Opinião de Graça Franco
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Portugal tem mesmo de arder?

08 ago, 2016 • Opinião de Graça Franco


Nas zonas florestais praticamente desertas de um Portugal cada dia mais pobre, parece bastar um raio de sol para que as matas por limpar acabem transformadas em infernos onde os mais desprotegidos e os mais idosos são vítimas particularmente vulneráveis.

Não tem de ser assim. Ou tem? Afinal, o que nos foi vendido como um notório progresso de uma nova estratégia de combate aos fogos (atacar massivamente o seu começo, utilizando uma flexibilização acrescida dos meios aéreos disponíveis) e que todos saudámos nos últimos anos não terá passado de uma pequena série de anos excepcionalmente chuvosos.

Regressados o sol e a seca, a cena ameaça repetir-se e, ao primeiro fim-de-semana de calor intenso, o país, de Norte a Sul, parece ter pegado fogo. Por ironia, repetem-se também os velhos bodes expiatórios: bombeiros e protecção civil. Ironicamente, aqueles que, apesar de tudo, salvam vidas e bens. Uns criticam-se porque não conseguem dar conta do recado (embora na maioria dos casos seja óbvia o seu estado de exaustão) e outros porque ora não planearam a tempo, ora planearam mal, ora desmobilizaram cedo de mais.

Pelo meio da confusão que sempre se gera nestes casos, inocentam-se por igual as vítimas: as que, além de terem cumprido com os respectivos deveres de limpeza das matas circundantes e prevenção dos respectivos haveres, sofreram por incúria dos respectivos vizinhos e os que acabam vítimas da sua própria negligência e irresponsabilidade, colocando em risco desnecessário, além dos haveres próprios, também os de vizinhos e conterrâneos. Tudo se dilui numa emotividade acrítica.

Os próprios meios de comunicação social acabam vítimas da dinâmica clássica da voragem dos fogos. Sem temas alternativos e presos ao relato da realidade, vão dando conta do alargar da fogueira. São por demais conhecidos os efeitos miméticos que o seu relato tem sobre os pirómanos, pelo que acabam por ser causa indirecta da propagação do crime. Não por acaso, mais de um terço dos fogos deflagraram, nos últimos dias, em plena noite, mostrando até que ponto a origem criminosa ganha dimensão.

Se nos colocarmos na pele dos emigrantes de segunda e terceira geração, é fácil imaginar a recordação que levarão ano após ano para os países de acolhimento do país de origem dos pais e avós (quantos anos ouvimos o nome da Pampilhosa ou de Águeda no historial dos fogos recentes?) e, se nos colocarmos na pele dos turistas, não deixaremos de pensar o que nos aconteceria se nos fosse dado presenciar o caos como o da região Norte, onde até o plano de emergência teve de ser accionado pelos fogos de Verão.

A desertificação do interior e o envelhecimento galopante do país interior explica uma boa parte da dimensão do desastre e a recente emigração de milhares de jovens explicará outro tanto nas poucas zonas mais densamente urbanizadas.

Nas zonas florestais praticamente desertas de um Portugal cada dia mais pobre, parece bastar um raio de sol para que as matas por limpar acabem transformadas em infernos onde os mais desprotegidos e os mais idosos são vítimas particularmente vulneráveis.

Mas há, para além disso, muitas coisas que ficam por explicar: conhecido o perigo e perante a evidência da falta de braços para a limpeza privada porque não previnem as autarquias com limpa-fogos o que os privados não podem realizar?

As imagens são claras sobre o estado de incúria e abandono que serve na maioria dos casos de pasto às chamas. Como é que nem os parques e matas estatais parecem estar ao abrigo da falta de estratégia quer na prevenção quer na reflorestação pós incêndios. E uma adequada reflorestação é tanto ou mais importante em matéria de combate e prevenção quanto a limpeza das matas.

Enquanto continuarmos a pensar que o combate aos fogos é quase exclusivamente matéria da competência do Ministério da Administração Interna não nos veremos livres do flagelo.

Enquanto desconhecermos que esta é uma matéria multiministerial onde Educação, Cultura, Defesa e Agricultura desempenham um papel tão ou mais importante do que o MAI continuaremos dependentes da Meteorologia para saber se cada ano é ano de sucesso ou de fracasso no combate aos fogos.

Isto é claro, já para não falar da visão economicista que legitima que se “poupe” na contratação e nas horas extraordinárias dos vigilantes da floresta o que se gasta depois na mobilização dos meios aéreos de combate aos fogos.

