Opinião de Graça Franco
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​O vírus do ódio enlouqueceu os franceses

26 ago, 2016 • Graça Franco • Opinião de Graça Franco


Enquanto a liberdade ameaçada for a dos outros e ainda fingirem que respeitam a nossa não haverá onda de indignação que pare o agressor. A cobardia mirra as comunidades. A grande França já está a mirrar.

A que raio de propósito o dr. Carlos Carreiras havia de exigir que me despisse nas praias de Cascais ou o dr. Basílio Horta de me multar em função da roupa que me apetecesse levar e passear dentro ou fora das ondas da Praia das Maçãs? Garanto que se me desse na gana mergulhar vestida não haveria edital, nem polícia municipal que me levasse a retirar a roupa em público como há poucos dias vi acontecer, numa cena degradante, a uma jovem muçulmana intimada pela polícia a retirar a t-shirt sob uma chuva de insultos de outros banhistas algures numa praia do Sul de França.

Quem decida ir mais ou menos “emburquinada” à praia tem, obviamente, direito a fazê-lo em pleno mundo livre. Seja porque a respectiva religião exige ou aconselha, para evitar olhares indiscretos (a minha só me recomenda que escolha uma fatiota modesta e tapada q.b ), ou ainda mais prosaicamente para fugir clinicamente ao olhar do Sol.

Digo isto porque vivo num país Ocidental e livre. Onde a minha moral e os bons costumes deixaram, há mais de 40 anos, de ser caso de polícia. Convenhamos que não me sinto pessoalmente muito confortável com a ostensiva nudez que povoa a maioria dos nossos espaços de veraneio, mas cabe-me a mim estrategicamente procurar onde ainda se preserva algum bom senso e sobretudo se cultiva a elegância e o bom gosto. Dito isto, sinto-me bastante bem por minha conta. Se o autarca da zona prefere biquínis ou odeia burkinis é lá com ele, mas comigo é que não é.

Não poderia, infelizmente, dizer o mesmo se vivesse em França. A da Revolução. Pois bem, os franceses herdeiros das “luzes” descobriram agora que a moral deles e os bons costumes deles mais o laicismo militante e jacobino deles é incompatível com ir vestido para a praia. Isso constitui uma horrível provocação por parte da comunidade muçulmana à comunidade local. Fica implícito que os muçulmanos deviam ganhar juízo e, tal como em Roma se deve ser romano, em França só lhes resta vestir à francesa.

A boa coexistência entre duas comunidades em aparente choque em várias regiões não passa por evitar provocações de lado a lado. A absoluta nudez pode ser escandalosa e provocatória e vista como sinal evidente de degradação Ocidental por um dos lados, mas isso não tem importância nenhuma para as autoridades locais.

Talvez uma freirinha que queira modestamente molhar as pontinhas dos pés consiga desconto na multa prevista para as mulheres muçulmanas por não ser vista como nenhuma ameaça à segurança nacional, mas apenas como um simples atentado contra a laicidade e os bons costumes. Lembram-se da proibição dos crucifixos nas salas de aula? Agora em toda a função pública mesmo ao pescoço só se passarem despercebidos e forem pequeninos. Não tarda hábitos e cabeções deixarão de poder sair à rua. Já faltou mais.

Quando ninguém repara no que só toca no vizinho é fatal que acabem a chegar à nossa porta. De mansinho é certo que virão. Já vieram. Mas continuamos a olhar para o lado preferindo não ver. Enquanto a liberdade ameaçada for a dos outros e ainda fingirem que respeitam a nossa não haverá onda de indignação que pare o agressor. A cobardia mirra as comunidades. A grande França já está a mirrar.

A polícia de costumes em certos países árabes usa varas para assinalar as partes visíveis do corpo das mulheres que acham por bem que deveriam estar tapadas, a polícia francesa usa cassetetes e armas de fogo para intimidar a remoção das peças de roupa que na brilhante opinião dos respectivos autarcas deveriam ser destapadas. Está tudo louco?

Quando a xenofobia precisa de arranjar este tipo de argumentos (libertários) para se justificar, quando a laicidade feroz esquece o mais elementar bom senso e respeito pela identidade do outro, a coisa só pode correr mal, muito mal.

As perseguições legitimam-se, assim, numa praia qualquer perdida nos arredores de Nice para acabar de vara em riste por uma qualquer milícia popular que um dia resolve tomar em mãos as funções dos zeladores da lei, da ordem, da tradição, dos bons costumes ou de outra coisa qualquer. À pesca de inimigos para humilhá-los, julgá-los e elimina-los nas praças públicas.

