres tu saber. Um dia isto vai dar a volta e faço um apelo aos verdadeiros europeus, que os primeiros a ser julgados e punidos sejam os traidores que vergonhosamente transformaram a europa numa babilónia. Querem nomes?...aqui vai, Mário Soares, Guterres, Filipe Gonzales, Miterrand, Helmut Kohl, Cavaco, Sócrates,Durão Barroso, Tony Blair, Rajoy, Merkl, Passos Coelho, Zapatero e muitos mais, Resumindo e concluindo a máfia maçónica e a máfia do clube Billderberg. Leiam o livro "Toda a Verdade sobre o Clube Bilderberg" de Daniel Estulin e fiquem a saber sobre a pouca vergonha sobre que tem assassinado a cultura e a identidade europeia.
  • António Pais
    20 set, 2016 Lisboa 09:31
    xiuuuuuu não venhas com essa coisa inconveniente pá!
  • MAC
    19 set, 2016 Lisboa 15:01
    Há uns anos um cliente questionou os valores da conta que mantinha com a minhe entidade empreadora. Tratava-se de um cliente muito exigente e com movimento muito acima de todos os outros. Durante semanas tentei perceber, e explicar, as contas que, em nosso entender estavam corretas mas, para o cliente, erradas. Na falta de melhor solução mandei imprimir os diversos extratos dos úlimos anos, enchi duas caixas de papel de fotocópia com a documentação e mandei entergar no cliente com a informação: para nós as contas estão certas. Está aqui a informação toda. Digam-nos onde está o erro. Até hoje. Não sei porquê a "lógica" do PSG fez-me lembrar esta história.
  • LL
    19 set, 2016 Lisboa 13:51
    Quando se trata de saber algo que interessa e é importante para sabermos o país em que vivemos, ou não há meios(justica, jornalismo) ou há varios sigilos que já deviam ter acabado ha muito para ver se sabemos de vez, como contribuites, como vamos pagar os buracos da Banca e outros. Tem sido um fartrar vilanagem. Quem nos acode. Sobre o chamado "Saque Mortágua" Há uns cavalheiros muito amigos dos mais desfavorecidos, desde que eles não sejam prejudicados com qualquer medida que os prejudique a eles e aos seus congéneres. Privacidade... privacidade - Defenderam que as declarações de IRS deviam estar pendurades à porta das repartições de finanças, mas agoram quando toca a doer já estão contra. Hipocritas! E ridiculos.
  • Bento Fidalgo
    19 set, 2016 Agualva 12:20
    Então, mas isto é o tratamento normal destas situações, primeiro mostrar indignação, depois prometer, a seguir acalmar,depois elevar outro assunto, se for preciso inventa-se, depois fazer-se muito ocupado e deixar esquecer e, qualquer dia estão de volta muito acarinhados e perdoados, de volta aos seus pedestais, com direitos e premios reforçados.
  • Manuel Machado
    19 set, 2016 Oeiras 10:26
    Gostei do artigo, apesar de não fugir muito à realidade do jornalismo em Portugal! Dir-se-á que é uma profissão actualmente sem credibilidade ! Veja-se as reportares de "rua"..!? É de fugir só de as ouvir! . Cada um atira para os "tablóides" o que lhe der na real gana...só para vender papel.Arre!