Esperemos ao menos que, passado o Verão, não se espere de novo por Junho do próximo ano para retirar as lições de mais esta revoada de incêndios. Outubro é uma boa ocasião para pensar nos custos/benefícios de uma estratégia global de combate aos fogos na próxima década. Não deve ser aqui que as recomendações austeritárias se devem aplicar.

Comentários
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  • graciano
    22 ago, 2016 alemanha 13:22
    a pergunta portugal tem mesmo que arder a resposta correcta sera -- sim-- e porque ---por muitos motivos porque os incendios em portugal se tornaram a maior fonte de riqueza e de protagonismo para muita gente ha muita gente a enrriquecer a custa dos incendios
  • Rogerio
    17 ago, 2016 lisboa 19:12
    Nesta altura do campeonato a única solução é devastar partes das florestas para criar zonas tampão.Ao ativar um incendio seria mais fácil controla-lo e se n o conseguissem arderia só essa parte da plantação.A florestação continua é a grande culpada destas desgraças e o fato de algumas autarquias permitirem a construção junto de florestação subsidiada tb contribui pra agravar o problema.. Alem disso só 1% dos incêndios são expontaneos ,os restantes 99% são de origem criminosa ou por negligencia.Acordem.
  • Miranda
    11 ago, 2016 Porto 20:32
    A minha convicção de há anos é que grande maioria dos fogos tem Origem CRIMINOSA. O que foi feito entretanto ? Aliás existem mais ignições em Portugal do que em Espanha ou França com muito mais população, o que é significativo. Além disso nos 3 Meses de Verão a Vigilância preventiva deveria ser um facto e creio não ficaria muito dispendiosa. O arvoredo também não é o ideal longe disso como o Eucalipto. E claro a não ser feito nada de adequado continuaremos com grandes prejuízos para as Populações, País ( Inundações, secas) e Muito para o Ambiente, sobretudo no que toca a AGUA potável...
  • Luis
    10 ago, 2016 Lisboa 09:11
    Os comandantes dos Bombeiros voluntarios também têm alguma responsabilidade em não haver um combate eficaz relativamente à limpeza das matas . Comando e não bombeiros. Os bombeiros necessitam de subsidios camararios e têm com as câmaras uma relação próxima, relação essa que é reciproca. Os Comandantes de Bombeiros nas Câmaras são grandes angariadores de votos para os candidatos autarquicos. Se todos os Comandantes, que são aqueles que verdadeiramente conhecem o terreno, tivessem uma atitude mais pró activa junto das Juntas e das Câmaras no sentido de estas fazerem cumprir aquilo que a lei determina isso poderia contribuir para uma enorme redução de incendios. Aos comandantes dos bombeiros também compete prevenir e não só remediar. Há também que ter respeito pelos homens que comandam e não só ter preocupações de ordem pessoal, de amizade e partidaria. O problema é que em tudo que tem a haver com o Estado este funciona como uma "Irmandade" onde muitas vezes os interesses dos cidadãos são secundarizados por interesses ilegitimos. Esse outro combate dificil de travar.
  • Luis
    10 ago, 2016 Lisboa 08:35
    Tem mesmo de arder, enquanto aquilo que deve ser feito for negligenciado por incompetência ou por interesses ilegitimos. O principal e o maior combate tem que ser feito na prevênção mas isso dá muito trabalho e origina muitos conflitos a todos os responsáveis (milhares) que em vez de terem uma atitude preventiva fiscalizadora optam por descansarem os seus gordos rabos a uma secretaria aguardando por brutos ordenados no final do mês. As matas têm que ser limpas, as do Estado e as dos particulares. Os muitos que vivem de subsidios (que nunca fizeram nada) devem ser utiizados nas limpezas das matas do Estado. Aos particulares que não limpam as matas, coimas pesadissimas. Aos que têm terrenos há anos ao abandono ou utlizam-nos, ou arrendam-nos ou serão confiscados. Basta,basta,basta. Todos os anos as mesmas tragedias, todos os anos as mesmas desculpas, todos os anos as mesmas negociatas e todos os anos a mesma vergonha. Tenham respeito pelos desgraçados dos bombeiros e não se esqueçam que somos demasiado pobres para gastar dinheiro no ataque a incendios que resultam na sua maioria por culpa de muitos responsáveis incompetentes, desonestos e tachistas. Acabar de vez com a treta de que o incendiario coitadito é bêbedo, ou é maluco, ou é maniaco depressivo por que a mulher o pôs a andar é desculpabilizar criminosos que têm que ser devidamente punidos. Fazer dos incendios um espectáculo com noticiarios de horas nas televisões deveria ser proibido pois isso não é informação.