É verdade que a Justiça francesa já impediu a arbitrariedade numa pequena localidade do sul de França, a pedido da Liga de Direitos Humanos, suspendendo a lei que proíbe o uso do burkini. Há activistas que se ofereceram para pagar as multas. Há protestos um pouco por todo o mundo. Mas, em várias praias de França, a arbitrariedade persiste. Isso diz bem do estado de um país onde a Frente Nacional não pára de crescer. O vírus do ódio alimenta a loucura e a barbárie regressa. Começa assim.

Comentários
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  • Castro
    31 ago, 2016 Lisboa 17:51
    A França não está a viver um período de normalidade mas inserida nos efeitos de uma terceira guerra mundial com uma frente interna ativa-atentados que sâo a guerrilha urbana atual no ocidente--e a combater militarmente o IL com recursos humanos e técnicos no terreno .Nâo pode dar-se ao luxo de baixar a guarda e contribuir para a chacina dos povos que labutam no seu País`´E evidente que vigorando o estado de emergência e guerra não pode fornecer armas nem ser tolerante com o ,ou os inimigos.A Alemanha já está a pensar rapidamente no retorno do serviço militar obrigatório e criaçao de milícias armadas ,porque será?A Suiça tem o maior exercito reservista além do regular, em que ficamos estamos em PAZ ou na terceira guerra planetária.Queremos ir habitar o dormitório dos mortos por inação ou sobreviver a este caos?
  • André Souza
    30 ago, 2016 Vila Pouca de Aguiar 17:31
    Acho uma piada à " cambada " da muita paz etc e tal....quando tiver um ente querido que seja ceifado por um(a)bombista de burkina disfarçado, então venha comentar porque a massa cinzenta desses "tolerantes" mete nojo!! Por termos baixado demasiado as calças estamos nesta situação. A cambada de esquerda tolerante/pacífica mas a primeira a abandonar o barco, é a culpada de tudo isto. Por mim Marie Le PEn Trump e outros malucos do sec XXI só chegam ao poder porque temos uma esquerda na Europa cobarde e pouco amiga dos europeus....
  • antonio daenske
    30 ago, 2016 lisboa 17:03
    Tudo o que seja diminuir a identificação devemos proibir, ponto final! Burka burkini com óculos à abelha-maia digam lá se identificam homem ou mulher bomba!!. A Europa está de pernas abertas deixando que tudo aconteça!! Dizia Kadafi que a Europa ficava Islamizada pelas própria leis de permissividade!! É isso que quer drª Graça Franco?
  • Vasco
    29 ago, 2016 Santarém 23:16
    A causa de tudo isto vem da parte dos muçulmanos que entendem dever ser respeitados mas que já não entendem da mesma forma quando se trata de respeitar os outros e os verdadeiros culpados são aqueles que lhes abriram as portas ao longo dos anos, diz o ditado que cada macaco no seu galho, portanto as arábias para os árabes a Europa para os europeus, se assim tivesse sido não estaríamos hoje aqui a batalhar diariamente sobre diferenças culturais e muitas vidas já teriam sido poupadas e isto é apenas ainda o principio do fim.
  • julio oliveira
    29 ago, 2016 s joao da madeira 02:22
    Um destes dias vamos ter muita gente na fila da defesa do direito de um calmeirão qualquer se sentar numa das nossas esplanadas num lânguido beijo com a sua "jovem" esposa de 11 anos. Claro que em nome do respeito pelo direito à diferença de costumes de outros povos.
  • jose luis
    28 ago, 2016 ericeira 17:17
    É sempre interessante ler opiniões desta natureza. Diz então a autora do comentário, Exma Graça Franco, para além de um conjunto de banalidades , que não se sente confortável com a ostensiva nudez que povoam os espaços de veraneio e vai, estrategicamente, procurar sítios ou zonas onde ainda se preserva algum bom senso e se cultiva a elegância e o bom gosto.!?!?!? Palavreado que cheira a mofo e muito bolor, o que não admira vindo de quem vem. De facto, volta e meia, somos confrontados com estupendos crânios completamente impossibilitados de alguma vez sofrerem algum esgotamento cerebral, por tão ostensivamente manifestarem a total ausência de matéria prima. A Renascença bem podia estar a salvo destes dislates ou então comunga da mesma opinião.
  • Justus
    28 ago, 2016 Espinho 12:36
    Diz um ditado português: "À terra onde fores ter faz como vires fazer". Fazer o contrário é, normalmente, desrespeito pelos costumes e tradições, é provocação. Neste caso dos burkinis, entendo que se trata de uma provocação descarada, não aos franceses mas a toda a civilização ocidental. Quem não está de acordo com os nossos costumes, as nossas tradições, a nossa maneira de ser e estar em sociedade não venha para cá, deixe-se estar na sua terra e use aí as vestimentas que lhes são próprias. Nada tenho contra o uso de burkinis, burkas, mantos ou seja lá o que for. Só não gosto de provocações, de gente que vem para cá ofender, ostensivamente, a nossa cultura. Por amor de Deus, senhora cronista, quem não quer apanhar sol, quem quer esconder o seu corpo dos raios solares, não vai para a praia, fica em casa.Há jornalistas que nunca vêm o essencial, rondam sempre o acessório e aquilo que, na sua ótica, lhes pode trazer alguns dividendos, seja a que título for. Na minha opinião o uso de burkinis e de véus nas escolas tem unicamente por finalidade a provocação e o desprezo pela cultura ocidental.Claro que a nossa cronista, se um dia for a um país muçulmano fazer alguma entrevista, se é que já não o fez, e a obrigarem a colocar um véu na cabeça ela fá-lo-á de bom grado e sorridente, porque a liberdade é só para nós (ocidentais) a seguirmos religiosamente. Os outros, esses podem obrigar-nos a tirar os sapatos, a colocar véus, a tapar as pernas e os braços. Tenha senso, srª cronista.
  • José Silva
    28 ago, 2016 Lisboa 11:47
    Incrível ler tantos dislates! São pessoas como a senhora, que conduziram à situação que vivemos. Se o Ocidente, a Europa em particular, tivesse estabelecido as regras que quem vindo de fora, quer aqui viver por que procura um local livre, civilizado e humanista para cuidar da sua vida, nada disto estava a acontecer! São pessoas como a senhora, quem fomenta o ódio que dizem combater, por que são incongruentes, têm a mania de possuir a verdade moral definitiva, estão sempre a dar lições parvas.Ora houve aqui alguém e li todos os comentários que estas fulanas sobretudo a que foi obrigada a despir aquela aberração supostamente religiosa, estava simplesmente deitada na areia à espera de uma reacção. Ela e os repórteres aos seus serviço, provocaram uma cilada fomentada pela medonha c.s., sempre aliada ao mal, que à falta de profissionalismo faz, hoje, "notícias". A senhora, com o devido respeito, jamais deve ter lido ou estudado algo sobre a Revolução Francesa e os seus pressupostos. Patética é também a atitude de certas "mulheres" que devem ser homens de vestem saias! Como absurda e mentirosas as declarações de uma M. Parente. Há países em praias específicas, maioria de Hotéis ou locais específicos, onde os Ocidentais podem banhar-se, porque, trazem dinheiro. A sua mentira foi logo desmascarada porque o Burkini não faz parte da cultura delas, é uma invenção recente, não há o hábito do seu uso! Portanto mentira! Há quem viaje mais do que você, e tenho a certeza, que jamais aí foi!
  • CF
    28 ago, 2016 Évora 11:47
    Serrando o tronco em que assentamos a liberdade, demonstramos aos barbudos um fundamento para a destruir.
  • Veloso
    28 ago, 2016 lisboa 09:34
    Quando uma burquinista se fizer explodir numa praia,o uso nesta altura é um ensaio e uma provocação apos os atentados em França,quero ver que tipo de comentários farao.Visitem Países muçulmanos não laicos e vejam os comportamentos a ter.Parece haver fraca memoria porque os atentados ainda não atingiram grandes eventos ou alvos em Portugal ,mas em França os atentados sucedem-´se e estão em estado de guerra e emergência,logo há limitações por razoes de segurança.Em França existem mais de um milhão de portugueses ,quantos querem ver mortos?Sarkozy que avança mais uma vez para a presidência da republica francesa tem como prioridade acabar com a burka,burquini etc,é um conhecedor atento e no terreno e quer a todo o custo evitar mais chacinas e defender a sua Pátria e a vida dos franceses,será ele um ser indiferenciado ,estará enganado?Esta tentativa de ingerência nos assuntos internos franceses quando estão em causa vidas humanas será lúcida?