  • António Pais
    09 ago, 2016 Lisboa 23:14
    Tem ... com as leis permissivas, tem. Com a negligência do cigarro para fora da janela, têm. Além claro dos supostos negócios.
  • Vasco
    09 ago, 2016 Santarém 22:03
    Quando vemos nas imagens televisivas terrenos junto às casas atulhados de mato penso que as pessoas não se poderão queixar muito da desgraça que os atormenta a não ser da inércia das leis e das autoridades em continuar a deixar que cada um faça o que muito bem entende, depois temos a conversa sobre os incendiários várias vezes repetentes no crime e que continuam ano após ano à solta, se falarmos da falta de acessos e de pontos de água e de vigia e pergunto até porque razão as forças armadas não poderão vigiar o país durante três ou quatro meses de verão em vez de estarem estendidos na caserna sem nada para fazer e a receber salário parece chegarmos à conclusão que quase tudo está por fazer no combate aos incêndios e que a vontade para tal por parte de quem deveria ser responsável neste país parece nula.
  • José alberto Silva
    09 ago, 2016 Brenha - Figueira da Foz 18:52
    Boa tarde, li o seu artigo e acho que foca de forma geral o que deveria ser feito para precaução dos incêndios. Vou sintetizar uma experiência de quando jovem. Vivia num pequeno aglomerado habitacional agrícola e no verão era obrigado a decapar espigas á noite e lembro-me de vermos lá da aldeia o começo de um incêndio quase por sistema sempre no mesmo sítio era de um pinhal de um eng. da cidade que não o limpava á decadas, nos restantes nunca se incendiavam porque todos eram limpos para os páteos agricolas para fazer humus para os terrenos agrícolas. Uns anos mais tarde convidaram-me para ser candidato a uma junta de freguesia onde moro e como sou conhecedor do flagelo que são os incêndios, nas reuniões de estratégia para a campanha falei que gostaria de projetar uma empresa colateral á autarquia com equipamento e um número reduzido de colaboradores para fazer a limpeza da floresta contígua tanto floresta nacional como privada, matando dois coelhos de uma cajadada, pois criaria postos de trabalho e faria da nossa floresta uma zona asseada motivadora de um turismo saudável e empregando os resíduos para fins industriais como pellets e bio humus. Pois esses meus ideais foram alvos de gargalhadas porque era utópico demais para implementar. Ainda hoje continuo a pensar onde estão as pessoas responsáveis deste país que são duma habilidade constrangedora em criar impostos multas por tudo e por nada mas tem medo de avançar com um projeto destes a nível nacional.
  • Pedro
    09 ago, 2016 Anadia 14:01
    Um outro aspecto se calhar mais sociológico/politico tem a ver com o facto de para grande parte da população urbana, o problema dos incêndios ser um problema mais ou menos remoto. Repare-se na forma como é tratada pela comunicação social o fumo que chegou a Lisboa vindo de um incêndio em Loures. De facto uma coisa é ler/ver imagens sobre fogo, outras é sentir a cara a escaldar quando se está perto dele. Quem já sentiu o fogo perto não esquece.
  • Pedro
    09 ago, 2016 Anadia 13:59
    Todos os aspectos referidos no artigo e nos comentários são correctos. Falta ordenamento do território, limpeza das florestas, população envelhecida, mão criminosa, etc. Mas gostaria de pegar na forma como a meu ver, nós portugueses vemos/tratamos erradamente este problema. Um fogo florestal deveria de ser um acontecimento extraordinário, resultado de um descuido, de um acidente qq coisa rara que desse origem a um incêndio e não um acontecimento rotineiro. Devíamos ficar chocados, abalados, envergonhados e profundamente tristes com um incêndio florestal. Na verdade a maioria de nós acha normal que no verão tenhamos milhares de incêndios, até temos a chamada época de incêndios. Para além de todas as medidas enunciadas, chegou-se ao ponto de ter de tratar esta questão como uma guerra. Entre outras medidas, as populações que vivem nas zonas rurais devem ser preparadas/instruídas para lidar com o fogo. Qualquer pessoa que viva por exemplo na serra do Caramulo deve ter em casa material sapador, deve saber usa-lo, prq em caso de emergência pode fazer toda a diferença. E como se tem visto a probabilidade de o ter de usar é infelizmente muito grande.